Eram cinco crianças, quatro mães, um pai e uma esperada tarde de domingo. Maria Fernanda, Cecília, Hadassa, Helena e Kissyla chegaram ao cinema com aquela energia que só a infância tem: barulhentas, animadas, prontas para a aventura. Saímos cheios de coisas para pensar. Toy Story 5 é exatamente esse tipo de filme, que coloca a tela no ‘banco dos réus” e nós, pais, no divã.
Trinta e um anos depois de Woody e Buzz Lightyear inaugurarem uma nova era do cinema de animação, a Pixar volta com sua franquia mais querida para contar histórias de criança que adultos precisam processar. Desta vez, porém, o recado é direto, desconfortável e, convenhamos, absolutamente necessário para a saúde mental das famílias.
Toy Story 5: resumo sem spoilers
Bonnie, agora com 8 anos, é a dona dos brinquedos herdados de Andy em Toy Story 3, quando o garoto do primeiro filme, foi para a faculdade e doou os companheiros da infância para a creche Sunnyside. Ao longo dos filmes seguintes, vimos Woody partir para uma nova jornada ao lado de Betty (a pastora rebelde que muita gente subestimou no quarto filme), enquanto Jessie assumiu o comando do quarto da pequena criança com Buzz Lightyear como seu braço direito.
É aqui que o filme dá a primeira rasteira no espectador: Woody aparece…calvo. Sim, você riu quando leu isso! Eu ri, você riu, nós rimos! Se aquele chapéu de cowboy antes cobria uma vasta cabeleira, agora a luz reflete na cabeça lisa. A risada é instantânea e coletiva (de identificação também!). Mas por trás dela, há algo quase poético: até o brinquedo favorito de gerações envelhece, e consequentemente, nós também.
Preocupados com a dificuldade da filha em fazer amigos, os pais de Bonnie tomam uma decisão que qualquer família reconhece: presenteiam a menina com Lilypad, a Lily, um tablet infantil. A aposta é na tecnologia como ponte para a socialização. Spoiler brando: a ponte tem buracos.
Ah, sobre a Jessie. Fique atento pois ela tem uma história pessoal que corre em paralelo à essa aventura.
Tecnologia e infância: o tema central do filme (e da nossa vida)
Toy Story 5 não tem um vilão de plástico, nem um colecionador obcecado. O antagonista desta vez é uma tela e o filme é honesto o suficiente para admitir que a tela não é má por natureza. Mas é claro que os realizadores não poderiam ser hipócritas em fazer isso. Afinal, daqui a pouco este filme estará no seu streaming para fazer companhia ao seu filho enquanto você precisa trabalhar no seu computador ou smartphone. (Seja honesto com você mesmo ao ler isso, porque eu tô contigo, eu também faço!)
A psicóloga Julia Trani, coordenadora de qualidade pedagógica do Grupo SIS (Swiss International School Brasil), aponta um detalhe importante nesse triângulo de amor e pavor com as telas “Falamos muito sobre quantas horas as crianças passam diante das telas. Talvez devêssemos perguntar também quantas vezes, ao longo do dia, elas encontram um olhar verdadeiramente disponível quando tentam compartilhar algo importante”.
A especialista é direta: “As crianças não precisam de uma presença perfeita. Precisam de presença real. Muitas vezes, alguns segundos de atenção plena têm mais impacto do que horas de convivência divididas entre notificações, mensagens e distrações”, analisa Julia, adicionalmente colocando um dedo na ferida, o tal “tempo de qualidade”.
Quando a conectividade se torna isolamento
No filme, Lily se apresenta como um tablet com charme, inteligência, e tem boas intenções. O problema está no que acontece quando ela se torna o único mundo de Bonnie. A Pixar constrói esse argumento cena a cena:
- A promessa: Lily conecta Bonnie às crianças do bairro por uma rede social local: uma solução tecnológica para um problema real de socialização.
