Você sabia que três em cada 10 pessoas em todo o mundo têm gordura no fígado? Pois é. O que parece ser apenas um detalhe em um exame de rotina é, na verdade, uma das maiores ameaças silenciosas à saúde pública na atualidade. Por isso, o Dia Mundial do Fígado (19 de abril) traz um alerta urgente sobre um órgão que muitas vezes só lembramos quando ele reclama.
Aqui no VIDA E AÇÃO não podíamos deixar passar essa data em branco. Ainda mais numa semana com dois feriados no Rio de Janeiro – um deles, dedicado a São Jorge (23 de abril), que é sempre acompanhado por rodas de samba regadas a uma boa feijoada com aquela cervejinha ou caipirinha, não é mesmo?
O quadro VIDA E AÇÃO desta segunda-feira (20/4) na Rádio Roquette Pinto (94 FM) é dedicado inteiramente a este órgão fundamental, que realiza mais de 500 funções essenciais para nos manter vivos — desde a filtragem de toxinas e a produção de proteínas até o processamento de tudo o que ingerimos até e o armazenamento de energia.
A importância de cuidar da nossa “central química”

Apesar de sua importância vital, o fígado é frequentemente negligenciado. Por isso, o Dia Mundial do Fígado é uma oportunidade valiosa de conscientização, especialmente considerando que ele é a “central química” do nosso corpo.
A conscientização ganha força quando figuras públicas compartilham suas histórias. Os cantores Zezé di Camargo e João Gomes, o humorista Whindersson Nunes e a influenciadora Jojo Todynho já falaram abertamente sobre a luta contra a gordura no fígado e a mudança de hábitos.

Eu mesmo também já recebi esse diagnóstico recentemente e venho procurando me cuidar, mas sabemos que não é fácil, ainda mais se considerarmos que esta é uma doença silenciosa, que não dá sinais, mas avança ao longo dos anos”, afirma a jornalista Rosayne Macedo, editora do VIDA E AÇÃO.
Entenda a Doença Hepática Esteatótica Metabólica
A saúde do fígado entra em alerta global. Considerada uma das principais ameaças silenciosas da atualidade, a popular “gordura no fígado” – que passou a ser conhecida tecnicamente como Doença Hepática Esteatótica Metabólica (MASLD) – já atinge cerca de 30% da população mundial, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Associação Europeia para o Estudo do Fígado.
No Brasil, o cenário também preocupa. Aproximadamente 35% da população adulta sofre de esteatose hepática, com prevalência ainda maior entre pessoas com obesidade, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica.
Engana-se quem pensa que esse é um problema só de adultos. Crianças também entram nessa conta. Dados de estudos epidemiológicos indicam que a prevalência de doença hepática gordurosa não alcoólica (NAFLD) na população pediátrica geral varia entre 3% e 10%, mas pode chegar a cerca de 50% entre crianças com obesidade. Por isso, o alerta para a saúde metabólica deve começar desde cedo.
Um levantamento do Instituto Datafolha em parceria com a Novo Nordisk mostrou que 62% dos brasileiros estão preocupados com a gordura no fígado, mas 61% nunca fizeram exames ou não sabem como identificar a condição. Apenas 7% receberam diagnóstico formal. O dado reforça o caráter silencioso da doença, que pode evoluir sem sintomas para quadros graves como fibrose, cirrose e até câncer hepático.
É uma condição que muitas vezes não dá sinais no início, mas que pode ter consequências sérias ao longo do tempo. O mais preocupante é que ela está diretamente ligada ao nosso estilo de vida, principalmente à alimentação e ao sedentarismo”, explica a médica hepatologista Patrícia Almeida, membro da Sociedade Brasileira de Hepatologia e doutora pela USP.
A esteatose hepática, quando não acompanhada, pode progredir para quadros inflamatórios mais avançados, aumentando o risco de fibrose, cirrose e até câncer hepático. Segundo pesquisa desenvolvida pela Faculdade de Medicina (FMUSP), entre os pacientes com esteatose hepática simples no Brasil, de 12% a 40% desenvolverão a forma mais avançada da doença, com fibrose, após oito a 13 anos. Desses, aproximadamente 15% evoluirão para cirrose.
