Quarto escuro, o brilho azul da tela refletido no rosto e o polegar que desliza incessantemente, capturado pelas engrenagens de um algoritmo desenhado para reter a atenção. Do outro lado da tela, uma notificação traz um comentário hostil disfarçado de brincadeira. O cenário, comum na rotina de milhares de crianças e adolescentes, ilustra exatamente os riscos que a Lei nº 15.211/2025, o ECA Digital, busca combater.

A nova legislação impõe limites mais rigorosos ao chamado design viciante das plataformas, estabelece regras rígidas para a proteção de dados de menores e destaca a responsabilidade civil no ambiente virtual, transformando a segurança digital em uma pauta importante.

Diante desse novo panorama, as instituições de ensino enfrentam o desafio de formar cidadãos preparados para a complexidade da era digital. Longe de ser um tema técnico ou um discurso comercial, educar para o uso seguro da internet tornou-se um compromisso pedagógico e social, que exige uma construção transparente e contínua entre a escola e a comunidade.

Quando a brincadeira se torna responsabilidade legal

Um dos pontos sensíveis do novo ECA Digital é o tratamento rigoroso conferido a práticas como o bullying e o cyberbullying, que deixam de ser vistas de forma branda e passam a carregar implicações legais severas tanto para os autores quanto para os seus responsáveis.

A escola desempenha um papel crucial como o principal espaço de socialização coletiva dos jovens na atualidade. Erros de convivência fazem parte do desenvolvimento moral e social das crianças, mas a mediação precisa ser firme. A diretora pedagógica Selma Brito do Colégio Villa pontua a importância de encarar esses episódios com maturidade pedagógica:

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) enfatiza a importância de tratar comportamentos inadequados, especialmente entre crianças e adolescentes, com a seriedade que merecem, em vez de minimizá-los como brincadeiras”, conta.

Para dar suporte a essa realidade, a instituição atualizou seu regimento interno e conta com programas de convivência baseados no autoconhecimento e na ciência da felicidade (através do Happiness Center), orientando as famílias a não minimizarem as falhas dos filhos e a enxergarem o processo corretivo como um ato educativo.

Maturidade jurídica e gestão de riscos

A adequação aos parâmetros do ECA Digital e da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) exige um corpo diretivo tecnicamente preparado. Recentemente, a equipe gestora do colégio passou por treinamentos específicos voltados para a responsabilidade civil e digital. De acordo com Beatriz Farias, coordenadora jurídica do Villa, o nível de maturidade institucional da escola em relação à privacidade facilitou a transição para as regras da nova lei.

A especialista reforça que a negligência de instituições de ensino diante do cenário digital pode acarretar sérias consequências. Os principais riscos para as escolas que não se adequam incluem a responsabilização jurídica por danos morais, sanções regulatórias baseadas na LGPD e o prejuízo reputacional.

“A atuação preventiva, especialmente envolvendo crianças e adolescentes, é muito mais relevante do que a reação após o dano”, destaca Farias. O zelo com a privacidade estende-se também ao controle rigoroso do uso de imagens em redes sociais e eventos, exigindo autorizações contratuais detalhadas e o letramento contínuo das próprias famílias para que também evitem expor outros menores de idade em seus perfis pessoais.

“A confiança das famílias é um ativo central para qualquer instituição de ensino, e incidentes envolvendo crianças, especialmente no ambiente digital, têm alto potencial de desgaste público”, detalha.

Proteção antecipada e cultura digital no currículo

No Colégio Villa Global Education, o cuidado com a segurança digital e a privacidade dos estudantes não nasceu com a nova legislação. A proteção dos alunos já era uma prioridade institucional consolidada muito antes de o ECA Digital entrar em vigor. A escola integra a cultura digital como uma das sete dimensões essenciais de seu currículo desde a primeira infância, ao lado de pilares como sustentabilidade, pensamento científico e a dimensão socioemocional.

A proposta pedagógica da instituição visa preparar o estudante para exercer uma cidadania ativa e ética, promovendo a chamada “dieta digital”, termo para conscientizar os jovens sobre a qualidade dos conteúdos que consomem.

Segundo a diretora pedagógica Selma Brito: “o ECA digital reforça essa ideia, estendendo-a ao ambiente virtual. O Villa, antecipando-se a essa discussão, já abordava a cidadania digital em seu currículo, buscando compreender os desafios que a relação entre pais e o mundo digital impõe”, detalha.

Na rotina escolar, essa visão se traduz em medidas práticas que foram adotadas de forma pioneira, como a restrição do uso de celulares em sala de aula antes mesmo de decretos específicos e a aplicação de filtros rígidos de segurança na rede interna. Além disso, o colégio trabalha transversalmente em suas turmas temas como direitos autorais, checagem de fake news, expressão adequada para diferentes públicos e o pensamento computacional para a resolução de problemas complexos.

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Guia ajuda pais a tornarem mundo digital mais seguro para os filhos

Em maio deste ano, a Ação Brasileira para Consciência Digital (ABCD), em parceria com o Criança Esperança, da Rede Globo, e a Unesco, lançou o “Guia ABCD de Consciência Digital”, com orientações práticas para que pais, responsáveis e cuidadores possam tornar o ambiente digital de crianças e adolescentes mais seguro no Brasil.

