Em campo, o desempenho é medido em minutos, gols e resultados. Fora dele, cresce uma variável menos visível, mas igualmente determinante: a saúde mental dos atletas. Em períodos de grandes competições, como a Copa do Mundo da Fifa, o nível de exigência física e emocional atinge seu ápice, colocando jogadores sob pressão constante — de torcedores, patrocinadores, imprensa e, sobretudo, de si mesmos.

Estudos recentes apontam que esse cenário não é pontual. Uma revisão publicada no British Journal of Sports Medicine identificou prevalência significativa de sintomas de ansiedade e depressão entre atletas de elite, especialmente em fases de competição intensa.

Já um relatório do Comitê Olímpico Internacional (IOC) sobre saúde mental no esporte reforça que fatores como lesões, sobrecarga de treinos e pressão por performance estão diretamente associados ao aumento do sofrimento psíquico.

O impacto emocional

Para o médico especialista em exercício e esporte Fernando Hess, pós-doutor em Ciências da Reabilitação e coordenador do Internato de Medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa), o impacto emocional está intrinsecamente ligado à dinâmica do alto rendimento.

O atleta vive um paradoxo: precisa manter o máximo desempenho sob níveis elevados de estresse. Em competições como a Copa, há uma intensificação de carga física e emocional, o que exige não apenas preparo muscular, mas também suporte psicológico estruturado”, explica Hess.

Segundo ele, a integração entre equipes médicas, fisiológicas e psicológicas já é uma realidade no esporte profissional, justamente para mitigar riscos e preservar a longevidade da carreira dos atletas. “Hoje, não se fala mais em performance sem considerar saúde mental. É um componente estratégico”, afirma.

Saúde mental é um fator decisivo para o desempenho e bem-estar

A saúde mental é fundamental para a prática esportiva de alta performance. Mas os interesses financeiros no futebol acabam se sobrepujando aos cuidados com a saúde mental. De acordo com o psicólogo Cleyson Monteiro, professor do curso de Psicologia da Uninassau Olinda (PE), os jogadores e técnicos costumam passar por qualificações técnica, fisiológica e de atividades físicas, mas não existe uma preparação psíquica. Na sua opinião,

Normalmente, os esportistas sofreram muito durante a vida e, quando se tornam famosos, perdem a noção da sua base, da constituição da família. Essas circunstâncias acabam afetando o estado emocional”.

Como a Argentina se preparou para vencer a Copa de 2022

Segundo ele, nem sempre as melhores equipes, com os melhores profissionais, são as vencedoras. Muitas vezes, o elemento psíquico tem um valor importante e termina afetando os resultados no placar dos jogados.

Um exemplo foi a Argentina, que chegou totalmente desacreditada à Copa do Mundo de 2022 e acabou levando o título, graças ao trabalho de uma equipe de psicologia para preparar toda a equipe e não atletas individualmente.

Os profissionais prepararam os jogadores para o bem coletivo, não sobressaltando apenas a individualidade de cada um. Eles trabalharam a inteligência emocional e os aspectos de resiliência. Isso torna o ser humano mais apto a lidar com as pressões e adversidades do esporte”, explica Cleyson Monteiro.

O professor ressalta a importância de todo time ter à disposição uma equipe de psicólogos. “O nível de pressão é muito grande, tornando o acompanhamento psicológico fundamental.  Isso não significa a conquista do título, mas, com certeza, melhores resultados”, diz ele.

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Jogadores podem desenvolver problemas psiquiátricos como ansiedade e depressão

Do ponto de vista psiquiátrico, o cenário exige atenção a sinais muitas vezes negligenciados.  O médico psiquiatra Kalil Duailibi, coordenador da área de Psiquiatria da Unisa e presidente do Departamento Científico de Psiquiatria da Associação Paulista de Medicina (APM), destaca que o ambiente competitivo pode potencializar quadros de ansiedade, insônia e esgotamento emocional.

A pressão por resultados, somada à exposição pública e ao medo do erro, cria um terreno fértil para o desenvolvimento de transtornos ansiosos. Em muitos casos, o atleta não se sente autorizado a demonstrar fragilidade, o que agrava o quadro e retarda a busca por ajuda”, analisa Duailibi.

Segundo o psicólogo, devido à falta de equilíbrio emocional, muitos jogadores não conseguem controlar a ansiedade e passam a apresentar quadros de depressão, assim como outras psicopatologias normalmente relevadas dentro do ambiente esportivo.

Isso termina culminando em comportamentos atípicos e violentos.  Os sinais da falta de preparação mental são irritação muito profunda, quadro de violência extrema e fora da normalidade do indivíduo, intolerância às críticas, impaciência e ansiedade ligada aos elementos do futebol.

Em uma partida de futebol, o jogador costuma ser influenciado porque o próprio adversário sabe que ele tem ‘pavio curto’ e não tem preparo psicológico. Ou seja, vai buscar o desequilíbrio para gerar uma punição e afetar o outro time”, afirma Cleyson Monteiro.

O atleta que briga com a torcida, o próprio colega ou o técnico costuma apresentar insônia, precisando de ajuda medicamentosa, e desagregação familiar, pois não se dá bem com os familiares”.

Caso familiares, comissão técnica e colegas de trabalho notem esses sinais, eles podem reportar aos profissionais. Dessa forma, o atleta será observado no treino, nas pré-seleções e em dinâmicas.

Do alto rendimento à prática amadora: o cuidado precisa ser ampliado

Para o psiquiatra, o estigma em torno da saúde mental no esporte vem diminuindo, mas ainda representa uma barreira importante. “Reconhecer o sofrimento psíquico como parte legítima da experiência humana — inclusive no alto rendimento — é essencial para avançarmos em cuidado e prevenção”, completa.

Embora o debate ganhe visibilidade a partir dos atletas profissionais, os impactos da pressão e da expectativa também se estendem aos praticantes amadores, especialmente em contextos de alta exposição social, como competições recreativas e eventos esportivos de grande porte.

Quando o esporte é bem orientado, ele atua como fator protetivo para a saúde mental. O problema não está na prática em si, mas na forma como ela é conduzida, especialmente quando há excesso de cobrança e ausência de suporte”, conclui Duailibi.

À medida que o esporte ganha protagonismo social e midiático, cresce também a responsabilidade de ampliar o olhar sobre o bem-estar integral dos atletas. Mais do que desempenho, a agenda contemporânea do esporte passa, inevitavelmente, pela saúde — física e mental.

Com Assessorias

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