Quando recebi o diagnóstico de esteatose hepática, a popular “gordura no fígado”, confesso que o susto foi grande. A reação é perfeitamente compreensível e reflete o sentimento da maioria: uma pesquisa recente do Instituto DataFolha revelou que mais de 60% dos brasileiros ficariam extremamente preocupados ao descobrir a condição. O grande problema, no entanto, é que esse mesmo grupo de pessoas sequer sabe se possui a doença.

Assim como aconteceu comigo, a gordura no fígado costuma ser uma condição silenciosa, descoberta quase por acaso em exames de rotina. Mas o que parece ser apenas um achado de ultrassom acende um alerta vermelho para a saúde pública global.

De acordo com os dados epidemiológicos mais recentes, a incidência global da doença cresceu mais de 50% nas últimas três décadas, saltando de 25,26% nos anos 1990 para 38% atualmente. Na América Latina, o cenário é ainda mais alarmante, afetando 44% da população adulta.

Por aqui, estimativas mais conservadoras dão conta de que um em cada três brasileiros e brasileiras têm essa condição que, se não devidamente diagnosticada e tratada, pode levar a danos graves ao fígado, como hepatite, fibrose, cirrose e câncer.

Por isso, neste Dia Mundial da Esteatose Hepática (MASH Day), celebrado hoje, 11 de junho, a conscientização ganha um peso ainda mais urgente.

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A mudança de nome e o foco no metabolismo

A comunidade científica internacional atualizou a nomenclatura da doença para MASLD (sigla em inglês para Doença Hepática Gordurosa Associada à Disfunção Metabólica). A mudança do antigo termo (“esteatose hepática não alcoólica“) não é mera formalidade: ela busca destacar que a raiz do problema está diretamente ligada a disfunções metabólicas.

O avanço da doença acompanha as mudanças drásticas no estilo de vida moderno. Dietas hipercalóricas, o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas, combinados ao sedentarismo, formaram a tempestade perfeita.

O aumento da obesidade, do diabetes tipo 2 e do sedentarismo está causando uma epidemia da doença”, aponta o hepatologista Edison Parise, coordenador do Departamento de Diabetes e Fígado da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).

Existe uma relação de via dupla entre o fígado gorduroso e o diabetes tipo 2. Quando o organismo desenvolve resistência à insulina, o pâncreas passa a produzir mais hormônio para controlar a glicose, desequilíbrio que favorece o depósito de gordura no fígado.

Por outro lado, o acúmulo de gordura hepática piora a resistência à insulina, gerando um círculo vicioso que eleva drasticamente o risco de infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs).

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Alerta na infância: o perigo começa mais cedo

O que antes era considerado uma patologia restrita ao universo adulto agora preocupa pediatras no mundo todo. O crescimento da obesidade infantil e do sedentarismo levou a doença para as faixas etárias mais jovens.

Uma revisão científica publicada na Revista Europeia de Pediatria analisou cerca de 4 mil jovens com diabetes tipo 2 e concluiu que 37% deles já apresentavam esteatose hepática.

Outro estudo internacional divulgado na BMC Gastroenterology reforça a tendência de crescimento entre crianças e adolescentes com sobrepeso. O grande perigo é que a inflamação iniciada na infância pode evoluir de forma acelerada na vida adulta.

Sem o devido cuidado e intervenção precoce, a gordura nas células hepáticas pode desencadear:

  • Esteato-hepatite: Inflamação ativa do órgão;

  • Fibrose hepática: Formação de cicatrizes no tecido;

  • Cirrose e câncer de fígado: Estágios avançados e irreversíveis.

De acordo com o cirurgião gástrico Adolfo Cezar Rodrigues Chang, do Hospital Evangélico de Sorocaba (HES), a negligência no tratamento é perigosa. “Nos Estados Unidos, essa já é a principal causa de transplante hepático e o Brasil segue a mesma tendência”, alerta o especialista.

Diagnóstico e as novas perspectivas de tratamento

Como a doença não apresenta sintomas em suas fases iniciais, o diagnóstico depende de exames laboratoriais de rotina que avaliam a função hepática (como as enzimas transaminases, bilirrubinas, fosfatase alcalina e gama GT) associados à ultrassonografia de abdome superior.

No campo terapêutico, embora não exista um remédio exclusivo e milagroso para a esteatose, a medicina tem avançado. Estudos apontam que medicamentos modernos utilizados para tratar a obesidade e o diabetes, como a semaglutida, trazem resultados promissores na redução da gordura e da inflamação do fígado. Cientistas também desenvolvem métodos menos invasivos de diagnóstico utilizando inteligência artificial e exames de sangue refinados.

A relação entre a gordura no fígado e a Saúde Única

Diante de um desafio de saúde tão complexo, fica evidente a relevância do conceito de One Health (Saúde Única), que sempre guia a linha editorial de Vida e Ação A explosão dos casos de MASLD não pode ser desvinculada do ambiente em que vivemos.

O desenho das cidades modernas — que muitas vezes desestimula a mobilidade ativa —, a facilidade de acesso a alimentos ultraprocessados de baixo valor nutricional em detrimento de alimentos frescos e o estresse do cotidiano urbano mostram como a saúde humana está intrinsecamente conectada às condições ambientais e sociais do nosso planeta.

Cuidar do fígado vai muito além do indivíduo; exige repensar a nossa relação coletiva com a alimentação e o bem-estar. A principal estratégia de reversão e prevenção continua sendo a mudança profunda no estilo de vida: adoção de uma dieta equilibrada rica em vegetais, prática regular de exercícios e controle rigoroso de fatores metabólicos. Descobrir a condição cedo, como aconteceu comigo, é a chance real de reescrever o destino da própria saúde.

Com Assessorias

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