Depois de  21 torneios, sete finais, cinco vitórias e um amargo 7 x 1”, uma coisa é certa: não é fácil ser brasileiro em época de Copa do Mundo. De quatro em quatro anos, o campeonato que reúne seleções do esporte favorito da nação brasileira faz com que os nervos de milhões de torcedores fiquem à flor da pele, e em 2026 não poderia ser diferente. Ao longo das últimas semanas, milhares de lares brasileiros foram invadidos por gritos de alegria, raiva e, mais recentemente, por episódios de choro após a derrota da seleção brasileira para a Noruega.

Infelizmente, mais uma vez, a Seleção brasileira ficou pelo caminho, eliminada ainda nas oitavas de final, na pior campanha da equipe comandada atualmente pelo técnico italiano Carlo Ancelotti em 34 anos. Com a derrota, o Brasil conquistou um amargo ‘hexa’: está há seis Copas sem ganhar a competição. Mas muitos brasileiros vão se reunir na atarde deste domingo (19 de julho) para torcer pela Espanha – a grande maioria, certamente – ou pela histórica rival Argentina – somente por causa do Messi.

A tristeza pela derrota afetou milhares de brasileiros, assim como outras fortes emoções causadas pelo campeonato, o que tem preocupado não só os envolvidos com o futebol, mas também profissionais de Saúde de todo o país, principalmente após a morte do torcedor do Palmeiras, que teve um infarto enquanto assistia a um jogo do time.

Por que uma derrota em campo provoca tanta frustração fora dele?

Após a eliminação para a Noruega, especialista explica por que derrotas em grandes competições despertam ansiedade, sensação de perda e até mudanças de humor entre torcedores

A eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo encerrou o sonho do hexacampeonato e provocou uma onda de reações nas redes sociais, em locais de transmissão pública e entre torcedores de todo o país. Choros, indignação, memes e discussões dominaram o noticiário logo após o apito final, evidenciando que, para muitos brasileiros, o impacto da derrota vai muito além do futebol.

Segundo a psicóloga Andrea Beltran, especialista em comportamento emocional e psicologia analítica, esse envolvimento tem explicação. Em grandes competições esportivas, a seleção deixa de representar apenas um time e passa a ocupar um lugar simbólico ligado à identidade coletiva, ao pertencimento e à esperança.

A seleção representa muito mais do que um grupo de jogadores. Ela desperta arquétipos ligados ao herói, à vitória e ao sentimento de pertencimento. Existe uma identificação emocional compartilhada que faz com que muitas pessoas vivenciem o resultado como algo pessoal.”

Esse vínculo não é apenas uma percepção subjetiva. Uma pesquisa da MindMiners, intitulada O Maior Raio X do Torcedor, mostra que 75% dos brasileiros acompanham futebol com frequência, reforçando a importância cultural do esporte e seu potencial de mobilizar emoções coletivas.

Para Andrea, o impacto psicológico costuma aumentar conforme a competição avança. “Cada fase vencida amplia a expectativa e a projeção de desejos sobre o time. Quando o título parece possível, cresce também a ansiedade. A eliminação rompe uma expectativa construída ao longo de semanas e provoca uma frustração proporcional ao investimento emocional.”

Na psicologia analítica, esse processo é compreendido pelo mecanismo de projeção. Segundo a especialista, desejos inconscientes de conquista, reconhecimento e superação acabam sendo depositados na seleção brasileira.

Quando o resultado não acontece, muitas pessoas experimentam sentimentos que ultrapassam o esporte. A derrota pode reativar emoções relacionadas à perda, rejeição ou impotência, ainda que elas não tenham consciência disso.”

Outro fator que potencializa essa experiência é o ambiente digital. Durante a Copa, comentários, análises, memes e discussões se multiplicam em tempo real, tornando praticamente impossível se afastar emocionalmente do acontecimento.

As redes sociais intensificam a vivência coletiva. A exposição constante às opiniões, críticas e comparações dificulta o distanciamento emocional e reforça a sensação de que todos estão experimentando aquela mesma frustração.”

Apesar de considerar natural que uma eliminação gere tristeza e decepção, Andrea alerta para os sinais de quando o envolvimento deixa de ser saudável. “O esporte deve proporcionar prazer, entretenimento e conexão. Quando o humor, o relacionamento com outras pessoas ou até a produtividade passam a depender do resultado de uma partida, é um sinal de que a experiência esportiva está ocupando um espaço maior do que deveria.”

A especialista destaca ainda que pessoas com maior sensibilidade emocional ou que já convivem com quadros de ansiedade costumam sentir essas oscilações de maneira mais intensa.

A Copa desperta emoções legítimas e faz parte da cultura brasileira. Mas reconhecer essas emoções, sem permitir que elas determinem nosso bem-estar, é fundamental para manter uma relação saudável com o esporte.”

Para Andrea, a eliminação da seleção também pode servir como um exercício de autoconhecimento.

O futebol desperta paixões justamente porque mobiliza aspectos profundos da nossa vida emocional. Entender por que sofremos, comemoramos ou nos frustramos tanto é uma forma de compreender melhor a nós mesmos.”

Dicas para manter a calma e deixar a tristeza de lado

Em mais uma final do campeonato em que ainda não levantamos a taça pela sexta vez, Andrew Felsky, psicólogo da rede de clínicas populares AmorSaúde, sistema de saúde parceiro do Cartão de TODOS, lista algumas dicas para manter a calma e deixar a tristeza de lado. Confira!