O grande risco da esteatose hepática, o nome técnico da gordura no fígado, é que ela não costuma doer. No início, você não sente nada. Mas, sem cuidado, essa gordura pode causar uma inflamação contínua, levando à fibrose, cirrose e até ao câncer de fígado. Muitas vezes, a descoberta vem tarde demais. E não se engane: não é apenas o consumo de álcool que agride o fígado”, ressalta Rosayne Macedo.
O fígado sente o que está no prato
Responsável por mais de 500 funções no organismo, o fígado atua no metabolismo, na desintoxicação e na produção de proteínas essenciais. Ainda assim, costuma ser negligenciado até que surgem alterações. Neste ano, o Dia Mundial do Fígado traz o tema “Alimento é Remédio”, destacando o impacto direto da alimentação na prevenção e no tratamento das doenças hepáticas.
Cada escolha alimentar tem impacto direto no fígado. Dietas ricas em ultraprocessados, açúcar e gordura saturada favorecem o acúmulo de gordura no órgão. Por outro lado, uma alimentação equilibrada pode não só prevenir como ajudar a reverter o quadro nos estágios iniciais”, reforça a especialista.
O fígado tem alta capacidade de regeneração. Estudos clínicos mostram que a redução de 5% a 10% do peso corporal já pode melhorar significativamente a função hepática, especialmente em pessoas com sobrepeso ou obesidade.
Entre os padrões alimentares mais indicados está a dieta mediterrânea, reconhecida por entidades como a Fundação Britânica do Fígado, que prioriza alimentos naturais, gorduras boas, peixes, vegetais e antioxidantes.
Quando falamos que alimento é remédio, estamos falando de ciência. A alimentação tem um papel terapêutico real. Não é só prevenção, é parte do tratamento”, destaca Dra. Patrícia.
Desinformação ainda é um obstáculo
Apesar da alta prevalência, a doença segue subdiagnosticada. O levantamento do Datafolha também aponta que:
- 66% dos brasileiros têm sobrepeso ou obesidade
- 55% consomem bebida alcoólica regularmente
- Apenas 44% procurariam um especialista diante de um diagnóstico
Para a hepatologista, o desconhecimento ainda é uma das principais barreiras. “Muitas pessoas só descobrem quando a doença já está avançada. Por isso, exames simples e acompanhamento médico são fundamentais, principalmente para quem tem fatores de risco como obesidade, diabetes ou consumo frequente de álcool.”
Gordura no fígado pode ser hereditária? Entenda o que a genética tem a ver com isso
Para cirurgião do aparelho digestivo, a resposta é sim. E saber disso muda bastante a forma de encarar o problema
Se alguém na sua família tem gordura no fígado, talvez você já tenha ouvido que “isso é de família” e essa afirmação tem mais fundamento do que parece. A esteatose hepática, nome técnico para o acúmulo de gordura no fígado, de fato tem um componente genético relevante.
A genética interfere nesse processo, mas isso não significa que você vai, necessariamente, desenvolver gordura no fígado. Ela carrega uma predisposição, não uma sentença”, explica Lucas Nacif, cirurgião do aparelho digestivo e membro do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD).
O fígado é um órgão extraordinário: processa tudo o que comemos, produz bile, metaboliza medicamentos, regula o açúcar no sangue e realiza centenas de funções essenciais por dia. Quando começa a acumular gordura em excesso, geralmente acima de 5% do seu peso total, ele entra numa situação chamada esteatose hepática não alcoólica (ou DHGNA, doença hepática gordurosa não alcoólica).
Os fatores ambientais e de estilo de vida ainda são os maiores determinantes do desfecho. Alimentação rica em ultraprocessados, excesso de açúcar (especialmente frutose), sedentarismo, sobrepeso, resistência à insulina e consumo de álcool são os combustíveis que ativam essa inclinação genética.
Genética ou estilo de vida?
Muita gente se pergunta: “Mas eu como bem e tenho gordura no fígado, por quê?”. A ciência explica que existe, sim, um componente genético. Alguns genes podem fazer com que uma pessoa acumule gordura mais facilmente que outra, mesmo com a mesma dieta. Mas a genética é apenas uma predisposição, não uma sentença.
