Em Quem Ama Cuida, o novelão das nove da Globo. Carmita (vivida por Deborah Evelyn) é uma dondoca deslumbrada que acredita ter encontrado o amor verdadeiro em Edson (interpretado por Vandré Silveira). No entanto, o homem é um golpista profissional que pratica estelionato afetivo.
Passando-se como milionário, o farsante consegue que Carmita faça um vultoso empréstimo bancário. Edson conseguiu fugir do país com o dinheiro. O foco da história da dondoca mudou completamente: em vez de conseguir caçar o criminoso, ela acabou se afundando em dívidas e tomando caminhos desesperados. Até o momento na trama, ele não foi encontrado e nem deve voltar tão cedo.

novela Quem Ama Cuida trouxe para o horário nobre um crime que faz cada vez mais vítimas no Brasil: o famoso ‘golpe do amor’. Recentemente, a série belgo-francesa Golpista do Amor (L’Homme de Nos Vies) ganhou destaque ao retratar a história de Guillaume, interpretado por Jonathan Zaccai, um golpista que se aproveita de relacionamentos amorosos para extorquir mulheres.

Embora seja uma obra de ficção, especialistas alertam que essa prática, conhecida como “estelionato amoroso”, é mais comum do que se imagina. Um estudo da iniciativa “Era Golpe, Não Amor”, realizado com cerca de 1.200 mulheres, revelou que quatro em cada dez brasileiras já foram vítimas de estelionato sentimental, evidenciando a dimensão desse tipo de crime e seus impactos financeiros e emocionais.

Projeto de lei criminaliza o estelionato sentimental

Comumente conhecido por “fake amor”, o estelionato sentimental impacta homens e mulheres, tanto jovens quanto idosos, que possuem maior vulnerabilidade emocional. Um projeto de lei, que segue em análise no Congresso Nacional, pretende alterar o Código Penal tratando o crime de estelionato separadamente ao de estelionato sentimental.

Mediante esta alteração, esse crime passa a fazer parte da Lei Maria da Penha e do Estatuto da Pessoa Idosa, uma vez que, é configurado como crime de violência emocional e patrimonial. A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados aprovou recentemente o Projeto de Lei nº 69/2025, que tipifica o chamado “estelionato sentimental” como crime específico por falsear um relacionamento amoroso para obtenção de vantagem econômica ou material..

A proposta prevê pena de reclusão de 3 a 8 anos, além de multa, para quem simular um relacionamento afetivo com o objetivo de obter vantagem econômica ou material. Em casos envolvendo pessoas idosas, a pena pode chegar a 10 anos, e há ainda agravantes quando o crime é praticado por meio de perfis falsos em redes sociais e aplicativos de relacionamento.

Sem dúvida, trata-se de um avanço legislativo importante, pois reconhece que a fraude não ocorre apenas em ambientes comerciais ou patrimoniais, mas também pode ser praticada em contextos íntimos e afetivos. O dano emocional causado por alguém que simula amor ou companheirismo para se aproveitar financeiramente da vítima é profundo e merece uma resposta adequada do Estado”, reflete Daniel Romano Hajaj, advogado especialista em Direito de Família.

O advogado afirma que, do ponto de vista positivo, a tipificação traz maior proteção a pessoas vulneráveis, especialmente idosos, e confere clareza jurídica para diferenciar casos de estelionato comum de situações em que o vínculo afetivo é manipulado. “Além disso, o projeto prevê a possibilidade de aplicação da Lei Maria da Penha quando houver violência psicológica contra a mulher, fortalecendo a rede de proteção” acrescenta.

Como provar que não era amor, era cilada?

Daniel Romano Hajaj reflete que, no entanto, é preciso reconhecer os desafios jurídicos que essa novidade trará. “Um dos principais é a prova do dolo: como demonstrar, em um processo penal, que o relacionamento foi iniciado apenas para obtenção de vantagem financeira? A fronteira entre um relacionamento mal sucedido, uma decepção amorosa e um crime pode ser tênue. Outro ponto de debate é a proporcionalidade das penas, já que a sanção máxima se equipara a crimes de maior gravidade”, analisa.

