O avanço acelerado da tecnologia e o acesso cada vez mais precoce à internet têm transformado radicalmente a forma como crianças e adolescentes se relacionam, aprendem e se comunicam no dia a dia. Ao mesmo tempo, essa conectividade ampliou desafios significativos. Recente relatório da Organização das Nações Unidas destaca o avanço alarmante do ciberbullying, ou bullying virtual, e o impacto crescente da inteligência artificial (IA), que torna ataques contra crianças mais rápidos, ocultos e amplificados.

Esta é uma das principais preocupações expressas pelas próprias crianças.  Uma pesquisa recente realizada pelo Escritório da Representação Especial da ONU para Violência contra Crianças com mais de 30 mil crianças em todas as regiões do mundo revelou que 66 % consideram que o ciberbullying aumentou e que 1 em cada 2 crianças não sabe onde e como denunciar e obter apoio. 

O cyberbullying é uma forma de violência praticada no ambiente digital que pode causar impactos psicológicos profundos e, muitas vezes, pouco perceptíveis para adultos e educadorea. De acordo com o relatório anual da ONU apresentado em março deste ano Conselho de Direitos Humanos, na sede das Nações Unidas, em Genebra – , “a IA está remodelando o ciberbullying, tornando-o mais rápido, mais direcionado, mais difícil de detectar e capaz de se espalhar por várias plataformas em grande escala”.

Isso possibilita deepfakes, alvos automatizados e a manipulação de crianças por meio de chatbots e outras ferramentas nas quais elas muitas vezes confiam demais e não conseguem distinguir da interação humana real. Fotos e vídeos deepfake gerados por IA, inclusive por meio de aplicativos de “nudificação”, são cada vez mais usados para humilhar, ameaçar e explorar crianças on-line.

A Representante Especial do Secretário-Geral sobre Violência contra as Crianças, Dra. Najat Maalla M’jid, discursa durante o evento “Não deixar ninguém para trás: garantir ações sustentáveis para acabar com a violência contra as crianças”, na sede das Nações Unidas, em 6 de novembro de 2025.
Najat Maalla M’jid, na sede das Nações Unidas (Foto: ONU/Loey Felipe)
A representante especial da ONU sobre Violência contra Crianças, Najat Maalla M’jid, alertou para “um contexto desafiador, no qual as crianças estão pagando o preço mais alto”, em um cenário global cada vez mais hostil. “Sua proteção e bem-estar são prejudicados pelo aumento dos conflitos, deslocamentos, pobreza, violência e múltiplas privações”, afirmou.  

O relatório alerta que as crianças não denunciam facilmente o ciberbullying porque enfrentam estigma, porque não sabem onde denunciar, temem ser rejeitadas por colegas ou julgadas pelos adultos. 

Participação de todos os setores da sociedade é essencial 

A Dra. Maalla M’jid enfatizou a necessidade de uma ação conjunta envolvendo todos os atores do ecossistema de proteção infantil online, incluindo governos, indústria, educadores, famílias, crianças e jovens, para garantir proteção digital, fortalecer canais para denúncias e criar ambientes on-line seguros para as crianças.

Essa é a única maneira de projetar uma estrutura multissetorial com o objetivo de proteger as crianças contra danos online, ao mesmo tempo em que possibilita uma participação virtual segura”, disse. 

Ela destacou a necessidade urgente de garantir que a segurança e a privacidade das crianças sejam incorporadas em todas as plataformas digitais e na cadeia de valor da IA. 

A importância do letramento digital

Em seu relatório anual ao Conselho de Direitos Humanos, a Dra. Maalla M’jid destacou o importante papel das crianças e dos jovens, que devem ser capacitados com pensamento crítico e cidadania digital e envolvidos nas respostas, conforme expresso por uma criança consultada por seu escritório: 

Os espaços digitais não devem se tornar locais onde os danos são relatados, mas nunca resolvidos. Devem ser locais onde a ajuda chega de forma rápida, segura e humana. Não criem o futuro digital para as crianças. Façam isso conosco.”

O letramento digital — a capacidade de compreender, analisar criticamente e utilizar as tecnologias de forma segura e ética — torna-se essencial para que jovens possam navegar com autonomia e proteção no mundo online.

Entenda o ciberbullying

Ciberbullyingexplica o UNICEF, é o bullying realizado por meio das tecnologias digitais. Pode ocorrer nas mídias sociais, plataformas de mensagens, plataformas de jogos e celulares. É o comportamento repetido, com intuito de assustar, enfurecer ou envergonhar aqueles que são vítimas.

Diferentemente do bullying tradicional, o assédio online extrapola os limites do espaço físico e pode ocorrer a qualquer hora e em maior escala, ampliando o sofrimento das vítimas e a sensação de exposição permanente.

Entre os exemplos, estão:

  • espalhar mentiras ou compartilhar fotos constrangedoras de alguém nas mídias sociais;
  • enviar mensagens ou ameaças que humilham pelas plataformas de mensagens;
  • se passar por outra pessoa e enviar mensagens maldosas aos outros em seu nome.

O impacto do ciberbullying pode ser imediato e devastador, causando sofrimento psicológico e danos duradouros à reputação em segundos. Nos casos mais trágicos, pode levar as crianças a tirarem suas próprias vidas.

Com informações da ONU Brasil

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