O Brasil não levantou a taça na Copa do Mundo de 2026 e a Espanha se consagrou campeã, mas ainda assim o Brasil foi protagonista. Ao menos na final do mundial, com a presença de Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho ao lado de Madonna, no show de encerramento.
As imagens viralizaram nas redes sociais e, junto com a derrota da Argentina, realimentaram o sonho brasileiro do hexa. Uma busca que reacende não apenas a esperança coletiva, mas também uma velha emoção nacional, a pressão de transformar sonho em obrigação.
O último jogo contra a Noruega, que levou à desclassificação da Seleção brasileira ainda nas oitavas de final, ajuda a ilustrar um fenômeno emocional que vai muito além do futebol, quando a motivação perde leveza e vira cobrança, a ansiedade pode deixar de impulsionar e passar a paralisar. É a chamada ‘síndrome do hexa’, como define informalmente o médico psiquiatra Guido Boabaid May.
A literatura em psicologia descreve esse processo em termos como ansiedade de desempenho, medo de falhar e queda de performance sob pressão. É quando a pessoa deixa de se mover por desejo, propósito ou prazer de construir algo, e passa a agir sob ameaça interna, medo de decepcionar e autocrítica constante.
Nem todo sonho precisa virar peso
Embora não seja um diagnóstico médico formal, a expressão traduz um padrão psíquico real, visto em atletas, profissionais, estudantes e pacientes que sentem que “precisam vencer” antes mesmo de conseguir respirar, pensar e executar.
O hexa, para o torcedor, é um sonho, mas, quando o sonho vira obrigação absoluta, ele pode pesar mais do que mover. Na clínica, vemos isso com frequência, as pessoas que desejam muito alguma coisa e, justamente por isso, passam a funcionar pior diante da própria meta. Não é falta de capacidade; muitas vezes é excesso de pressão”, afirma.
Dr. Guido ainda reforça a importância de não transformar metas e sonhos em uma fonte constante de sofrimento emocional. “Nem todo sonho precisa virar peso. O melhor desempenho humano, no esporte, no trabalho e na vida, costuma aparecer quando existe compromisso, preparo e sentido, mas sem que a pessoa precise carregar sozinha a fantasia de que errar é proibido”, conclui.
Síndrome do Hexa: quando o sonho vira obrigação e gera mais ansiedade do que motivação
Psiquiatra propõe um olhar clínico e humano sobre a obrigação por performar, no esporte, no trabalho e na vida
Á frente da GnTech empresa de biotecnologia e farmacogenética, o psiquiatra trouxe alguns sinais e soluções dos sonhos que possam ter virado uma ansiedade paralisante. Confira a seguir:
1. Pensar mais em não falhar do que em fazer bem
Em vez de focar na execução, a mente passa a girar em torno das consequências negativas, do julgamento, vergonha, fracasso ou medo de errar. Esse padrão pode comprometer a atenção e reduzir a eficiência cognitiva sob pressão.
O primeiro passo é recolocar o objetivo no tamanho humano. Em vez de viver sob a tirania do ‘tenho que conseguir’, vale retomar perguntas mais reguladoras: ‘Qual é o próximo passo possível?’, ‘O que depende de mim hoje?’, ‘O que eu estou tentando provar, e para quem?’”, orienta Dr. Guido.
2. O corpo entra em alerta antes mesmo de começar
Inquietação, tensão muscular, irritabilidade, dificuldade de concentração e alterações no sono são sinais de que a ansiedade deixou de ser funcional e começou a afetar o desempenho e o bem-estar. “Também é importante buscar ajuda quando a ansiedade interfere no sono, no trabalho, nos vínculos, na rotina ou na capacidade de decidir”, alerta o especialista.
3. O prazer desaparece e sobra só a obrigação
Quando a motivação passa a ser movida apenas por culpa, cobrança externa ou sensação de dever absoluto, a experiência perde leveza e se torna emocionalmente desgastante. “Estudos sobre ansiedade, metas terapêuticas e motivação mostram que objetivos mais manejáveis, com senso de autonomia e progressão concreta, tendem a ser mais sustentáveis do que metas vividas como ameaça à identidade”, explica o psiquiatra.