O que realmente “liga” esse gatilho são os nossos hábitos: o sedentarismo, o sobrepeso e a resistência à insulina. A alimentação moderna, rica em ultraprocessados, excesso de açúcar (especialmente a frutose) e gorduras saturadas, é o principal combustível para esse acúmulo de gordura.
O principal personagem dessa história tem nome, é uma variante do gene PNPLA3, identificada nos últimos anos como um dos maiores fatores de risco genético para esteatose.
Quem herda a versão de maior risco desse gene tem uma capacidade reduzida de metabolizar gordura no fígado, o que significa que o órgão acumula mais lipídios mesmo diante de uma alimentação que não seria problema para outra pessoa”, destaca o Dr. Nacif.
Outro gene importante é o TM6SF2, com função parecida. Pessoas com certas variantes dele também tendem a acumular gordura hepática com mais facilidade e, pior, têm maior risco de progressão da doença para estágios mais avançados, como a esteato-hepatite e a fibrose.
Isso ajuda a explicar algo que muita gente estranha: por que duas pessoas com o mesmo peso, a mesma dieta e o mesmo estilo de vida podem ter resultados completamente diferentes no ultrassom do fígado. A resposta está, em parte, no DNA”, afirma o especialista.
Saber disso já é meio caminho
A primeira coisa é investigar. Se há histórico familiar de gordura no fígado, de diabetes tipo 2, de síndrome metabólica ou de doença cardiovascular prematura, esse contexto já justifica uma atenção maior com o fígado.
A avaliação básica começa com exames de sangue e um ultrassom abdominal. Nos casos com maior suspeita, pode ser necessário avançar para elastografia hepática, que estima o grau de fibrose sem necessidade de biópsia.
A boa notícia é que o fígado tem uma capacidade notável de reversão. Com mudanças consistentes de dieta e atividade física, é possível reduzir de forma significativa e às vezes reverter completamente a esteatose, mesmo em quem tem predisposição genética”, conclui o Dr. Lucas Nacif.
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Chocolate em excesso pode afetar a saúde do fígado?
Nem todo mundo associa o consumo de chocolate à saúde do fígado. Mas em períodos como a Páscoa, quando as prateleiras se enchem de ovos, bombons e versões cada vez mais ultraprocessadas do doce, o excesso se concentra em poucos dias e esse órgão silencioso acaba sendo diretamente impactado.
O fígado é o principal responsável por metabolizar tudo o que ingerimos. Quando há um consumo elevado de açúcar e gordura, como acontece com muitos chocolates industrializados, ele precisa trabalhar mais do que o habitual”, explica Lucas Nacif, cirurgião do aparelho digestivo e membro do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD).
No entanto, o especialista acrescenta que esse esforço, quando pontual, costuma ser bem tolerado. O problema começa quando o excesso se repete ou se intensifica. “O mecanismo é direto. O consumo de açúcar em grandes quantidades estimula a lipogênese hepática, ou seja, a produção de gordura dentro do próprio fígado. Já a gordura saturada piora a resistência à insulina e favorece inflamações hepáticas.” Com o tempo, esse cenário pode evoluir.
Entenda os sinais
Como a esteatose raramente causa sintomas no início, alguns sinais indiretos merecem atenção:
- Cansaço persistente e sensação de peso após as refeições
- Desconforto no lado direito do abdômen
- Exames de rotina com enzimas hepáticas alteradas (TGO e TGP elevadas)
- Gordura abdominal acumulada
Se a pessoa fica com aquele cansaço exagerado, barriga inchada, digestão pesada por dias, vale uma conversa com o médico e talvez um exame de imagem para ver como o fígado está”, finaliza o cirurgião Lucas Nacif.
Além da gordura, o alerta vale para hepatites, cirrose e a prevenção diária
A esteatose hepática não é a única ameaça. Além da gordura relacionada ao metabolismo, o fígado pode ser alvo de outras condições graves que exigem nossa atenção, como:
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Hepatites virais (A, B e C): Infecções que causam inflamação e podem permanecer silenciosas por décadas até causarem danos severos.
