A celebração do Dia Nacional da Educação de Surdos (23/04) e do Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais (24/04) é uma oportunidade para refletir sobre a importância da inclusão e do respeito à diversidade linguística. Os espaços para abordar o assunto são fundamentais para garantir os direitos da comunidade surda e promover uma sociedade mais justa e igualitária.
Como tornar o processo de aprendizagem mais acessível, acolhedor e culturalmente significativo para crianças surdas, desde os primeiros anos de vida? Esta foi a pergunta que motivou a criação do #CasaLibras, programa desenvolvido na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) desde 2020. O projeto surgiu durante a pandemia de Covid-19, a partir de uma constatação que vinha aparecendo nas pesquisas conduzidas pela docente com escolas públicas que adotam propostas bilíngues para estudantes surdos.
Eu desenvolvia um estudo com escolas públicas que tinham proposta bilíngue e a pesquisa mostrou a escassez de materiais didáticos em Libras”, conta a coordenadora do projeto, Vanessa Regina de Oliveira Martins, docente do Departamento de Psicologia (DPsi) e do Programa de Pós-Graduação em Educação Especial (PPGEEs), ambos da UFSCar.
Diante desse cenário, a primeira iniciativa foi a produção de contações de histórias em Língua Brasileira de Sinais (Libras), disponibilizadas online para professores e estudantes. A ação rapidamente passou a circular entre escolas públicas de diferentes regiões do país. “Quando falamos de entretenimento para crianças surdas, praticamente não há acessibilidade, ainda mais na fase de desenvolvimento de linguagem”, observa a professora.
Com o tempo, o que começou como uma atividade emergencial de extensão foi ganhando corpo e passou a integrar de forma mais estruturada as atividades da Universidade. Hoje, o #CasaLibras articula pesquisa, ensino e extensão em torno da produção de conteúdos educativos e culturais em Libras, reunindo vídeos, materiais pedagógicos, formações e ações culturais voltadas às chamadas infâncias surdas.
Os materiais produzidos vêm sendo utilizados por escolas públicas de diversas regiões do Brasil e parte do conteúdo está disponível gratuitamente no canal do Programa no YouTube. “Temos hoje um repositório variado culturalmente e de uso gratuito, com ampla circulação, que vem sendo utilizado por instituições de ensino públicas do Brasil todo”, explica Martins.
Acessibilidade e protagonismo surdo
Uma das preocupações centrais do Programa é garantir que os materiais sejam, de fato, acessíveis às crianças surdas – algo que envolve cuidados técnicos que vão além da simples tradução de conteúdos para Libras.
Entre os aspectos considerados estão o enquadramento adequado da janela de Libras nos vídeos, iluminação, contraste de cores, ritmo narrativo e adaptação cultural das histórias. “Não se trata apenas de traduzir. Muitas vezes é necessário adaptar o conteúdo para a cultura surda e pensar visualmente a narrativa”, explica a coordenadora.
Outro princípio importante do projeto é o protagonismo de pessoas surdas na produção dos conteúdos. Adultos surdos participam das atividades como artistas, narradores e produtores culturais, ampliando referências e representatividade para as crianças.
Entre as ações que ganharam maior alcance está o Campeonato Artístico-Literário do #CasaLibras, que mobiliza escolas de diferentes regiões do país na produção de trabalhos culturais em Libras. A primeira edição reuniu apenas cinco escolas. Hoje, o campeonato já conta com mais de 60 instituições participantes.
O principal impacto é a relação que nós estabelecemos entre universidade e educação básica. É impacto na vida das crianças surdas. As famílias relatam que elas acessam o nosso canal e passam a ter um espaço de produção cultural em língua de sinais”, afirma Martins.
A próxima edição do campeonato deve ter dois marcos importantes: a quinta edição nacional e a primeira participação internacional, com articulações em andamento com instituições do Uruguai.
Mascote CaLi, proteção institucional e parcerias
O crescimento do Programa também levou à criação de novos elementos de identidade visual voltados ao público infantil. Um deles é o mascote CaLi, personagem que representa o #CasaLibras. A ideia surgiu durante uma disciplina de estágio.
Um dos estudantes sugeriu trabalhar com bonecos e, em seguida, tivemos a ideia do mascote. O personagem foi desenvolvido com apoio de um bonequeiro e o nome foi escolhido por votação entre estudantes. O CaLi foi pensado com atenção a aspectos visuais e simbólicos ligados à comunidade surda, incluindo o uso de cores associadas à cultura surda e à identidade visual do projeto”, detalha Martins.