- A realidade: A rede rapidamente se torna ambiente de bullying, mostrando como plataformas digitais são tão vulneráveis quanto os pátios de escola, só que sem adulto nenhum por perto.
- O paradoxo: A festa do pijama, uma das cenas mais perturbadoras do filme: meninas no mesmo quarto, sem trocar uma palavra. O pique-pega acontece na tela. A conversa acontece na tela. O que deveria ser presença vira ausência com Wi-Fi.
Fique atento: há uma pegadinha após essa sequência. Você verá que a conectividade transita de vilã a aliada. Você se pegará torcendo para as crianças saírem das telas e, logo depois, ficará chateado ao ver o brinquedo sem pilha ou descarregado quando uma mensagem importante precisa chegar a Bonnie.
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Por outro lado: os brinquedos que salvam
Jessie — que não atende por “Jéssica”, obrigada (ela fica bem brava) — é quem nomeia o problema com a clareza que só um brinquedo de cowgirl consegue ter: os eletrônicos envelhecem a criança antes do tempo. E ela não está errada. Nesse ponto, vale falar da Blaze, uma menina que vive na fazenda, tem brinquedos, casa de boneca abandonada no mato, um cavalo e um porco.
Eu não identifiquei sua idade exata, mas ela é a personagem que mostra que é possível unir na brincadeira e na criatividade dos bonecos, dos animais e dos brinquedos eletrônicos mais antigos — que, quando chegaram no primeiro filme, já eram uma forma de tecnologia, não é mesmo? Afinal, o que era o Buzz Lightyear quando chegou no filme número 1?
Saúde mental infantil: o que o filme acerta (e a ciência confirma)
O roteiro de Toy Story 5 dialoga diretamente com o que pesquisadores de saúde mental infantil têm alertado nos últimos anos. O isolamento social mediado por telas, o bullying digital, a dificuldade crescente de crianças em manterem contatos presenciais. Não são ficção. São dados de consultório e de escola.
Quando uma criança chama um adulto para mostrar um desenho, contar uma história ou celebrar uma conquista, ela não está apenas compartilhando uma informação. Ela está buscando reconhecimento. Está procurando alguém que diga, mesmo sem palavras: ‘eu vi você'”, afirma Julia, que também é especialista em Educação pela PUC Rio.
E que o filme mostra com particular sensibilidade é o paradoxo da conexão digital: a tecnologia que deveria aproximar pode aprofundar a solidão quando substitui, em vez de complementar, as interações reais. E o que a psicóloga explica é são os pequenos momentos de validação que constroem a infância. São justamente as situações simples que passam despercebidas na nossa correria, mas ajudam a formar autoestima, segurança emocional e senso de pertencimento.
Existe algo muito importante em ser visto por alguém que é significativo para nós. Quando uma criança percebe que suas descobertas, esforços e conquistas encontram acolhimento, ela entende que aquilo tem valor. E, de certa forma, entende também que ela própria tem valor”, conta. E com esse presente que os pais acreditam que a Bonnie vai ter sensação de pertencimento é que o contrário acontece.
Bonnie não fica mais conectada depois de Lily. Ela fica mais isolada, com uma rede social no bolso e nenhuma amiga para simplesmente brincar. Claro que tiveram referências típicas da Disney com seus “Easter eggs”: o casaco com capuz, por exemplo, logo lembra o personagem Vergonha de Divertida Mente 2.
Pontos para você guardar e que os especialistas chamam atenção:
- Crianças entre 6 e 10 anos estão em fase crítica de desenvolvimento das habilidades sociais presenciais, habilidades que não se desenvolvem em chats, que aliás podem expor crianças aos maiores riscos.
- O tempo excessivo de tela está associado a maior ansiedade, dificuldade de concentração e menor tolerância à frustração.
- A interação face a face, com toda a sua imprevisibilidade, silêncio e negociação, é insubstituível para a formação emocional.
- Bonnie sem Lily era uma menina tímida, mas criativa e articulada. Bonnie com Lily se tornou uma menina dependente, menos presente, vulnerável, mesmo estando em todo lugar ao mesmo tempo.
