Do que você mais gostava de brincar quando era criança? As lembranças da infância trazem nostalgia para a auxiliar de limpeza Hozana da Silva, que recorda nitidamente suas brincadeiras favoritas na rua –pique-bandeira, pique-esconde, jogar bola, queimada. “Tudo isso eu aproveitei. Eu não vejo crianças brincando mais. Eu vejo as crianças muito sentadas com a mãe, com o celular na mão”. lamenta.

O relato da Hozana revela como o ato de brincar passa por uma metamorfose profunda. Atividades tradicionais ao ar livre, que marcaram gerações anteriores, hoje coexistem e frequentemente perdem espaço para o confinamento doméstico e o universo digital.

Celebrado este ano de 23 a 31 de maio, a Semana Mundial do Brincar destaca a importância da conexão e do desenvolvimento na infância evidencia a transformação nas formas de diversão. A presença digital ganhou terreno no mundo real, e as brincadeiras ditas tradicionais tiveram que coexistir com as telas.

Impulsionadas pela insegurança nas ruas e pelas rotinas exaustivas de pais e mães que trabalham excessivamente, muitas famílias acabam delegando às telas a função de preencher o tempo ocioso e o tédio das crianças. Essa transferência de cuidado para os dispositivos eletrônicos, contudo, cobra um preço alto do desenvolvimento infantil.

O ciclo vicioso da dependência

De acordo com a terapeuta ocupacional Amanda Sposito, da Universidade de São Paulo (USP), o uso desmedido da tecnologia gera um ciclo prejudicial de perda progressiva da imaginação ativa. Amanda é orientadora do estudo “Tecnologias digitais moldam o novo brincar infantil”, que avaliou o comportamento de 14 crianças. A pesquisa constatou uma realidade preocupante: quando afastados dos celulares e tablets, os pequenos demonstram imensa dificuldade para criar e conceber dinâmicas próprias de diversão.

As próprias crianças dizem que têm muita dificuldade de pensar em brincadeiras possíveis de serem feitas quando elas estão fora da tela. Então elas estão cada vez mais dependentes de ter um adulto conduzindo, um adulto propondo as atividades. Seja uma mãe, uma tia, um professor ou um monitor. Então, quanto mais as crianças ficam imersas em tela, menos criatividade elas têm, menos coisas elas conseguem fazer na vida real e isso joga elas de novo pras telas para ocupar o ócio e o tédio.”

Riscos para a saúde física e mental

Os prejuízos do excesso de telas vão muito além da falta de criatividade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria estabelecem limites rigorosos de tempo de exposição diária, segmentados por faixas etárias, devido aos impactos no comportamento e à saúde global das crianças. O uso abusivo está associado a:

  • Interferências graves no desenvolvimento cognitivo e no rendimento escolar.

  • Problemas de ordem emocional, além de distúrbios oculares, auditivos e ortopédicos.

  • Exposição ao cyberbullying e a conteúdos inadequados.

Para evitar a dependência, os aparelhos nunca devem interceptar momentos biológicos essenciais, como o horário de dormir ou o período dedicado às refeições.

O caminho do meio: administração responsável e inclusão

Para educadores e familiares, a solução ideal não é banir a tecnologia, mas sim administrá-la com responsabilidade por meio de monitoramento ativo e diálogo. Aplicativos de controle parental surgem como ferramentas úteis para restringir horários e filtrar cenas inapropriadas.

Além disso, a tecnologia pode atuar como um vetor benéfico quando associada à educação e ao desenvolvimento social. É o caso do projeto social Gaming Park, criado em 2022, que atende jovens de 8 a 17 anos em comunidades periféricas, como a favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, e na cidade de Vitória, no Espírito Santo. O projeto conecta os jogos eletrônicos ao ensino multidisciplinar, estimulando planos de carreira nos e-sports e promovendo ações de solidariedade nas comunidades.

Dara Coema, coordenadora técnica da iniciativa, enfatiza que os jogos competitivos e culturais são capazes de transmitir valores fundamentais de trabalho em equipe, sociabilidade e comunicação. O segredo reside em um consumo crítico e contextualizado.

Educação midiática e dever das plataformas

A superação desse cenário exige letramento digital coletivo. Para as crianças, a educação midiática representa a oportunidade de compreender o funcionamento de algoritmos, identificar as armadilhas de retenção de atenção, discutir sobre privacidade, compartilhamento de dados e combater notícias falsas (fake news). Conscientizar os menores sobre o motivo pelo qual determinado conteúdo é ou não saudável cria cidadãos digitais autônomos.

Por fim, os especialistas alertam que a cobrança por equilíbrio não deve repousar unicamente sobre os ombros dos responsáveis. É urgente que haja uma fiscalização rigorosa sobre as empresas detentoras das plataformas digitais, responsabilizando-as para que parem de desenvolver mecanismos que estimulem o uso excessivo e compulsivo de telas na infância

Com informações da Agência Brasil

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