O ato de brincar constitui a principal plataforma de expressão de sentimentos e emoções durante os primeiros anos de vida. Muito além do entretenimento, a interação lúdica apoia as funções cognitivas, motoras, emocionais e sociais, agindo como um termômetro capaz de sinalizar aos adultos quando algo não vai bem na rotina da criança. No encerramento da Semana Mundial do Brincar, neste domingo (31/5), especialistas reforçam que a presença ativa dos cuidadores cria relações seguras que geram impactos positivos até a adolescência e a vida adulta.

Essa visão ganhou força institucional no Brasil através da “Lei do Brincar” (Lei 14.826/2024), legislação que institui a parentalidade positiva e o direito ao brincar como estratégias prioritárias para a prevenção da violência contra crianças. Para ajudar as famílias a construírem memórias afetivas profundas e longe das telas, especialistas do ChildFund Brasil e do Hospital Pequeno Príncipe mapearam as melhores atividades lúdicas para cada fase do crescimento.

O elo entre a ludicidade e a proteção infantil

O ato de brincar em conjunto vai muito além de distrair os filhos; ele abre um canal direto de comunicação e segurança. De acordo com Mauricio Cunha, presidente executivo do ChildFund, a linguagem do brincar é a ferramenta mais poderosa que a criança possui para se colocar no mundo.

Ter a figura materna, paterna ou cuidadores de referência na hora das brincadeiras, seja participando da atividade ou apenas com um olhar e toque, já é o suficiente para que as crianças vejam no adulto uma pessoa para quem podem contar as coisas. Na primeira infância, elas só têm a linguagem do brincar, então, reforçar isso é de extrema importância e faz com que as relações carinhosas, alegres e seguras se estendam até a fase da adolescência ou até mesmo quando adultos”, afirma.

A psicóloga Rita Lous, e gerente do Setor de Voluntariado do Hospital Pequeno Príncipe, complementa que o olhar da criança ressignifica a realidade de uma forma única, e que o adulto precisa validar essa experiência.

Os adultos olham para um carrinho e veem apenas um carrinho. Já as crianças olham para o objeto e podem transformá-lo, além de colocar o sentido que quiserem no que estão brincando. Essa é a riqueza do brincar”, pontua Rita Lous.

Ao garantir o direito ao brincar e reservar um tempo qualificado para essas experiências, as famílias e instituições protegem a saúde mental infantojuvenil l e criam uma base sólida para que os futuros adultos tomem decisões e enfrentem desafios com maior resiliência

O brincar não deve ser visto apenas como entretenimento, mas como parte fundamental da formação. Experiências lúdicas vividas na infância acompanham a criança na adolescência e também na vida adulta, impactando a forma de se relacionar, enfrentar desafios e tomar decisões. Quando famílias, responsáveis e instituições reconhecem esse direito, contribuem para uma sociedade mais acolhedora, saudável e segura”, diz Mauricio Cunha 

O perigo da “babá digital”

A tecnologia e os dispositivos móveis não devem ser utilizados como ferramentas de conveniência para silenciar ou distrair os filhos quando os pais estão ocupados. Sem a devida mediação, as crianças ficam vulneráveis a conteúdos impróprios para a idade. Nestes momentos, a recomendação é estimular a habilidade que os pequenos têm de brincar de forma solitária e espontânea, munindo-os com objetos que despertem seu interesse analógico.

Por exemplo, em momentos nos quais os pais ou responsáveis estão executando alguma atividade e não podem ficar com a criança, é perigoso fornecer o uso das telas, pois ela pode acessar conteúdos impróprios para a idade”, adverte a psicóloga.

Nesses cenários de correria diária, a especialista recomenda que os pais ofereçam atividades físicas de interesse dos filhos, estimulando a independência. “Elas têm a habilidade de brincarem sozinhas, terem um aprendizado espontâneo e se divertirem com o que tiverem brincando”, esclarece Rita.