4. Travar em tarefas que sabe fazer
A pressão excessiva pode desorganizar justamente desempenhos que antes eram naturais, fenômeno conhecido como choking under pressure, quando o peso do resultado paralisa a execução. “Evidências e diretrizes clínicas reconhecem que intervenções psicológicas são fundamentais no tratamento dos transtornos de ansiedade, com destaque para abordagens como terapia cognitivo-comportamental”, pontua.
5. Começar a evitar, adiar ou se sabotar
Procrastinação, fuga e autossabotagem costumam aparecer quando o sonho deixa de ser uma direção e passa a funcionar como uma cobrança interna constante.
Para pessoas que já estão em tratamento medicamentoso para transtorno de ansiedade, especialmente quando houve efeitos adversos, resposta insuficiente ou uma sequência frustrante de tentativas, uma possibilidade complementar é discutir com o psiquiatra o uso de teste farmacogenético. Esse recurso não diagnostica ansiedade, não substitui avaliação clínica e não resolve sozinho o sofrimento psíquico, mas pode ajudar a orientar escolha e ajuste de dose dos principais medicamentos para tratamento psiquiátrico e neurológico”, acrescenta Boabaid.
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Protagonismo nas redes sociais
Se também serve de consolo para a torcida, a Seleção Brasileira não ergueu a taça, mas brilhou como protagonista nas redes sociais. Desde o início do torneio até o dia 29 de junho, um a cada cinco vídeos publicados sobre as seleções participantes diziam respeito ao Brasil, segundo dados da Winnin, plataforma de inteligência cultural movida por IA. O país foi líder em volume de vídeo, de engajamento e visualizações, representando 20,1% de todo o conteúdo mundial sobre o torneio.
Também somou 1,7 bilhões de engajamentos, liderando o ranking entre os participantes. Logo atrás ficou a Argentina, com 1,4 bilhões; Portugal, com 926,3 milhões; e México, com 518,3 milhões. O levantamento considerou os conteúdos publicados no mundo todo pelo Instagram, TikTok, Youtube, Facebook e Twitch, de 11 a 29 de junho.
Ainda de acordo com os dados, no mesmo período, 57,5% do engajamento sobre o Brasil foi produzido dentro do país, e 42,5% fora dele. Além disso, o país sozinho representa 23% de toda a conversa global sobre Cabo Verde, 14% sobre Curaçao e 11,8% sobre o Paraguai desde o início da Copa.
São times que o torcedor brasileiro parece ter adotado quando o Brasil não está em campo, seja por afinidade com algum jogador, seja por rivalidade histórica tratada com bom humor”, afirma Gian Martinez, CEO da Winnin.
Engajamento com a cultura latina
o protagonismo do Brasil no mundo não nasceu com a Copa, como revela o estudo da Winnin. Em uma janela de três meses, sem considerar o pico de atenção do torneio, 50,1% do engajamento nas redes sociais veio de fora do Brasil, e 49,9% de dentro do país. Para Gian, esse movimento tem a ver com a cultura latina sendo capaz de amplificar a atenção do usuário. No último ano, ela gerou 73% mais engajamento fora dos países LATAM do que dentro deles.
Parte disso ocorre por meio da música, já que um terço do engajamento com as composições latinas no mundo vem de fora da região. Mas, em todo o globo, o esporte também engaja. Na Europa, 53,2% do engajamento acontece com o esporte latino. Nos países da Ásia e do Pacífico, o número é de 47,7%; e, na América do Norte, 30,5%.
O público internacional é atraído pelo que já lhe é familiar. Para além do esporte, a cultura latina já tem chamado a atenção dos outros países do globo, de forma geral, há um tempo, por exemplo, com a culinária, TV e cinema. Na Copa, esse movimento se amplificou e tornou o Brasil protagonista”, finaliza Martinez.
Com Assessorias