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Cirrose hepática: Quando o tecido saudável é substituído por cicatrizes. Pode ser causada pelo álcool, mas também pela gordura acumulada e por vírus.
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Hepatite medicamentosa: O perigo da automedicação. O uso excessivo de certos analgésicos e suplementos sobrecarrega o fígado e pode causar falência aguda.
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Câncer de fígado: Muitas vezes o estágio final de doenças crônicas que não foram diagnosticadas a tempo.
No campo das hepatites, o ator Stênio Garcia é um dos nomes que sempre reforça a importância do diagnóstico precoce e da vacinação. Esses exemplos mostram que ninguém está imune, mas todos podem se tratar.
Pequenas mudanças, grande impacto
A boa notícia é que o fígado é um órgão com uma capacidade de regeneração extraordinária. Embora fatores sociais e econômicos influenciem a alimentação, mudanças graduais já fazem diferença.Pequenas mudanças geram grandes resultados.
Reduzir o consumo de açúcar, evitar ultraprocessados, manter atividade física regulare buscar orientação profissional são medidas acessíveis que ajudam a proteger o fígado. O cuidado com o fígado não deve acontecer só em abril. Ele precisa ser diário. Quanto antes começamos, maiores são as chances de evitar complicações no futuro”, finaliza Dra. Patrícia Almeida.
Para garantir a saúde da sua “central química”, aqui estão as dicas fundamentais que devemos levar para o dia a dia
- Vacine-se: Existem vacinas eficazes para as hepatites A e B disponíveis no SUS.
- Cuidado com a automedicação: Nunca tome remédios ou “chás milagrosos” sem orientação médica; o fígado é quem processa tudo isso.
- Aposte na “dieta mediterrânea”: Azeite de oliva, castanhas, peixes e muitos vegetais são os melhores amigos do fígado.
- Atenção aos açúcares: Evite o excesso de doces e produtos industrializados que sobrecarregam o metabolismo hepático.
- Reduza o peso corporal: Perder entre 5% a 10% do peso corporal já pode melhorar significativamente a função do fígado.
- Evite o álcool em excesso: A moderação é a chave para evitar a inflamação química das células hepáticas.
- Faça o “check-up” anual: Peça ao seu médico exames de sangue (TGO, TGP e GGT) e um ultrassom de abdome.
Para quem tem histórico familiar de diabetes ou gordura no fígado, a atenção deve ser redobrada. Um simples ultrassom abdominal e exames de sangue para checar as enzimas hepáticas podem salvar vidas”, ressalta a especialista.
Lembre-se: o fígado trabalha silenciosamente em mais de 500 funções essenciais para nos manter vivos. Que tal retribuir esse esforço cuidando melhor do que você coloca no prato hoje? Cuidar do fígado é, antes de tudo, um ato de respeito à nossa própria vida. O fígado não reclama até que a situação esteja crítica. Não espere a dor chegar.
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Saiba mais sobre a MASLD, o famoso ‘fígado gorduroso’
A MASLD (Doença Hepática Esteatótica Metabólica) é o novo termo técnico para o que popularmente chamamos de esteatose hepática (fígado gorduroso) associada a disfunções metabólicas. Ela representa o acúmulo de gordura no fígado (esteatose) devido a fatores como obesidade e diabetes, substituindo a antiga nomenclatura “esteatose hepática não alcoólica“.
- O que é MASLD: É a forma mais comum de acúmulo de gordura no fígado, caracterizada pela presença de “esteatose hepática” (gordura >5%) somada a pelo menos um fator de risco metabólico, como diabetes tipo 2, hipertensão ou colesterol alto.
- Nova nomenclatura: A nomenclatura foi atualizada para focar na causa metabólica da doença, que é um alerta do corpo sobre o estilo de vida, conforme detalhado no site da AASLD.
- O que era antes: A MASLD era anteriormente chamada de Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica (DHGNA ou NAFLD).
- Evolução (MASH): Quando a gordura causa inflamação, o quadro evolui para a Esteato-hepatite Metabólica (MASH), antigamente conhecida como NASH.
Com informações de Assessorias

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