O avanço acelerado da tecnologia e o acesso cada vez mais precoce à internet têm transformado radicalmente a forma como crianças e adolescentes se relacionam, aprendem e se comunicam no dia a dia. Ao mesmo tempo, essa conectividade ampliou desafios significativos, como o cyberbullying, forma de violência praticada no ambiente digital, e pode causar impactos psicológicos profundos e, muitas vezes, pouco perceptíveis para adultos e educadores.
Recente relatório da Organização das Nações Unidas destaca o avanço alarmante do ciberbullying, ou bullying virtual, e o impacto crescente da inteligência artificial (IA), que torna ataques contra crianças mais rápidos, ocultos e amplificados. Esta é uma das principais preocupações expressas pelas próprias crianças.
Uma pesquisa recente realizada pelo Escritório da Representação Especial da ONU para Violência contra Crianças com mais de 30 mil crianças em todas as regiões do mundo revelou que 66 % consideram que o ciberbullying aumentou e que 1 em cada 2 crianças não sabe onde e como denunciar e obter apoio.
De acordo com o relatório anual apresentado em março deste ano Conselho de Direitos Humanos, na sede das Nações Unidas, em Genebra, a IA está “remodelando o ciberbullying, tornando-o mais rápido, mais direcionado, mais difícil de detectar e capaz de se espalhar por várias plataformas em grande escala”.
Isso possibilita deepfakes, alvos automatizados e a manipulação de crianças por meio de chatbots e outras ferramentas nas quais elas muitas vezes confiam demais e não conseguem distinguir da interação humana real. Fotos e vídeos deepfake gerados por IA, inclusive por meio de aplicativos de “nudificação”, são cada vez mais usados para humilhar, ameaçar e explorar crianças on-line.

O relatório alerta que as crianças não denunciam facilmente o ciberbullying porque enfrentam estigma, porque não sabem onde denunciar, temem ser rejeitadas por colegas ou julgadas pelos adultos.
Cyberbullying cresce entre crianças e adolescentes e acende alerta para famílias
No Brasil, a situação é preocupante. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelaram que 13,2% dos jovens afirmaram já ter sofrido cyberbullying. O estudo, realizado em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ouviu 159.245 estudantes de 13 a 17 anos do ensino fundamental e médio de escolas públicas e privadas.
Diferentemente do bullying tradicional, o assédio online extrapola os limites do espaço físico e pode ocorrer a qualquer hora e em maior escala, ampliando o sofrimento das vítimas e a sensação de exposição permanente.
De acordo com Lizandra Duarte, gerente de Expansão e Relacionamento Educacional da Start by Alura, mensagens de ofensas, exclusões e ameaças podem se disseminar e se prolongar em ambientes digitais. Isso inclui redes sociais, aplicativos de mensagens e outras plataformas online, sem os mesmos limites e mecanismos de controle presentes no ambiente físico.
Nesse cenário, o papel dos pais é fundamental não apenas para monitorar o uso da tecnologia, mas para estabelecer um diálogo aberto e contínuo, que permita às crianças e os adolescentes compreenderem os riscos e desenvolverem habilidades para lidar com situações de conflito e agressão online”, explica.
Entenda o ciberbullying
Ciberbullying, explica o UNICEF, é o bullying realizado por meio das tecnologias digitais. Pode ocorrer nas mídias sociais, plataformas de mensagens, plataformas de jogos e celulares. É o comportamento repetido, com intuito de assustar, enfurecer ou envergonhar aqueles que são vítimas. Exemplos incluem:
- espalhar mentiras ou compartilhar fotos constrangedoras de alguém nas mídias sociais;
- enviar mensagens ou ameaças que humilham pelas plataformas de mensagens;
- se passar por outra pessoa e enviar mensagens maldosas aos outros em seu nome.
O impacto do ciberbullying pode ser imediato e devastador, causando sofrimento psicológico e danos duradouros à reputação em segundos. Nos casos mais trágicos, pode levar as crianças a tirarem suas próprias vidas.