O documento é composto por 10 passos para que as famílias e responsáveis possam reforçar a segurança de jovens contra crimes digitais em um universo que conta com um número crescente de usuários menores de idade. Atualmente mais de 92% das crianças e adolescentes brasileiros entre nove e 17 anos são usuários de internet, o equivalente a 24,5 milhões de pessoas*.

Diante desse contexto, o Guia explica, de forma simples e descomplicada, os direitos e deveres de pais e responsáveis, especialmente após a entrada em vigor do ECA Digital (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente), em março deste ano. Além disso, esclarece os aspectos fundamentais da nova lei no contexto de pais e responsáveis.

O documento explora, entre outros pontos, os principais pilares do ECA Digital, aborda a importância de as famílias estarem atentas aos riscos digitais, como exploração das crianças e adolescentes por meio de práticas como pedofilia, abuso sexual e cyberbullying, explica como atuam e onde estão os “predadores digitais” e elenca os 10 passos que contribuem para auxiliar crianças e jovens em situações de risco no mundo digital, com dicas e recomendações simples, mas de grande importância para o dia a dia familiar.

Como parte da iniciativa, uma campanha inédita de conscientização digital voltada a pais, responsáveis e cuidadores é veiculada na na TV aberta. O filme utiliza uma metáfora impactante ao comparar a experiência digital das crianças a caminharem sozinhas pelas ruas: todos os dias, elas “visitam” lugares diferentes, conversam com pessoas que não conhecem e têm acesso a conteúdo que, muitas vezes, nem os adultos dominam; tudo isso sem sair de casa.

A campanha destaca a necessidade de pais, responsáveis e cuidadores se munirem de informação e conhecimento para acompanhar, compreender e orientar o que crianças e adolescentes consomem no ambiente digital. O vídeo tem como objetivo ampliar o alcance do Guia ABCD de Consciência Digital e promover reflexões importantes para as famílias brasileiras, reforçando que a proteção online vai além da vigilância. Ela se constrói, sobretudo, com informação, diálogo constante e responsabilidade compartilhada.

A Ação Brasileira para Consciência Digital (ABCD) é uma associação sem fins lucrativos que reúne organizações voltadas à proteção, conscientização e defesa da criança e do adolescente nos ambientes digitais, bem como parceiros e apoiadores comprometidos com a importância de mobilizar a sociedade civil para que se construa uma cultura de ética e consciência de todos os envolvidos com o mundo digital. A atuação da ABCD se desenvolve em quatro pilares, concentrados em três grandes eixos: Proteção à Infância e Adolescência, Regulação e Futuro Ético. 

O documento está disponível para acesso de forma gratuita. Para fazer download e tornar o ambiente digital de crianças e adolescentes mais seguro, clique aqui.

Livro sobre vício digital de adolescentes será adaptado para as telas

“Aconteceu com Minha Filha” chega ao audiovisual e ganha relevância diante de discussões sobre o ECA e regulação das redes

O debate sobre os limites e a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, tema cada vez mais presente na agenda pública e jurídica do país, ganha um novo capítulo no audiovisual. O livro Aconteceu com Minha Filha (Geração Editorial, 2025), escrito sob pseudônimo por Paulo Zsa Zsa, será adaptado para as telas pela Gullane, uma das maiores produtoras do país.

A adaptação chega em um momento em que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) volta ao centro das discussões, diante dos desafios impostos pelas plataformas digitais e da necessidade de atualização de mecanismos de proteção para jovens hiperconectados.

Aconteceu com Minha Filha narra, sob pseudônimo, a experiência real de um pai no processo de resgate da filha adolescente, imersa em um quadro grave de dependência digital, especialmente em plataformas como o Discord. A obra expõe, de forma direta e sensível, os efeitos do uso desregulado das redes sobre a saúde mental de jovens e suas dinâmicas familiares.

Essa história nasceu de uma experiência muito íntima, mas eu sempre soube que ela não era um caso isolado. Ver o livro ganhar uma adaptação para o audiovisual é a chance de ampliar esse alcance e levar essa discussão para muito mais gente. Existe um problema acontecendo dentro das casas, muitas vezes de forma silenciosa, e que ainda é difícil de reconhecer ou até de admitir. Se essa história ajudar a tornar visível o que muita gente ainda prefere não enxergar, ela já cumpriu um papel importante”, comemora Paulo Zsa Zsa.

A adaptação será conduzida pela Gullane, responsável por sucessos do cinema e da televisão brasileira, como CarandiruQue Horas Ela Volta?Motel Destino e as séries Senna e As Five. A produtora aposta no potencial da história para ampliar o alcance do debate e sensibilizar o público em diferentes plataformas.

Para nós, adaptar essa obra significa mergulhar em temas cruciais como a saúde mental e a resiliência dos laços afetivos diante das complexidades contemporâneas. Acreditamos que histórias reais têm o poder de gerar empatia e oferecer novas perspectivas, por isso, estamos tratando este desenvolvimento com todo o cuidado e a profundidade que o material exige”, afirma Fabiano Gullane.

Com Assessorias

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