O advogado destaca que também preocupa a possibilidade de revitimização. “Muitas vezes, a vítima terá de expor detalhes íntimos de sua vida para comprovar o engano sofrido, o que exige um olhar sensível do Judiciário”.

De acordo com Daniel Romano Hajaj, do campo do Direito de Família, a discussão sobre estelionato sentimental pode gerar reflexos em processos de divórcio, partilha de bens e até ações indenizatórias, quando ficar demonstrado que uma das partes se aproveitou emocionalmente para obter ganhos patrimoniais.

A tipificação do estelionato sentimental é uma tentativa de dar ao ordenamento jurídico maior alcance na proteção da dignidade humana, reconhecendo que o afeto também pode ser instrumentalizado como arma de fraude. Contudo, caberá ao legislador refinar o texto legal e ao Judiciário aplicar a norma com cautela, equilibrando a necessária punição ao infrator com a preservação da segurança jurídica”, conclui.

Conheça as principais táticas de estelionatários

De acordo com o advogado Daniel Romano Hajaj, o estelionato amoroso ocorre quando um golpista usa a confiança e o afeto conquistados em um relacionamento para obter vantagens financeiras ou patrimoniais da vítima, que para ele é vista apenas como uma fonte de lucro.

O golpista emprega manipulação emocional e, se necessário, métodos obscuros para atingir seus objetivos”, explica Romano. Ele detalha que esses criminosos frequentemente pedem dinheiro sob o pretexto de emergências falsas, oportunidades de negócios ilusórias ou outras situações fictícias.

Em alguns casos, criam uma identidade falsa, exibindo veículos de luxo e outros sinais de status para parecerem empresários bem-sucedidos. Eles manipulam a vítima para acreditar que estão construindo um futuro juntos, enquanto o verdadeiro objetivo é o enriquecimento próprio”, ressalta.

Embora a prática seja comumente associada a mulheres mais velhas ou financeiramente estáveis, o advogado Daniel Romano Hajaj enfatiza que qualquer pessoa pode ser alvo. “O criminoso não tem pudor. Ele explora qualquer vulnerabilidade emocional e muitas vezes convence a vítima a contrair empréstimos ou vender bens para ajudá-lo.”

Casos exemplares

O advogado Daniel Romano Hajaj cita dois casos recentes atendidos por seu escritório. No primeiro, uma mulher transferiu dinheiro para que o namorado comprasse um celular de última geração antes de uma suposta viagem internacional. “Ele nunca saiu do bairro onde mora”, relata o advogado.

No segundo caso, uma mulher financiou sete veículos em seu nome após ser convencida pelo golpista de que alugá-los para motoristas de aplicativos seria um negócio lucrativo. Além dos carros desaparecidos, o criminoso maximizou o limite dos cartões de crédito da vítima e contratou empréstimos em seu nome, acumulando uma dívida de mais de R$ 500 mil. “Conseguimos recuperar os veículos e negociar com os bancos, mas o prejuízo financeiro e emocional foi significativo”, explica.

Como identificar um golpe?

Daniel diz que identificar um “golpista do amor” nem sempre é fácil, especialmente porque muitas vítimas, já fragilizadas por experiências anteriores, têm dificuldade em desconfiar das intenções de seus parceiros.

Mesmo com alertas de amigos e familiares, a vítima frequentemente se afasta de todos para proteger o golpista, percebendo o golpe apenas quando é tarde demais”, alerta o advogado Daniel Romano Hajaj.

Além das relações amorosas, os estelionatários também se passam por figuras públicas ou celebridades. O advogado Daniel Romano Hajaj cita o caso de uma diarista que foi enganada por alguém se passando pelo cantor brasileiro Fábio Júnior e transferiu R$ 2.500,00 acreditando estar ajudando o artista.

O que fazer ao descobrir o golpe?

O advogado Daniel Romano Hajaj também explica como se proteger de criminosos que atraem mulheres em um suposto relacionamento para ganharem dinheiro com fraudes ou extorsão. Ele orienta as vítimas a registrarem um boletim de ocorrência imediatamente, sem medo de julgamentos.

Também é importante alterar senhas, cancelar cartões e desativar aplicativos que possam conter informações pessoais para evitar mais prejuízos.”

