Dor ao levantar, rigidez ao acordar, desconforto ao subir escadas, joelho que pesa, coluna que trava, ombro que limita movimento e peso constante na lombar no fim do dia. Para muita gente, esses sintomas já fazem parte da rotina. O problema é que o corpo nem sempre está apenas cansado. Em muitos casos, ele já está funcionando sob limitação.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 30% da população mundial convivem com algum tipo de dor crônica, principalmente musculoesquelética. Um estudo publicado pela revista científica The Lancet colocou as dores musculoesqueléticas entre as principais causas de incapacidade no mundo.

No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam que 36,9% dos brasileiros com mais de 50 anos convivem com dores persistentes. Mulheres acima dos 35 anos apresentam mais queixas nos consultórios. 

A dor crônica representa um importante desafio para a saúde pública no país, impactando significativamente a qualidade de vida, a capacidade funcional, a produtividade, o sono e a saúde emocional. O problema é tão grande que o calendário da saúde passou a contar com oDia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Dor Crônica, celebrado em 5 de julho.

O corpo vai se adaptando mal

O mais preocupante, porém, talvez seja outro ponto: a velocidade com que as pessoas aprendem a conviver com o desconforto. Dores que aparecem todos os dias estão sendo incorporados à rotina como algo inevitável – mas não deveriam. Especialistas alertam que normalizar o desconforto pode acelerar o desgaste físico e comprometer qualidade de vida.

A maioria dos pacientes não chega dizendo que sente dor crônica. Eles falam de um incômodo aqui, uma limitação ali, um desconforto que vai e volta. Só que isso já altera movimento, postura e função do corpo”, explica a fisioterapeuta Fabi Pinelli.

Na maior parte dos casos, a dor não começa de forma intensa. Ela aparece aos poucos. É o joelho que incomoda em movimentos simples. A coluna que exige pausas constantes. O ombro que perde mobilidade. A musculatura que nunca relaxa completamente. E justamente por não interromper totalmente a rotina, esses sinais acabam sendo ignorados.

‘Não era uma dor incapacitante. Era um desconforto constante’

Esse processo costuma ser silencioso. Foi o que aconteceu com a administradora Juliana Mendes, de 42 anos, que passou anos convivendo com dor no joelho sem procurar tratamento.

Não era uma dor incapacitante. Era um desconforto constante. Comecei a evitar escadas, caminhadas longas e alguns movimentos simples. Só depois percebi o quanto meu corpo já estava limitado”, conta.

Segundo ela, o mais difícil foi entender que havia normalizado o problema. “Eu realmente achava que era uma coisa normal da idade.”

A fisioterapeuta Fabi lembra que nosso corpo cria compensações o tempo inteiro. “A pessoa continua funcionando, mas começa a se movimentar diferente, sobrecarregar outras regiões e sustentar tensão constante sem perceber”, afirma Fabi.

O corpo moderno está inflamado

Outro erro comum é acreditar que toda dor faz parte do envelhecimento natural. Embora exista desgaste fisiológico ao longo dos anos, especialistas observam um aumento importante de pacientes mais jovens convivendo com dores articulares, inflamação persistente e dificuldade de recuperação física.

Dados do IBGE mostram que quase metade da população brasileira adulta é sedentária, fator diretamente associado ao aumento de dores musculares e articulares. Ao mesmo tempo, sono ruim, excesso de carga física, estresse e longos períodos sem recuperação adequada fazem o corpo funcionar em estado constante de sobrecarga.

Hoje não falamos apenas de envelhecimento cronológico. Falamos de um corpo inflamado, sobrecarregado e que passou anos funcionando no limite”, explica Fabi Pinelli.

Quando a dor deixa de ser só um sintoma

O problema da dor recorrente é que ela não afeta apenas articulações ou musculatura. Ela muda o movimento, disposição, postura, energia e até comportamento. Muita gente reorganiza a vida inteira ao redor do desconforto sem perceber. Dorme diferente, senta diferente, evita alguns movimentos, reduz atividades físicas e passa a viver em constante adaptação.

Existe uma diferença grande entre um corpo cansado e um corpo funcionando sob limitação”, afirma Fabi. O principal sinal de alerta não é apenas a intensidade da dor, mas sua frequência e impacto na rotina.

Apesar de sua elevada prevalência, muitas pessoas ainda enfrentam dificuldades para obter diagnóstico precoce e acesso ao tratamento adequado. Embora a dor seja um importante mecanismo de defesa do organismo, ela pode assumir características diferentes ao longo do tempo.

Diferença entre dor aguda e dor crônica

A dor aguda geralmente surge como resposta imediata a uma lesão, cirurgia, trauma ou processo inflamatório. Em geral, possui duração limitada e tende a desaparecer conforme a causa é tratada. Já a dor crônica persiste por três meses ou mais, podendo permanecer mesmo após a resolução da causa inicial.

Nesse estágio, ela deixa de ser apenas um sintoma e passa a ser reconhecida como uma condição clínica complexa, que exige avaliação multidisciplinar e tratamento individualizado. Além dos impactos físicos, a dor crônica pode comprometer aspectos emocionais, sociais e profissionais da vida dos pacientes.

A conscientização sobre as diferenças entre dor aguda e dor crônica é essencial para que pacientes procurem assistência especializada precocemente e tenham acesso às terapias mais adequadas. Seja qual for o tipo de dor, a recomendação é procurar ajuda clínica e não se automedicar”, explica Daniela Lourenço. gerente médica da Adium Brasil.

O novo olhar sobre o tratamento da dor

Nos últimos anos, cresceu a procura por tratamentos que vão além do alívio momentâneo do sintoma. Mais do que reduzir dor, pacientes passaram a buscar:

  • melhora funcional
  • mobilidade
  • recuperação física
  • autonomia
  • qualidade de vida

Hoje as pessoas querem voltar a viver o corpo com conforto. Não apenas suportar a rotina sentindo menos dor”, conclui Fabi Pinelli. No fim, talvez a mudança mais importante seja justamente essa: parar de tratar desconforto constante como algo inevitável.

Agenda Positiva

Brasil sem Dor: campanha promove conscientização

No Dia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Dor Crônica (5 de julho). a Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) lança a campanha ‘Brasil sem Dor’, em parceria com a Adium. A iniciativa faz parte das ações do Julho Verde, movimento nacional voltado à conscientização sobre a dor crônica, sua prevenção, diagnóstico e tratamento. 

De acordo com a presidente da SBED, Luci Mara França Correia, a campanha pretende ampliar o alcance da informação qualificada, fortalecer o cuidado ao paciente e contribuir para que a dor seja reconhecida e tratada de forma adequada. O objetivo do tratamento da dor é aliviar o sofrimento do paciente, preservar sua funcionalidade e proporcionar melhor qualidade de vida.

Durante todo o mês de julho, a campanha promoverá ações educativas voltadas à população, pacientes e profissionais de saúde. Entre as ações previstas estão atividades de educação continuada para médicos e demais profissionais da saúde. Um dos destaques é o lançamento de um aplicativo educacional desenvolvido para apoiar pacientes e profissionais no manejo da dor.

Com Assessorias

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