O avanço dos cigarros eletrônicos no Brasil ganhou contornos ainda mais preocupantes com o surgimento de dispositivos projetados especificamente para serem imperceptíveis. O alerta é da Fundação do Câncer, que aponta para o risco real de um retrocesso histórico nas políticas de saúde pública, com o potencial de elevar drasticamente os casos de câncer no país nas próximas décadas.
Os novos modelos de vapes e pods abandonaram o formato convencional e passaram a incorporar disfarces tecnológicos integrados ao vestuário e à rotina digital dos adolescentes. Entre as novidades que mais desafiam a fiscalização de pais e educadores estão os vaporizer hoodies — moletons que trazem os vaporizadores embutidos na própria estrutura do tecido, escondendo o bocal na ponta do cordão do capuz.
Como a maioria desses produtos emite apenas um vapor discreto e, muitas vezes, sem o cheiro característico do tabaco tradicional, os jovens conseguem inalar a nicotina dentro de salas de aula, no transporte público ou em ambientes familiares sem serem notados.
A fusão entre o vício químico e o engajamento digital
Além da camuflagem física, a indústria tem apelado para a interatividade para capturar o público infanto-juvenil. Os aparelhos mais recentes vêm equipados com telas sensíveis ao toque, reprodutores de música, sistemas de troca de mensagens e até jogos eletrônicos. Alguns funcionam de forma semelhante aos antigos “bichinhos virtuais”, emitindo alertas sonoros e reagindo visualmente caso o usuário passe muito tempo sem vaporizar.
Para o cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, essa estratégia representa uma combinação perigosa e antiética desenvolvida pelo setor fumageiro para garantir a formação de uma nova geração de dependentes.
O que estamos vendo é a fusão entre dependência química e dependência digital. O vape deixa de ser apenas um dispositivo e passa a funcionar como um acessório interativo, integrado à rotina”, adverte o diretor executivo da Fundação do Câncer.
O crescimento do consumo é respaldado por dados estatísticos alarmantes. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), a taxa de experimentação de cigarros eletrônicos entre estudantes de 13 a 17 anos quase dobrou em um intervalo de cinco anos, saltando de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024.
Leia mais
Indústria da nicotina sintética cria uma nova ‘doença pediátrica’
Anvisa reforça combate ao mercado ilegal de vapes
Um em cada 9 adolescentes usa cigarro eletrônico no Brasil
Danos ao desenvolvimento cerebral e ao sistema cardiovascular
Os impactos biológicos da introdução precoce da nicotina no organismo são severos e estendem-se muito além dos pulmões. Milena Maciel de Carvalho, consultora na área de tabagismo da Fundação do Câncer, esclarece que a exposição a essa substância durante a adolescência interfere diretamente na formação do sistema nervoso central.
O composto afeta áreas cerebrais profundas que são responsáveis pela regulação do humor, controle de impulsos, capacidade de atenção e aprendizado, além de aumentar de forma permanente a vulnerabilidade ao vício.
Adicionalmente, os fluidos utilizados nos dispositivos eletrônicos expõem os tecidos pulmonares a uma série de elementos de alta toxicidade, incluindo metais pesados, compostos orgânicos voláteis e partículas ultrafinas. O uso contínuo está diretamente associado ao surgimento de disfunções respiratórias agudas, lesões pulmonares graves e sobrecarga cardiovascular imediata.
O desafio da fiscalização e o espelho internacional
Embora a comercialização, importação e propaganda de qualquer dispositivo eletrônico para fumar sigam formalmente proibidas no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009, o mercado ilegal encontra forte vazão no comércio informal e em redes sociais, onde não existem filtros eficientes de idade.
A dimensão do contrabando é evidenciada pelas ações da Receita Federal: somente nos meses de janeiro e fevereiro de 2026, o órgão apreendeu 238.801 unidades de cigarros eletrônicos em território nacional, o que representa uma média de mais de 4 mil aparelhos retidos por dia.
Diante da velocidade com que o problema se alastra, as autoridades de saúde defendem que o Brasil siga exemplos internacionais mais rígidos de restrição ao mercado de nicotina. Um dos modelos citados é o do Reino Unido — país historicamente flexível com o setor —, que aprovou uma legislação que cria uma barreira geracional ao proibir em definitivo a venda de qualquer produto derivado do tabaco para pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009, além de banir ações de publicidade voltadas a menores.
Campanha Spoiler: ele não te ama
Alinhada ao tema global da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Dia Mundial sem Tabaco 2026 — “Desmascarando o apelo, combatendo a dependência de nicotina e tabaco” —, a Fundação do Câncer intensificou as ações do Movimento Vape Off com o lançamento da campanha institucional “Spoiler: ele não te ama”.
Gravado em formato de reportagem anônima, o filme apresenta o depoimento de três jovens que detalham o esgotamento físico e psicológico causado por um suposto relacionamento abusivo. Nos momentos finais, revela-se que o agente causador do adoecimento não é um parceiro amoroso, mas o próprio cigarro eletrônico, em uma tentativa de aproximar o conhecimento científico do ecossistema e da linguagem do público jovem.
*Com informações da Agência Brasil e da Fundação do Câncer.
Quer acompanhar todas as novidades e campanhas de saúde em primeira mão? Participe do canal oficial do Portal Vida e Ação no WhatsApp!




