O café é a prova viva de que é difícil agradar gregos e troianos: enquanto uns amam, outros não chegam nem perto. Mas aquela xícara diária de café ou chá pode estar fazendo mais do que apenas te despertar. Um estudo de longo prazo e que acompanhou 130 mil pacientes por 43 anos mostra que a bebida faz muito mais do que ‘acordar’ o corpo: ela é protetora contra a demência. Os pesquisadores concluíram que o consumo moderado de café ou chá com cafeína estava associado a um risco 18% menor de demência e a um melhor desempenho cognitivo ao longo do tempo.
Os resultados mostraram que a ingestão moderada de café com cafeína (2 a 3 xícaras por dia) ou chá com cafeína (1 a 2 xícaras por dia) teve associação a um risco reduzido de demência. Além de declínio cognitivo mais lento e melhor preservação das habilidades cognitivas”, destaca Marcella Garcez, médica nutróloga, professora e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).
O estudo de coorte prospectivo (desenho de pesquisa epidemiológica observacional que acompanha um grupo de indivíduos saudáveis ao longo do tempo, do presente para o futuro, para determinar a incidência de uma doença ou desfecho) foi publicado no periódico JAMA. Embora os resultados sejam encorajadores, a médica ressalta que o tamanho do efeito é pequeno. Além disso, existem muitas maneiras importantes de proteger a função cognitiva à medida que o envelhecimento acontece.
Sem dúvida, o declínio cognitivo é multifatorial e ter bons hábitos de vida é fundamental para reduzir o risco de demência. Mas esse estudo sugere que o consumo de café ou chá com cafeína pode ser uma peça desse quebra-cabeça”, comenta.
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“A prevenção precoce da demência é especialmente importante porque os tratamentos atuais têm limitações e, em geral, trazem apenas benefícios modestos após o início dos sintomas. Consequentemente, os cientistas estão cada vez mais focados em fatores de estilo de vida. Nesse sentido, incluindo a dieta, que podem influenciar o desenvolvimento do declínio cognitivo”, diz a médica.
Segundo a nutróloga, o café e o chá contêm compostos como polifenóis e cafeína, que são benéficos para a saúde cerebral.
Essas substâncias podem ajudar a reduzir a inflamação e limitar os danos celulares, ambos fatores associados ao declínio cognitivo. No entanto, pesquisas anteriores sobre café e demência apresentaram resultados contraditórios, frequentemente devido a períodos de estudo mais curtos ou dados limitados sobre padrões de consumo a longo prazo e diferentes tipos de bebidas”, comenta a Dra. Marcella.
A médica explica que os dados de longo prazo oferecem insights mais claros. Os pesquisadores analisaram como o consumo de café com cafeína, chá e café descafeinado se relacionava com os resultados de saúde cerebral a longo prazo.
Entre os mais de 130.000 participantes, 11.033 desenvolveram demência ao longo do estudo. Indivíduos que consumiam maiores quantidades de café com cafeína apresentaram um risco 18% menor de desenvolver demência em comparação com aqueles que raramente ou nunca o consumiam. Eles também relataram menores taxas de declínio cognitivo subjetivo (7,8% versus 9,5%) e apresentaram melhor desempenho em certos testes cognitivos objetivos.
A cafeína pode desempenhar um papel fundamental. Padrões semelhantes foram observados entre os consumidores de chá, enquanto o café descafeinado não apresentou as mesmas associações. Isso sugere que a cafeína pode ser um fator importante por trás dos benefícios observados relacionados ao cérebro. Embora sejam necessárias mais pesquisas para confirmar os mecanismos subjacentes”, diz a médica.
Os efeitos mais significativos foram observados nos participantes que consumiam de 2 a 3 xícaras de café com cafeína ou de 1 a 2 xícaras de chá por dia.
Níveis mais elevados de ingestão de cafeína não pareceram causar danos. Pelo contrário, apresentaram benefícios comparáveis à faixa de ingestão moderada destacada no estudo. O estudo também comparou pessoas com diferentes predisposições genéticas para desenvolver demência. Então, observaram os mesmos resultados. Isto significa que o café ou a cafeína provavelmente são igualmente benéficos para pessoas com alto e baixo risco genético de desenvolver demência”, diz a Dra. Marcella.
No entanto, a médica lembra que algumas pessoas são sensíveis à cafeína. “Elas podem apresentar problemas de digestão e gástricos, alterações de ritmo cardíaco e pressão arterial, agitação emocional e distúrbios do sono. Situações em que o café deve ser deixado de lado”, finaliza a médica nutróloga.
Publicado originalmente no site Comida na Mesa – ver aqui.




