Os nódulos na tireoide são uma condição muito mais comum do que a maioria das pessoas imagina. Essas pequenas formações que surgem na glândula localizada na parte anterior do pescoço podem afetar uma parcela significativa da população — muitas vezes sem causar qualquer sintoma ou alteração perceptível.
Estima-se que até 50% dos brasileiros possam apresentar algum tipo de nódulo na tireoide ao longo da vida, especialmente com o avanço da idade. O público feminino é o mais afetado, representando cerca de 86,31% dos casos diagnosticados, com maior incidência a partir dos 40 anos.
A palavra “nódulo” pode assustar, mas a grande maioria dessas formações é benigna. Embora metade da população apresente nódulos na glândula ao longo da vida, apenas cerca de 5% dos casos são malignos. Entretanto, a incidência de nódulos e tumores exige atenção.
Segundo dados epidemiológicos do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 16.450 novos casos de câncer de tireoide. O recorte de gênero se repete de forma acentuada: desse total, 13.310 diagnósticos estimados são em mulheres e 3.140 em homens.
Apesar dos números expressivos, os especialistas tranquilizam os pacientes. A maior parte dos tumores é descoberta em estágio inicial, quando as pessoas ainda não manifestam sintomas. O avanço tecnológico na área de imagem tem papel central nessa realidade.
Essa alta prevalência reforça a importância do acompanhamento médico e da realização de exames preventivos. A ultrassonografia da tireoide é um exame simples e fundamental para identificar a presença de nódulos e avaliar suas características”, explica o cirurgião geral Ernesto Alarcon, especialista em videolaparoscopia.
Um recente levantamento da FIDI apontou que a detecção de nódulos suspeitos classificados pela escala TI-RADS (sistema de padronização de laudos de ultrassonografia da tireoide) saltou de 5 mil casos para 13 mil.
Para o radiologista Harley De Nicola, especialista em tireoide da FIDI, esse crescimento reflete o refinamento dos critérios de análise por imagem e a maior capacidade de identificar lesões com potencial de malignidade.
Hoje faz-se muito mais diagnósticos devido à realização do ultrassom, identificando tumores pequenos e de baixo risco que antes provavelmente nunca seriam descobertos. A maioria dos cânceres de tireoide possui um excelente prognóstico”, pontua o Dr. Harley De Nicola.
De acordo com o hipotireoidismo primário — redução da atividade da glândula comumente causada por processos autoimunes, como a tireoidite de Hashimoto — é a condição mais encontrada na prática clínica.
O hipotireoidismo é mais comum porque existe uma predisposição biológica. Quando ocorre uma alteração, é mais provável que a glândula vá perdendo a sua função aos poucos do que passe a produzir hormônios em excesso”, explica o médico.
Quando os nódulos dão sinais e os riscos cardiovasculares
Os nódulos podem ser sólidos ou preenchidos por líquido (chamados de císticos) e variar de poucos milímetros a vários centímetros e costumam ser achados casuais durante check-ups realizados regularmente.
Apesar de majoritariamente silenciosos, alguns nódulos crescem a ponto de gerar sinais físicos ou interferir na produção de hormônios.
Ignorar os sintomas gerais das disfunções tireoidianas — como fadiga crônica, queda de cabelo e alterações de peso — sob a justificativa de ser “apenas estresse” pode trazer riscos a longo prazo.
Os principais sintomas que merecem atenção clínica são:
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Presença de caroço ou aumento visível de volume no pescoço.
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Rouquidão persistente sem motivo gripal.
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Dificuldade para engolir alimentos ou sensação de pressão na garganta.
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Surgimento de disfunções hormonais associadas, como o hipotireoidismo ou o hipertireoidismo.
Do ponto de vista fisiopatológico, os distúrbios da glândula impactam diretamente o sistema cardiovascular e a saúde óssea, como esclarece oendocrinologista Adriano Cury, do Alta Diagnósticos.
O hipotireoidismo associa-se à lentificação metabólica, alterações do perfil lipídico e maior risco de eventos cardiovasculares. Já o hipertireoidismo, frequentemente relacionado à doença de Graves, cursa com hipermetabolismo e aumento da demanda cardiovascular, estando ligado à fibrilação atrial, piora da insuficiência cardíaca e perda de massa óssea, com aumento do risco de fraturas, especialmente em mulheres na pós-menopausa”, esclarece o especialista.