Técnica da respiração diafragmática

De acordo com o Dr. Felsky, quando os torcedores estão ansiosos ao longo dos jogos ou ao se recordar de momentos de tensão deles, é comum que não respirem de forma suficientemente profunda, o que reduz o nível de oxigênio corporal e estimula, ainda mais, altos níveis de nervosismo e a impossibilidade de relaxamento. “É importante que em momentos em que se fazem presentes níveis de estresse incomuns, o torcedor preste atenção à sua respiração e invista em técnicas para aumentar a recepção de oxigênio pelo corpo, através de um movimento mais lento e atento do diafragma”, pontua o psicólogo.

Priorize a razão à emoção

Ainda segundo o Dr. Felsky, por mais difícil que seja, é preciso racionalizar a tomada de atitudes durante e após os jogos, priorizando a razão à emoção. “Sabemos que o futebol é uma paixão nacional e que os jogos mexem com os corações dos brasileiros, mas é fundamental que, na hora do nervosismo, tenhamos a sensibilidade de encarar a situação sob outros ângulos e refletir sobre o impacto do estresse sobre o nosso bem-estar.

Discordar de escalações, decisões de árbitros e jogadas realizadas é comum, mas não deve se tornar uma questão pessoal que leva ao descontrole, como se pudéssemos impor aos outros (ou ao Tite) as nossas vontades. A dica é prestar atenção ao seu comportamento para que ele não se volte contra a sua saúde”, ressalta Felsky.

Assista ao jogos com companhias tranquilas

O psicólogo ressalta também que estar em grupo durante os jogos pode contribuir para a manutenção da calma, tendo em vista a comum remodelação de comportamentos dos indivíduos para que haja um encaixe com a comunidade que o cerca.

Quando estamos em ambientes sociais confortáveis, é mais comum que consigamos relaxar e tenhamos acesso a formas de distração quando somos colocados sob situações de estresse. Por isso, assistir aos jogos em grupo, pode contribuir para que a calma seja mantida, mesmo com tantas emoções como promete este torneio”, finaliza o Dr. Andrew Felsky.

Copa do Mundo também pode mexer com o coração de verdade

Emoções intensas durante os jogos podem atuar como gatilho para infarto, arritmias e outros eventos cardíacos em pessoas predispostas

A Copa do Mundo mobiliza torcedores em todo o país, mas a emoção dentro e fora de campo também exige atenção com a saúde cardiovascular. A tensão das partidas, a ansiedade, a expectativa por resultados e o estresse provocado por jogos decisivos podem impactar o organismo e funcionar como gatilho para problemas cardíacos agudos, especialmente em pessoas com histórico de doença no coração, hipertensão, arritmias ou fatores de risco não controlados.

Durante a Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, pesquisadores observaram aumento expressivo de eventos cardiovasculares durante os jogos da seleção alemã, com crescimento no número de infartos e arritmias. O risco foi maior entre homens e pessoas com histórico prévio de doença cardíaca. Ele também lembra que, na Inglaterra, um estudo apontou aumento na ocorrência de infarto agudo do miocárdio no dia em que a seleção inglesa foi eliminada nos pênaltis pela Argentina. No Brasil, análise realizada entre as Copas de 1998 e 2010 identificou maior risco de infarto nos dias de jogos da seleção brasileira.

A Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio Grande do Sul (Socergs) chama atenção para sinais que não devem ser ignorados durante os jogos, como mal-estar, dor no peito, falta de ar, palpitações, suor frio ou sensação de desmaio. Nessas situações, a orientação é procurar atendimento de emergência imediatamente. O diretor de Compliance da SOCERGS, Fábio Michalski Velho, explica que a relação entre futebol, emoção e coração já foi observada em diferentes estudos científicos realizados durante Copas do Mundo.

O futebol é uma paixão nacional e mexe com o nosso coração não só no sentido figurado, mas também com o nosso coração de verdade. Muitos nos perguntam se as tensões, emoções e ansiedades vivenciadas em um jogo podem realmente afetar a saúde cardiovascular. Trabalhos científicos conduzidos durante diferentes Copas do Mundo mostram que sim”, afirma.

Segundo o médico, os dados reforçam que emoções intensas podem funcionar como gatilhos para problemas cardíacos agudos, especialmente em indivíduos predispostos. “Por isso, caso durante uma partida surjam sintomas como mal-estar, dor no peito, falta de ar ou palpitações, a orientação é procurar atendimento de emergência imediatamente”, destaca.

A entidade reforça que o cuidado preventivo deve fazer parte da rotina, independentemente do período da Copa. Manter consultas médicas em dia, controlar pressão arterial, colesterol e diabetes, evitar excesso de bebidas alcoólicas, não fumar, dormir adequadamente e respeitar os limites do corpo são atitudes importantes para reduzir riscos.

Cuide do coração não só de quatro em quatro anos

As fortes emoções provocadas por essa edição da Copa mostraram que, além do cuidado psicológico, é preciso preparo físico para assistir aos jogos com resistência, afinal, quem nunca se sentiu dentro de campo quando a seleção brasileira está em ação?

Cardiologista da rede de clínicas AmorSaúde, parceira do Cartão de TODOS, Nelson David Sanchez Giraldo, ressalta que os cuidados com os batimentos cardíacos devem ser constantes para que situações de intenso estresse psicológico não prejudiquem o correto funcionamento do coração.

Quando falamos de situações de estresse, como um jogo de futebol em que seu time está perdendo, é importante darmos uma atenção especial à nossa pressão cardiovascular. O estresse é uma das principais causas de crises hipertensivas e elas podem levar a alterações cardiovasculares como infartos, arritmias ou AVCs. Para evitar que isso ocorra, é recomendado que o cuidado com a pressão seja constante a partir da diminuição do consumo de produtos como alto teor de sódio, de cigarro e de bebidas alcoólicas”, ressalta o Dr. Sanchez.

Com Assessorias

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