Como balizador, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) preconiza que menores de 2 anos tenham exposição zero a telas; de 2 a 5 anos, o limite é de uma hora diária; de 6 a 10 anos, entre uma e duas horas; e, dos 11 aos 18 anos, de duas a três horas diárias, sempre sob supervisão.

Vitrine lúdica: o que propor em cada idade

Cada etapa da infância possui particularidades e processos de aprendizagem específicos. O olhar do adulto sobre um brinquedo difere do olhar da criança: enquanto o primeiro enxerga apenas a forma física, o pequeno transforma o objeto e atribui a ele o significado que desejar.

Confira o roteiro prático de atividades recomendadas pelos especialistas para estreitar vínculos e potencializar o desenvolvimento:

De 0 a 2 anos: Estímulo sensorial e conexão emocional

Nesta fase, os bebês estão descobrindo o próprio corpo e o ambiente. O foco deve ser incentivar os movimentos, a experimentação e a audição.

  • Brincadeiras de imitação e sons: Cantar músicas acompanhadas de gestos, fazer caretas em frente ao espelho e bater palminhas ajudam a desenvolver a linguagem.

  • Exploração tátil: Manipular jogos de encaixar, interagir com livros e bolinhas de pelúcia com diferentes texturas, cores e sons favorece a coordenação motora inicial.

De 2 a 3 anos: Imaginação em expansão e autonomia

Nessa idade, as crianças já andam, brincam sozinhas e demonstram grande energia.

  • Desenho das emoções: Estimular rabiscos e pinturas que expressem sentimentos.

  • Classificação colorida: Brincar com objetos e brinquedos coloridos diversos, incentivando a criança a separá-los e organizá-los por cor.

  • Jogos de imitação: Brincadeiras simples que emulem atividades cotidianas dos adultos.

De 3 a 5 anos: O auge do simbolismo e regras simples

A partir desta fase, os pequenos desenvolvem maior independência e começam a demonstrar personalidade, gostos claros e identificação com personagens. Também passam a compreender regras leves.

  • Faz de conta estruturado: Montar cabanas com lençóis ou barracas no meio da sala e brincar de casinha ajudam a expressar sentimentos e a compreender o funcionamento do mundo exterior.

  • Arte e modelagem: Jogos com colagem, uso de massinha de modelar, blocos de montar, pintura e a criação de fantasias próprias.

  • Brincadeiras de roda: Dinâmicas tradicionais como o “passa anel”.

De 6 a 8 anos: Raciocínio lógico e trabalho em equipe

Inseridas no ambiente escolar, as crianças dessa faixa etária estão aprimorando a alfabetização e o pensamento analítico. O vínculo se reforça através do compartilhamento de ideias.

  • Desafios cognitivos: Montagem de quebra-cabeças, jogos de memória e partidas de futebol de botão.

  • Expressão coletiva: Desenhos feitos em conjunto, criação de histórias em parceria e dinâmicas de mímica.

  • Movimento no espaço: Brincadeiras tradicionais como caça ao tesouro, pular corda e esconde-esconde.

De 9 a 12 anos: Cooperação, esportes e estratégia

Aqui, a comunicação está consolidada e as preferências individuais por tipos de lazer são bem definidas.

  • Jogos estruturados: Partidas de jogos de tabuleiro, baralho, jogos de cartas e desafios mentais coletivos.

  • Atividades físicas e hobbies: Praticar esportes ao ar livre, colecionar e trocar álbuns de figurinhas ou cultivar pequenas hortas residenciais em conjunto.

Adolescentes: Espaço de escuta, diálogo e transição

Engana-se quem pensa que adolescentes não precisam da parentalidade lúdica. Nesta fase de transição para a vida adulta, o foco muda para a validação da confiança.

  • Rodas de conversa lúdicas: Utilizar jogos de perguntas e respostas para abrir canais de diálogo espontâneos.

  • Parcerias cotidianas: Dividir a execução de uma receita gastronômica em família ou realizar sessões de karaokê em casa.

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Com assessorias

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