A aparência lúdica e envolvente dos jogos on-line pode transmitir uma falsa sensação de controle e exige que o público infantojuvenil aprenda regras de uso, já que o ambiente digital também envolve riscos. Para a psicopedagoga Paula Furtado, é fundamental que crianças e adolescentes desenvolvam noções de interação, limites e cuidados no meio on-line para evitar a exposição a perigos e garantir uma experiência segura antes de jogar.

No digital, assim como na vida presencial, liberdade sem preparo pode virar vulnerabilidade. A educação digital deve começar de forma proporcional à idade. Isso inclui aprender a respeitar o outro, não ofender, não expor colegas, não acreditar em tudo que aparece, reconhecer pedidos inadequados e entender que o que é errado fora da internet também é dentro dela”, esclarece Paula.

Muito popular entre as crianças, o Roblox tem enfrentado uma série de polêmicas e, para a especialista, envolve dinâmicas que vão além de um simples passatempo. “Quando uma plataforma mistura jogo, convivência social, comunicação, circulação de dinheiro virtual, conteúdo criado por usuários e longos períodos de permanência por trás das telas, ela passa a exigir mediação adulta, pois a criança não tem maturidade para avaliar ameaças, intenções de terceiros, apelos comerciais ou exposição inadequada”, explica.

O Roblox, pelo fato de envolver contato com desconhecidos, exige que famílias e escolas orientem crianças e adolescentes a não conversar de forma privada com estranhos, nem compartilhar dados pessoais ou levar trocas de mensagens para outras plataformas, além de avisar um adulto diante de qualquer situação suspeita, invasiva, sexualizada, ameaçadora ou insistente.

Engajamento e estímulos do ambiente virtual

Outro cuidado importante diz respeito ao engajamento gerado pelo jogo, que reúne elementos como brincadeira, desafio, personalização de avatar, sensação de pertencimento e estímulos constantes de novidade.

“Para a criança, isso dialoga diretamente com necessidades importantes do desenvolvimento, como explorar, criar, competir, experimentar papéis e interagir com os pares. Além disso, a lógica de recompensas rápidas e de mundos quase infinitos amplia significativamente o poder de atração desse tipo de plataforma”, afirma a psicopedagoga.

Experiência digital mais segura

Com algumas restrições, a plataforma limitou o uso de chat de voz e de texto para menores de idade. A mudança provocou uma onda de protestos nas redes e acendeu um alerta entre os responsáveis. Paula explica que isso ocorreu porque, para muitas crianças e adolescentes, o chat não era apenas um detalhe, mas parte central da experiência social — e esse movimento de revolta mostra o quanto a vivência on-line já ocupa um lugar emocional significativo na vida de muitos jovens.

Para finalizar, a especialista acrescenta que o debate sobre a plataforma evidencia a urgência da educação digital infantil. O Brasil entra em um novo momento regulatório com a implementação de novas diretrizes para a proteção da infância no ambiente virtual, o que reforça que proteger crianças na internet não é exagero, mas um dever coletivo.

Como psicopedagoga, diria que o ponto central não é demonizar a tecnologia, mas evitar que ela ocupe, sem mediação, um espaço para o qual a criança ainda não tem maturidade emocional. Criança precisa brincar, sim — mas, acima de tudo, precisa de um adulto presente”, enfatiza Paula.

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Palavra de Especialista

Saúde mental infantojuvenil: o que a nova lei ainda não alcança

Apesar do avanço legal no SUS, a legislação precisa avançar na prevenção real e na inclusão do núcleo familiar no processo de cuidado.

Por Flávia Anjos*

O Brasil deu um passo que deveria ter sido dado há muito tempo. A sanção da Lei 15.413/2026 inseriu no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por meio de um novo artigo, a obrigação legal do Estado de garantir atendimento em saúde mental para crianças e adolescentes no Sistema Único de Saúde (SUS).

Atenção psicossocial básica e especializada, urgência, emergência, internação, formação permanente de profissionais e acesso gratuito a recursos terapêuticos para quem está em situação de vulnerabilidade. Tudo isso agora tem respaldo jurídico expresso no ECA.

É um avanço real que precisa ser reconhecido como tal. Mas, ao ler o texto da lei com cuidado, percebe-se uma lacuna importante. O caput do artigo 11-A menciona prevenção e tratamento: duas palavras que representam dois universos completamente diferentes.

Os três parágrafos que operacionalizam a lei, porém, estruturam apenas o tratamento, os níveis de atenção, a formação dos profissionais e a gratuidade dos recursos terapêuticos. A prevenção aparece apenas no enunciado.

O papel da família na rede de cuidado

Há uma ausência ainda mais reveladora: em nenhum momento do texto a família é reconhecida como sujeito de cuidado. A lei fala da criança, do adolescente, dos profissionais e do SUS, mas não aborda quem cuida, quem carrega o dia a dia e quem, muitas vezes, adoece junto ou até antes.

Nossa experiência clínica nos diz, todos os dias, que o sofrimento de uma criança raramente existe isolado. Ele vive dentro de vínculos, atravessa histórias familiares e carrega silêncios que, às vezes, perpassam gerações. Uma criança que parou de brincar, que agride, que se isola ou que não consegue aprender está nos dizendo algo sobre ela, mas também sobre o ambiente emocional que a cerca.

Tratar apenas o sintoma, sem escutar o contexto, é insuficiente e caro — para a criança, para a família e para o próprio sistema que, mais tarde, vai receber esse mesmo sujeito em sofrimento ainda mais agravado.

É nesse espaço, entre o direito garantido na lei e o cuidado que precisa chegar antes da crise, que a sociedade civil organizada atua. Não como substituta do Estado, mas como parte de uma rede que precisa incluir escuta qualificada, fortalecimento de vínculos, ações preventivas nas escolas e o acolhimento de pais e cuidadores que também carregam histórias de sofrimento.  Muitas situações poderiam ter outro desfecho se houvesse acesso antecipado a um espaço seguro de fala, elaboração e reconstrução.

A lei chegou. Para muitos de nós, o trabalho já estava em curso. Que ela sirva de convite para que mais pessoas e instituições se comprometam com o que ainda falta ser feito.

*Flávia Anjos é psicanalista e diretora vice-presidente da Sow Saúde Integral.

 

 

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