Participação de todos os setores da sociedade é essencial
A Dra. Maalla M’jid enfatizou a necessidade de uma ação conjunta envolvendo todos os atores do ecossistema de proteção infantil online, incluindo governos, indústria, educadores, famílias, crianças e jovens, para garantir proteção digital, fortalecer canais para denúncias e criar ambientes on-line seguros para as crianças.
Essa é a única maneira de projetar uma estrutura multissetorial com o objetivo de proteger as crianças contra danos online, ao mesmo tempo em que possibilita uma participação virtual segura”, disse.
Ela destacou a necessidade urgente de garantir que a segurança e a privacidade das crianças sejam incorporadas em todas as plataformas digitais e na cadeia de valor da IA.
A importância do letramento digital
Em seu relatório anual ao Conselho de Direitos Humanos, a Dra. Maalla M’jid destacou o importante papel das crianças e dos jovens, que devem ser capacitados com pensamento crítico e cidadania digital e envolvidos nas respostas, conforme expresso por uma criança consultada por seu escritório:
Os espaços digitais não devem se tornar locais onde os danos são relatados, mas nunca resolvidos. Devem ser locais onde a ajuda chega de forma rápida, segura e humana. Não criem o futuro digital para as crianças. Façam isso conosco.”
O letramento digital — a capacidade de compreender, analisar criticamente e utilizar as tecnologias de forma segura e ética — torna-se essencial para que jovens possam navegar com autonomia e proteção no mundo online.
Para Lizandra, a perseguição online é um fenômeno que pode causar danos profundos e duradouros, pois acontece em um espaço onde a vítima, muitas vezes, se sente desprotegida e exposta 24 horas por dia. “A prevenção desses ataques passa pela educação digital, que deve integrar aspectos técnicos e socioemocionais para formar cidadãos conscientes e resilientes.”
Além da família, as escolas têm um papel fundamental no combate ao cyberbullying, promovendo ambientes seguros e inclusivos e oferecendo aos estudantes ferramentas para reconhecer, denunciar e enfrentar essas situações.
A educação digital, quando aliada ao desenvolvimento do pensamento crítico, empatia e respeito, pode transformar o ambiente escolar em um espaço de proteção e aprendizado. O uso de metodologias que envolvem os alunos ativamente, como projetos interdisciplinares e atividades que conectam tecnologia e valores humanos, tem mostrado resultados positivos.
Tecnologia e empatia contra o cyberbullying
Um exemplo concreto dessa abordagem é o projeto desenvolvido na Escola Municipal Sansara Singh Filho, em Ouroeste (SP), liderado pelo professor Marcos Polveiro. A iniciativa utilizou as atividades dos conteúdos propostos pela Start para debater os tipos de bullying, promovendo a conscientização e o engajamento dos estudantes por meio de podcasts, palestras e gincanas temáticas.
Essas atividades estimulam a reflexão sobre empatia, respeito às diferenças e responsabilidade digital, contribuindo para a transformação do ambiente escolar e o fortalecimento das relações interpessoais”, explica Lizandra.
O projeto também destacou a importância do pensamento computacional como ferramenta para desenvolver habilidades socioemocionais e cidadania digital. “Ao envolver os estudantes em atividades que conectam tecnologia e valores humanos, conseguimos criar um espaço em que eles se sentem protagonistas e responsáveis pelo próprio comportamento e pelo coletivo”, afirma Polveiro. A experiência em Ouroeste reforça que o combate ao cyberbullying é uma tarefa que requer a integração de esforços entre escola, família e comunidade.
Com o uso intenso de dispositivos digitais, o combate ao assédio digital deve ser encarado como uma prioridade social. A conscientização, o diálogo aberto e a educação digital são caminhos essenciais para garantir um ambiente seguro e saudável para crianças e adolescentes, protegendo seu desenvolvimento emocional e social em um mundo cada vez mais conectado.