Embora processar o golpista cível e criminalmente seja possível, as chances de recuperar o dinheiro perdido são geralmente pequenas. Para evitar ser vítima desse tipo de crime, Daniel Romano Hajaj recomenda desconfiar de pedidos de dinheiro, evitar promessas de ganhos financeiros rápidos e nunca permitir que o parceiro tenha acesso a cartões de crédito ou contas bancárias. “A prevenção é a melhor forma de proteção”, conclui o advogado.

Como se proteger dos golpes do amor

Para proteger a população longeva desta situação, o gerontólogo Antonio Leitão, do Instituto de Longevidade MAG, traz insights de como eles podem se proteger contra esse tipo de golpe.

  1. Fique atento a movimentações financeiras inesperadas: mudanças inexplicáveis nas finanças do idoso, como transferências bancárias fora do comum, ou solicitações de alterações em documentos patrimoniais sem explicação clara.
  2. Guarde comprovações: documente o máximo de conteúdos possíveis, desde conversas despretensiosas até solicitações de transações bancárias. Arquive os registros dessas movimentações e qualquer outro material que possa defender a vítima em caso de uma investigação.
  3. Procure orientação profissional: a qualquer tipo de desconfiança, consulte advogados especializados em golpes financeiros. Além disso, caso seja necessário, é recomendável a ajuda de terapeutas que possam fornecer apoio ao idoso nesse momento difícil.
  4. Disque 100: utilize o canal responsável por receber denúncias e combater o crime contra a população brasileira de longevos para denunciar casos de estelionato emocional contra idosos e acompanhe as autoridades competentes para as devidas providências.

Entenda o caso de estelionato sentimental na novela das nove

  • Amor às escondidas: Na trama, Carmita conhece Edson, supostamente um milionário infeliz no casamento que demonstra estar apaixonado por ela. Carmita se envolve sexual e afetivamente pelo farsante, na esperança que ele se separe e fique com ela.
  • O relógio falso: Carmita descobre que o relógio de luxo usado por Edson é falsificado. Ele consegue reverter a situação com uma mentira ardilosa para manter a farsa.
  • O empréstimo: Seduzida e enganada, Carmita é manipulada por Edson, que conquista sua confiança, a convence a fazer empréstimos bancários em seu nome e, em seguida, aplica um golpe financeiro. Ela mexe em uma conta conjunta com a filha Bruna – interpretada por Nanda Marques – para dar dinheiro a ele.  Logo depois, Edson foge do país e a deixa com uma dívida altíssima.
  • Fuga do hotel: Carmita e sua amiga Fábia (Flávia Alessandra) chegaram a bancar as detetives. Elas descobriram a locadora de carros que Edson usava, pegaram o endereço de um hotel, mas quando chegaram lá, o vigarista já tinha fugido sem pagar a conta.
  • Destino final: Ele devolveu os bens alugados e deixou o Brasil com o dinheiro do empréstimo de Carmita, saindo de cena. 
  • Vergonha da polícia: Com medo do julgamento social e morta de vergonha, Carmita se recusou a levar a denúncia de estelionato afetivo adiante na delegacia.
  • O desespero: Ao se ver abandonada e falida, Carmita até comete pequenos crimes para tentar se recuperar financeiramente.
  • O golpe do anel falso: Desesperada com a cobrança do banco, ela tentou furtar um anel de Pilar (Isabel Teixeira). A humilhação foi dupla: ao tentar avaliar a joia para vendê-la, descobriu que a peça de Pilar também era uma falsificação sem valor.
  • Acolhimento do vilão Ademir: Sem dinheiro e sem o amor de Edson, Carmita busca se reerguer se aliando a quem menos presta. Ela aceita uma ajuda financeira de Ademir (Dan Stulbach) e, nos capítulos mais recentes, convida o advogado corrupto para morar em sua casa após ele ser escorraçado por Dora (Mariana Ximenes) devido a denúncias de assédio. 
  • Destruição da própria família: Essa decisão de abrigar Ademir faz com que seu genro, Pedro (Chay Suede), se revolte. O clima fica tão insuportável que a própria filha de Carmita acaba saindo de casa com o marido, deixando a mãe completamente isolada e dependente do vilão.

Com Assessorias

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