A pré-eclâmpsia e a eclâmpsia figuram há décadas no topo das causas evitáveis de morte na gestação no Brasil, superando quadros de hemorragia e infecção. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 80 mil mulheres e 500 mil bebês morrem anualmente no mundo devido à condição. Em território nacional, a doença responde por um em cada quatro óbitos maternos, atingindo cerca de 1,5% das gestantes em geral e superando 7% em mulheres na primeira gravidez.

No Dia Mundial da Pré-Eclâmpsia (22 de abril),  especialistas chamam atenção para o cenário nacional sobre a condição, que reflete profundas desigualdades regionais. Em áreas de menor desenvolvimento socioeconômico, a mortalidade materna decorrente da doença pode atingir a marca de 22%. Além disso, o problema é responsável por cerca de 20% dos partos prematuros no país, gerando uma alta demanda por leitos de UTI Neonatal.

Quando a condição evolui para a eclâmpsia, surgem as convulsões associadas ao quadro hipertensivo. Trata-se de uma emergência médica que exige internação imediata em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), como ocorreu recentemente com a servidora pública Wilmara Bentes da Silva, de 33 anos.

Atendida no Hospital Regional Abelardo Santos (HRAS), em Belém (PA), ela permaneceu em coma por cerca de 30 dias após o parto antes de se recuperar e poder conhecer a filha, Wiliane Vitória.

O desafio do diagnóstico precoce

O principal perigo da pré-eclâmpsia reside na sua evolução silenciosa, uma vez que muitas mulheres não apresentam sintomas evidentes no início do quadro. Caracterizada pela elevação da pressão arterial após a 20ª semana de gestação, a doença exige monitoramento constante.

Na pré-eclâmpsia, observar apenas os sintomas mais evidentes não basta. Um pré-natal rigoroso, com monitoramento contínuo da pressão arterial, exames periódicos e avaliação dos fatores de risco, permite identificar precocemente qualquer alteração e evitar complicações graves. O ideal é que a gestante realize consultas pelo menos uma vez por mês”, afirma Eduardo Cordioli, diretor de Obstetrícia do Grupo Santa Joana.

Os sinais de alerta que demandam atenção imediata incluem:

  • Cefaleia (dor de cabeça) intensa;

  • Alterações visuais (como visão embaçada ou pontos brilhantes);

  • Dor na região superior do abdome;

  • Inchaço acentuado nas pernas, mãos e rosto;

  • Ganho de peso abrupto.

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Fatores de risco e prevenção

A identificação das pacientes propensas ao desenvolvimento da doença deve ocorrer já no primeiro trimestre da gravidez. A coordenadora de ginecologia e obstetrícia do HRAS, Aline Almeida (foto acima), destaca os principais fatores de risco:

Categoria Fatores de risco clínicos
Histórico e Perfil Primeira gestação, gravidez na adolescência ou após os 35 anos, histórico familiar ou pessoal de hipertensão.
Condições de Saúde Obesidade, diabetes, doenças renais e gestação gemelar.

A prevenção primária baseia-se na assistência pré-natal organizada, realizada inicialmente na Atenção Básica à Saúde. Além do acompanhamento médico, recomenda-se manter uma alimentação equilibrada, controlar o ganho de peso, evitar o consumo excessivo de sal e não fumar.

Para gestantes identificadas com alto risco através de protocolos internacionais — que combinam histórico materno, pressão arterial média, exames de Doppler das artérias uterinas e biomarcadores —, o uso de ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose surge como intervenção consolidada. O tratamento deve ser iniciado preferencialmente antes das 16 semanas e mantido até a 36ª semana de gestação para reduzir desfechos graves.

Tecnologia e inteligência artificial como aliadas

A inovação tecnológica tem se somado à rotina clínica para aumentar a segurança das pacientes. Ferramentas de inteligência artificial integradas aos prontuários eletrônicos já auxiliam equipes médicas a organizar dados e identificar padrões de risco de forma automatizada, prática chancelada pelo American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG).

Evidências científicas recentes validam essa abordagem. Um estudo publicado na JAMA Network Open demonstrou a eficácia de modelos baseados em dados rotineiros de prontuários eletrônicos para prever o risco de pré-eclâmpsia em curtos intervalos de tempo na reta final da gestação.

A tecnologia não substitui a experiência clínica, mas amplia a capacidade de monitoramento e resposta das equipes. Esse avanço é especialmente relevante em cenários de alto risco, nos quais pequenas alterações podem sinalizar deterioração materna”, pontua o Dr. Eduardo Cordioli.

Mesmo com o suporte dos novos sistemas preditivos, os especialistas são unânimes: o pilar fundamental para a redução da mortalidade materna continua sendo o acesso rápido e a adesão estrita ao calendário de consultas e exames do pré-natal.

Com Assessorias

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