O falecimento da maquiadora Roseli Fernandes de Oliveira Romeiro Vieira, de 48 anos, trouxe novamente ao centro do debate os riscos severos associados ao uso do polimetilmetacrilato (PMMA). A profissional viajou do Mato Grosso do Sul para São Paulo com o objetivo de realizar um procedimento estético de aumento dos glúteos e morreu na última terça-feira (26), menos de 24 horas após a aplicação do material. O trágico caso mobilizou as principais entidades médicas do país e expôs o crescimento alarmante no número de complicações decorrentes de procedimentos realizados por profissionais não médicos.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) emitiu um posicionamento oficial lamentando profundamente o óbito e reafirmando sua postura historicamente contrária ao uso da substância para fins estéticos e cosmiátricos. A diretoria da SBD defende o endurecimento imediato do controle sanitário e regulatório do produto junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), destacando que as tentativas de restringir o uso do material a determinadas especialidades não anulam os perigos intrínsecos de um preenchedor definitivo em intervenções eletivas.
Substância de risco máximo e remoção mutilante
O PMMA é classificado como uma substância de classe IV (risco máximo) pela Anvisa, autorizada originalmente para finalidades muito específicas, tais como a correção de deformidades profundas decorrentes da poliomielite ou cicatrizes severas. Por ser um material plástico não absorvível pelo organismo humano, seu comportamento a longo prazo preocupa os especialistas.
O biomédico e especialista em estética Dr. Vitor Mello explica que o produto atua como um bioestimulador, o que faz com que o tecido fibroso do paciente envolva o material.
“Embora seja possível retirar a maior parte do material, a remoção total é inviável. A única forma de remoção é por meio de cirurgia, o que acarreta o risco de perda de tecido muscular. Caso o PMMA atinja os vasos sanguíneos, há o risco de embolia pulmonar”, adverte Dr. Vitor Mello.
O especialista ressalta que as reações crônicas podem demorar a se manifestar. Entre os principais riscos listados pelo setor estão:
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Formação de granulomas (nódulos rígidos de difícil tratamento);
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Processos inflamatórios crônicos e infecções bacterianas locais;
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Migração física do gel injetado para outras regiões do corpo;
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Necrose de tecidos por oclusão de vasos sanguíneos;
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Complicações sistêmicas potencialmente fatais, como embolia pulmonar.
O histórico de vítimas do produto inclui casos de grande repercussão pública. Em 2024, a influenciadora digital Aline Ferreira, de 33 anos, faleceu devido a complicações após aplicar o polímero. Figuras públicas como a ex-dançarina Sheila Mello e a ex-BBB Hariany Almeida também já relataram publicamente batalhas de saúde e disputas judiciais após sofrerem danos decorrentes do preenchimento definitivo.
Explosão de denúncias no Cremesp e invasão de competência
Os problemas com preenchedores definitivos têm sobrecarregado os órgãos de fiscalização. Dados divulgados pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) apontam que o número de denúncias relacionadas a complicações em procedimentos estéticos saltou de 248 registros em 2024 para 472 casos em 2025. A grande maioria dessas ocorrências envolve aplicações para modelagem corporal e preenchimentos faciais executados por profissionais não médicos — como dentistas, biomédicos e fisioterapeutas.
Para o cirurgião plástico Dr. Fernando Amato, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) e da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos (ASPS), o uso de substâncias estranhas ao corpo facilita a formação de biofilmes bacterianos e inflamações crônicas difíceis de combater. Ele enfatiza que a segurança do paciente depende de uma triagem rigorosa e de suporte contínuo no pós-operatório.
Entendo que o ideal são, pelo menos, três consultas antes da cirurgia: a primeira para que o médico e o paciente se conheçam, alinhem a proposta cirúrgica e solicitem exames; a segunda para revisão detalhada do planejamento; e a terceira para esclarecer dúvidas”, detalha Dr. Fernando Amato.
O cirurgião aponta que complicações podem acontecer mesmo em atos técnicos bem executados, tornando fundamental a presença de uma estrutura assistencial médica completa no pós-operatório imediato para gerenciar intercorrências antes que evoluam para quadros irreversíveis.
Com o avanço das discussões e o aumento na contagem de vítimas, as entidades médicas reforçam o apelo à Anvisa para que adote medidas rigorosas de restrição de mercado e de fiscalização sobre a venda e distribuição do polímero.
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