E nós, adultos? O espelho mais incômodo do filme
Senta aqui comigo no sofá e vamos conversar. Toy Story 5 reserva seus momentos mais sutis e mais certeiros para nós adultos. Em cenas aparentemente secundárias, pais e responsáveis aparecem ao fundo, absortos em seus próprios dispositivos, enquanto as crianças navegam sozinhas por situações em que deveriam ter supervisão. Não é coincidência de roteiro. É uma escolha de narrativa. A Pixar aponta, sem precisar dizer em voz alta: o problema não começa na mão da criança.
Em suma, saí do cinema pensando em quantas vezes peguei o celular enquanto a Maria Fernanda tentava me contar alguma coisa. Em quantas “festas do pijama” do filme já aconteceram perto de mim, e eu estava ocupada demais com a minha própria tela para notar. Sim, senhoras e senhores, temos que olhar na lente da verdade, como dizia Clodovil Hernandes.
A psicóloga Julia compartilha uma pergunta que vale levar na bagagem do dia a dia: “Talvez a pergunta que o filme nos deixa não seja se as telas estão substituindo os brinquedos. Talvez a pergunta seja outra: em meio a tantos estímulos, estamos conseguindo enxergar as crianças quando elas mais precisam de nós?”
Toy Story 5 não julga. Convida. Convida a olhar para o lado. Para a criança ao nosso lado. Para a amiga que ela precisava fazer mas não conseguiu porque ninguém estava prestando atenção.
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Vale a pena assistir? Sim e com a autocrítica no modo ON
Do ponto de vista cinematográfico, o filme entrega o que a franquia sempre prometeu: uma montanha-russa emocional que não subestima nenhum espectador, seja ele de 6 ou 46 anos. Em pouco mais de 100 minutos, a plateia passa pela ansiedade de uma aventura fora do controle, pela curiosidade dos próximos passos, pela dor real de uma rejeição (porque rejeição dói em qualquer idade) e pela torcida genuína por uma amizade que ainda não sabe se vai dar certo. As cinco crianças ao meu lado riram, sorriram, se encolheram na poltrona e torceram.
A trilha continua sendo o abraço sonoro que a franquia nunca perdeu. E a canção original com Taylor Swift que encerra o filme, é aceno carinhoso para os adultos que cresceram com Andy e Woody e agora assistem ao filme com seus próprios filhos no colo.
E se você achou a voz da Lilypad famíliar é porque ela é mesmo: a Maisa…aquela menininha que mexeu no topete de peruca do saudoso Silvio Santos e seguiu carreira como cantora dá voz à vilã tecnológica. Mais uma conexão com a frase: todos nós crescemos.
Dica essencial: não saia durante os créditos finais
Se você for ao cinema, deixo claro que isso não é publi (mas bem que a #Disney #Pixar #ToyStory5 pode me chamar que estou pronta!). Mas deveria ir e curtir com seus amigos ou crianças e fique na sala até o final dos créditos. Como já é tradição nos grandes lançamentos, Toy Story 5 reserva uma cena pós-créditos. Sem spoilers aqui, mas vale cada segundo de espera.
Leve para casa (além da pipoca)
Toy Story 5 é um filme de família no sentido mais completo da palavra — não porque é “para criança”, mas porque coloca em cena as tensões que toda família enfrenta hoje: como equilibrar tecnologia e presença, conexão digital e contato real, autonomia infantil e supervisão adulta.
A Pixar não dá respostas fáceis. Dá perguntas honestas. E às vezes, é exatamente isso que precisamos.
Toy Story 5 está nos cinemas. Leve as crianças. Vai ter produto de todo tipo na sua frente: de copos do Woody na UCI à febre dos body splashes de corpo e cabelo no Boticário, até Bepantol temático vai brotar. E tem cada coisa fofa. Mas leve também a sua autocrítica: ela vai precisar de espaço.