Tecnologia e Inteligência Artificial no combate ao sobrediagnóstico
Dados do Global Cancer Observatory e estimativas recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam que o câncer de tireoide está entre as neoplasias endócrinas mais frequentes. O tipo mais comum é o carcinoma papilífero.
No entanto, os médicos explicam que o aumento na curva de incidência nos últimos anos se deve, em grande parte, à evolução dos aparelhos de imagem, que conseguem flagrar microcarcinomas milimétricos e assintomáticos.
Essa capacidade diagnóstica refinada tem alimentado debates na comunidade médica sobre o sobrediagnóstico e o sobretratamento de lesões que nunca evoluiriam para um quadro grave.
Para garantir assertividade, a avaliação médica atual integra o exame físico cuidadoso a exames de sangue iniciais, como a dosagem do TSH (Hormônio Estimulador da Tireoide). Quando um nódulo é encontrado na ultrassonografia, os médicos utilizam sistemas padronizados de classificação de risco, como o TI-RADS (acrônimo para Thyroid Imaging Reporting and Data System).
Se o nódulo apresentar características suspeitas na imagem, indica-se a PAAF (Punção Aspirativa por Agulha Fina) para coletar células para análise laboratorial. Uma das grandes novidades tecnológicas do setor é a incorporação de ferramentas de Inteligência Artificial aplicadas aos softwares de ultrassonografia, que servem como recursos complementares para ajudar o médico a mapear o potencial de malignidade de forma ainda mais precisa.
Técnica usa calor para reduzir ou eliminar nódulos na tireoide
Conferência internacional discute alternativas minimamente invasivas à cirurgia de retirada da tireoide
O tratamento depende do tamanho e do impacto do nódulo, variando desde o acompanhamento periódico com ultrassom até procedimentos cirúrgicos ou terapias de ablação em casos de malignidade confirmada ou nódulos volumosos que causam compressão na garganta.
Procedimentos minimamente invasivos guiados por imagem, com destaque para a termoablação (técnica que utiliza o calor para reduzir ou eliminar nódulos benignos e tumores selecionados), vêm ganhando destaque no tratamento das doenças da tireoide. Em casos específicos, essas técnicas eliminam a necessidade de cirurgia convencional, evitam cortes na pele e preservam o tecido saudável da glândula.
Hoje, a discussão sobre tireoide é muito mais sofisticada do que simplesmente indicar ou não uma cirurgia. Não se trata de substituir a cirurgia de forma indiscriminada, mas de entender melhor quais pacientes podem se beneficiar de abordagens menos invasivas e em quais situações a tireoidectomia (remoção cirúrgica da glândula) continua sendo a melhor escolha”, afirma Antonio Rahal, radiologista intervencionista.
O especialista destaca que o Brasil é hoje uma das principais referências globais em ablação de nódulos tireoidianos. Para ele, a abordagem médica atual exige uma avaliação criteriosa e personalizada antes de qualquer decisão terapêutica.
Avanços científicos e novas diretrizes para o manejo dessas condições foram o centro das atenções no início deste mês em São Paulo em um evento multidisciplinar que reuniu radiologistas intervencionistas, cirurgiões de cabeça e pescoço e endocrinologistas. A 1ª Conferência Internacional de Intervenções na Tireoide integrou a programação da 56ª Jornada Paulista de Radiologia, realizada em parceria com a Radiological Society of North America (RSNA).
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Cinco cuidados fundamentais para a saúde da tireoide
Com base nas recomendações dos especialistas, o cuidado com a glândula deve fazer parte da rotina de saúde:
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Observe os sinais do corpo: Mudanças persistentes e combinadas no peso, nos níveis de energia, no humor ou na qualidade do sono não devem ser negligenciadas.
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Faça exames regulares: Pessoas com histórico familiar de doenças da tireoide, nódulos ou histórico de doenças autoimunes devem manter a glândula sob monitoramento médico periódico.
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Evite terminantemente a automedicação: O uso inadequado de hormônios sintéticos ou fórmulas emagrecedoras manipuladas sem indicação médica pode desregular gravemente o sistema endócrino.
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Adote hábitos protetores: Uma alimentação equilibrada e o manejo do estresse reduzem a liberação excessiva de cortisol, hormônio que interfere na síntese dos hormônios tireoidianos.
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Busque avaliação especializada: Diante de qualquer nódulo palpável ou suspeita clínica, o acompanhamento deve ser conduzido por um endocrinologista para evitar complicações e garantir decisões compartilhadas.