Com a circulação do mascote em atividades e eventos, escolas passaram a solicitar produtos relacionados ao personagem, como camisetas, materiais pedagógicos e versões do boneco. “As crianças querem levar o CaLi para casa. Mas, para ampliar a escala, é fundamental termos apoios e novas parcerias”, observa a professora.
Diante desse interesse crescente, o projeto contou com apoio da Agência de Inovação da UFSCar (AIn.UFSCar) para solicitar o registro da marca #CasaLibras e do desenho industrial do mascote. A iniciativa garante segurança jurídica e abre caminho para futuras cooperações com empresas e instituições interessadas na produção e difusão dos materiais.
Segundo Martins, a formalização também permite ampliar as possibilidades de desenvolvimento de novos produtos educativos. “A comercialização de produtos pode reverter recursos para o próprio projeto e ampliar as possibilidades de produção de materiais. Além disso, parcerias com empresas permitem dar escala a essas iniciativas e fazer com que os conteúdos e personagens cheguem a mais crianças e escolas.”
Empresas e instituições interessadas em apoiar o desenvolvimento de materiais, patrocinar ações do projeto ou estabelecer parcerias para produção e difusão do mascote e dos conteúdos do #CasaLibras podem entrar em contato com a Agência de Inovação da UFSCar pelo e-mail inovacao@ufscar.br ou pelo telefone (16) 3351-9433.
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Obra é fruto da pesquisa do primeiro pesquisador surdo a conquistar o título de doutor em Linguística na UFSCar
Para quem quer aprender mais sobre educação para pessoas com deficiência auditiva uma dica de leitura neste Dia Mundial do Livro – que também marca o Dia Nacional da Educação de Surdos (23/04) – é a obra “Mãos silenciadas: o contexto sociolinguístico dos surdos do interior de Tocantins”, escrita por Fernando Cardoso dos Santos, o primeiro pesquisador surdo a concluir o doutorado em Linguística na UFSCar.
Em formato de livro, o ebook é resultado da pesquisa realixzada por Santos entre 2019 e 2023 para a sua tese de doutorado, envolvendo trabalho de campo, entrevistas com surdos e seus familiares, além da análise de documentos e políticas públicas voltadas à inclusão linguística e educacional em municípios do interior do Tocantins.
O tema surgiu a partir das experiências pessoais do Fernando, que é surdo e cresceu em uma cidade do interior do Tocantins e, ao longo de sua trajetória pessoal e profissional, percebeu as lacunas existentes no atendimento às pessoas surdas nesses contextos. A convivência com sujeitos surdos em comunidades marcadas pela escassez de políticas linguísticas e educacionais específicas despertou o desejo de investigar e dar visibilidade às suas realidades comunicativas,
A obra também é assinada por Cássio Florêncio Rubio, professor do Departamento de Psicologia (DPsi) e orientador do estudo, e está disponível para acesso digital e gratuito no site da Pedro & João Editores. Atualmente, Santos atua como professor efetivo da Universidade Federal do Tocantins (UFT).
Resultados e destaques da obra
A obra apresenta os resultados da investigação sobre as práticas comunicativas de sujeitos surdos em municípios do interior do Tocantins, destacando a diversidade dos repertórios visuais e gestuais.
Em muitos desses municípios, onde o acesso à Libras é limitado ou inexistente, os surdos desenvolvem formas alternativas de comunicação baseadas em gestos caseiros, mímicas, apontamentos e expressões faciais – práticas que surgem no cotidiano familiar e comunitário”, conta o orientador do estudo.
Por exemplo, há casos em que uma família inteira se adapta a uma ‘linguagem própria’ para se comunicar com o membro surdo, sem que essa linguagem tenha estrutura ou reconhecimento formal. “Essas práticas revelam criatividade, mas também denunciam a ausência de acesso à língua de sinais sistematizada e à educação bilíngue”.
Um dos pontos que mais chamou atenção dos pesquisadores durante o desenvolvimento do estudo “foi a força dos laços familiares e a disposição de muitas dessas pessoas em criar estratégias próprias para se comunicar com seus filhos ou parentes surdos, mesmo sem formação específica.
