O avanço agressivo das casas de apostas online de quota fixa – popularmente conhecidas como bets – transformou o ambiente digital brasileiro em um cenário de grave crise social e de saúde pública. De acordo com os dados mais recentes da pesquisa TIC Domicílios, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), 85% da população (157 milhões de pessoas) têm acesso à internet no país, e quase um quinto desse total (19%) já admite realizar apostas de forma recorrente.
Os reflexos financeiros dessa expansão são alarmantes. Um levantamento inédito conduzido pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) revelou que cerca de 7,5 milhões de brasileiros já comprometeram integralmente suas rendas com jogos. O estudo aponta ainda que 29% dos apostadores tiveram o nome negativado devido a essas despesas, e 41% dos usuários relataram ter renunciado ao consumo de itens essenciais de sobrevivência — como alimentação e saúde — para continuar jogando.
Diagnóstico médico: quando o entretenimento vira patologia
O limite entre o comportamento recreativo e o desenvolvimento do transtorno do jogo possui critérios clínicos consolidados na comunidade médica internacional.
O distúrbio é caracterizado por um padrão persistente de perda de controle sobre as apostas e pela continuidade do comportamento apesar das consequências negativas. De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria (APA), o diagnóstico exige a presença de pelo menos quatro sinais ao longo de um período de 12 meses”, explica Cláudio Costa, professor da pós-graduação em Psiquiatria em Belo Horizonte (MG).
A escala de gravidade da patologia médica divide-se em três níveis fundamentais:
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Leve: Presença de 4 a 5 critérios clínicos.
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Moderada: Identificação de 6 a 7 critérios clínicos.
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Grave: Constatação de 8 a 9 critérios do manual da APA.
Da mesma forma, a Organização Mundial da Saúde (OMS) define o transtorno do jogo por três elementos centrais: a falta de controle sobre o ato (frequência e duração), a prioridade crescente dada às apostas em detrimento das atividades cotidianas e a persistência no erro mesmo diante de danos severos.
O psiquiatra ressalta que a dependência atua como um gatilho para a deterioração da saúde mental, intensificando quadros de depressão, impulsividade e ansiedade crônica — esta última alimentada pelo endividamento galopante e pelo medo do julgamento social. “Muitas pessoas demoram a buscar ajuda, seja por vergonha ou por dificuldade em reconhecer que o problema existe”, complementa o médico.
Teleatendimento 24 horas no SUS para socorrer dependentes em jogo
Diante do avanço da doença, o Ministério da Saúde lançou um serviço inédito de teleatendimento em saúde mental por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), voltado especificamente para acolher pacientes com transtorno do jogo. Com um aporte financeiro de R$ 2,5 milhões viabilizado pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS), a iniciativa projeta realizar o atendimento inicial de 600 pacientes por mês.
| Indicadores de atendimento do SUS | Dados registrados |
| Atendimentos presenciais de saúde mental por jogos | 6.157 acolhimentos |
| Meta de acolhimento mensal no novo teleatendimento | 600 pacientes/mês |
| Investimento financeiro via Proadi-SUS | R$ 2,5 milhões |
A porta de entrada para o suporte especializado, direcionado a brasileiros maiores de 18 anos e suas redes de apoio familiar, será o aplicativo Meu SUS Digital. A plataforma funcionará 24 horas por dia, assegurando sigilo e total conformidade com as diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Transparência e cerco publicitário no ambiente jurídico
Atualmente, existem 185 casas de apostas autorizadas a operar no território nacional. O cumprimento integral das regras da Lei nº 14.790/2023 (Lei das Bets) exige que as empresas mantenham sede administrativa em solo brasileiro, arquem com uma taxação de 12% sobre o Gross Gaming Revenue (GGR — receita bruta dos jogos) e efetuem o pagamento de outorga fixado em R$ 30 milhões.
No Congresso Nacional, novas propostas buscam frear as estratégias comerciais abusivas que alimentam o vício. Projetos de lei em tramitação propõem o banimento de incentivos financeiros agressivos (como bônus de boas-vindas), restrições severas à publicidade em massa e a obrigatoriedade da exclusão compulsória de jogadores patológicos das bases de dados, além de prever a elevação da alíquota tributária para até 18%.
A consolidação da regulamentação traz mais transparência, segurança jurídica e controle para um setor que antes operava com muitas lacunas. Esse movimento eleva a barreira de entrada, o que pode concentrar o setor em empresas com maior capacidade financeira. No geral, esse novo cenário beneficia o consumidor, que passa a ter mais proteção, e o Estado, com aumento de arrecadação”, conclui Henrique Lanza Neto, advogado e professor de Direito.
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Fonte: Afya