Outra curiosidade foi a ausência quase total de intérpretes de Libras em espaços públicos – o que obriga os surdos a recorrerem a crianças ou parentes ouvintes para intermediar situações cotidianas. Além disso, destacou-se a resiliência desses sujeitos em contextos de invisibilidade linguística, o que reforça, sobremaneira, o título da obra”, explica Rubio.
Outras linguagens além da Libras
A obra questiona a centralidade da Libras institucionalizada e propõe uma abordagem mais ampla e inclusiva da linguagem. Com base em referenciais da Sociolinguística e dos Estudos Surdos, revela os desafios e as potências das comunidades nas quais os surdos estão inseridos.
Segundo o orientador do estudo, “ensinar Libras para crianças surdas que cresceram utilizando gestos caseiros com suas famílias é como ensinar o Português escrito padrão e oral culto a crianças ouvintes que cresceram falando a variedade popular de sua comunidade. Em ambos os casos, a escola não deve apagar ou corrigir categoricamente o que veio de casa, mas sim reconhecer essas formas como expressões legítimas de linguagem, que serviram (e ainda servem) para mediar afetos, necessidades e experiências”.
Ele cita um exemplo: da mesma forma que uma criança ouvinte pode chegar à escola dizendo “nóis vai” e, a partir disso, aprender que existe também a forma “nós vamos”, no contexto mais formal, uma criança surda pode chegar à escola usando gestos criados com a família para expressar “comer”, “mãe”, “quero”, e então ser apresentada à forma convencional desses sinais em Libras.
Para ele, “não se trata de substituir, mas de ampliar repertórios. A escola precisa construir pontes linguísticas e afetivas, permitindo que a criança perceba que as duas formas têm valor e função, mas que em certos contextos – como na produção acadêmica, nos espaços públicos ou formais – existem convenções compartilhadas que facilitam a comunicação com um grupo mais amplo”, avalia.
Assim como o ensino do Português deve acolher a fala da criança e guiá-la ao letramento, o ensino da Libras deve acolher os gestos familiares e guiá-los rumo à fluência em uma língua visual reconhecida nacionalmente, sem jamais desvalorizar o esforço criativo e afetivo que esses gestos carregam”.
Dessa forma, a abordagem proposta no e-book “vai além da concepção tradicional de língua como um sistema oral, escrito ou sinalizado padronizado e coletivo mais amplo. O estudo defende que a linguagem é multimodal e deve incluir as formas visuais e gestuais utilizadas pelas pessoas surdas, reconhecendo-as como legítimas e socialmente significativas.
Isso implica pensar políticas públicas que respeitem os modos próprios de expressão dos surdos, garantindo o acesso à Libras, à mediação linguística e à educação bilíngue em todos os espaços, inclusive nos municípios mais remotos”, defende o professor.
A publicação
O livro é voltado a pesquisadores, professores, estudantes, profissionais da Educação, da Linguística, da área de Libras e da inclusão, além de gestores públicos e formuladores de políticas educacionais e linguísticas.
Também é recomendado para familiares de pessoas surdas e interessados em compreender a realidade da surdez fora dos grandes centros urbanos. A obra, em formato digital, é de acesso gratuito e livre, através do site da editora (https://bit.ly/4kdNCs9).
Mais informações podem ser solicitadas diretamente com os autores pelos e-mails cassiorubio@ufscar.br ou fernandosantos@mail.uft.edu.br
Sobre os autores
Fernando Cardoso dos Santos é pesquisador na área da surdez; tem uma trajetória marcada pelo compromisso com a inclusão linguística e educacional, especialmente de sujeitos surdos que vivem em localidades afastadas dos grandes centros, onde muitas vezes os direitos linguísticos não são garantidos.
Cássio Florêncio Rubio é linguista com experiência em sociolinguística, políticas linguísticas e estudos sobre variação e identidade. Ao longo de sua carreira, tem investigado línguas minoritárias, práticas comunicativas em contextos periféricos e os impactos sociais da ausência de políticas públicas consistentes.
A parceria entre os dois autores se consolidou a partir de interesses acadêmicos e éticos em comum: dar visibilidade às experiências linguísticas dos surdos fora dos grandes centros urbanos.
Para o desenvolvimento do livro, Santos foi o principal responsável pela observação de campo, coleta de dados e contato direto com os sujeitos surdos em diversos municípios do interior tocantinense. Já Rubio contribuiu com a sistematização da análise teórica, elaboração crítica dos capítulos e estruturação do texto dentro dos marcos da sociolinguística e dos estudos surdos contemporâneos.




