A confirmação de que o fisiculturista e influenciador digital Gabriel Ganley, de 22 anos, sofria de cardiomiopatia hipertrófica trouxe para o centro do debate público uma constatação grave: a busca obsessiva por resultados estéticos imediatos e de alta performance nas academias brasileiras está provocando uma grave crise de saúde pública que impacta diretamente as alas de alta complexidade dos hospitais.
Dados recentes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acendem um sinal vermelho para as autoridades médicas: o consumo de testosterona no país registrou um crescimento vertiginoso de 670% nos últimos cinco anos. O reflexo desse fenômeno nos consultórios é o surgimento cada vez mais frequente de infartos, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e arritmias fatais em pacientes com pouco mais de 20 anos — patologias que historicamente acometiam indivíduos em idades avançadas.
Especialistas da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e de grandes centros hospitalares explicam que o abuso de Esteroides Anabolizantes e Similares (EAS) induz o miocárdio (o músculo do coração) a crescer acima do normal de forma doentia. Esse crescimento desordenado desestrutura as fibras cardíacas, tornando o órgão incapaz de relaxar e bombear o sangue com eficiência para o restante do corpo.
Diante da repercussão do caso de Ganley, o Instituto Nacional de Cardiologia (INC), órgão de referência do Ministério da Saúde, para tratamentos cardiovasculares complexos, emitiu um alerta severo sobre o perigo do uso indiscriminado de Esteroides Anabolizantes e Similares (EAS).
Fora do ambiente clínico, onde são indicados exclusivamente para tratar deficiências hormonais severas ou atrofias musculares extremas, os hormônios sintéticos não possuem doses seguras de consumo.
A diretora do INC, a cardiologista Aurora Issa, enfatiza que o uso estético e recreativo, terminantemente proibido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), coloca a vida do usuário em risco imediato por desestruturar toda a fisiologia circulatória.
O uso indiscriminado de anabolizantes coloca os usuários em risco cardiovascular tanto pela possibilidade de desenvolvimento de doenças como insuficiência cardíaca, hipertensão arterial e arritmias, como pelo agravamento de doenças preexistentes, que em alguns casos podem nem ter sido diagnosticadas”, adverte a Dra. Aurora Issa.
Do consultório à fila de transplante: o caso real do INC
A percepção de imunidade biológica compartilhada por muitos jovens praticantes de musculação é desfeita pela dura realidade dos prontos-socorros. O INC relata que a destruição das fibras do coração provocada pelas substâncias químicas pode alcançar estágios irreversíveis.
Em 2025, o instituto atendeu um paciente de apenas 36 anos de idade que, mesmo sem possuir qualquer histórico de doença cardíaca prévia ou predisposição familiar, teve seu miocárdio tão severamente danificado pelo abuso de anabolizantes que sua única chance de sobrevivência foi passar por um transplante cardíaco.
Os mecanismos que levam a esse colapso envolvem múltiplos fatores obstrutivos e estruturais:
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Aterosclerose precoce: Os esteroides provocam um aumento expressivo nos níveis de colesterol LDL (ruim), favorecendo o acúmulo acelerado de placas de gordura nas paredes das artérias.
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Espessamento do sangue: Há um aumento na viscosidade sanguínea — o sangue torna-se mais “grosso” e propenso à formação de coágulos internos, os trombos, que obstruem a passagem do fluxo e causam infartos ou AVCs.
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Lesões vasculares: A pressão arterial é empurrada para níveis perigosamente elevados, agredindo diretamente as paredes dos vasos sanguíneos e gerando sobrecarga mecânica contínua.
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O gatilho para a genética oculta
A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença de fundo genético e hereditário que afeta cerca de uma a cada 500 pessoas em todo o mundo. Muitas vezes, ela passa desapercebida durante a infância e começa a se manifestar clinicamente na segunda ou terceira década de vida, coincidindo com a idade em que os jovens intensificam os treinos de alta performance.
Marcely Bonatto, diretora da SBC e especialista em insuficiência cardíaca e transplantes, esclarece que, no caso de Gabriel Ganley, o uso de anabolizantes funcionou como um potente acelerador de uma condição que o jovem possivelmente já carregava em seu DNA.
Se for considerar só o laudo da declaração de óbito, a gente poderia pensar que ele tem cardiomiopatia hipertrófica e tinha essa predisposição. Talvez já tivesse alterações e o anabolizante foi só um fator agravante, desencadeante da consequência. Mas não a causa absoluta”, esclarece a médica da SBC.
Para determinar se a hipertrofia cardíaca foi construída exclusivamente pelas drogas, seria necessário confrontar o histórico do atleta com exames estruturais anteriores. O cardiologista Hugo Pazianotto, do Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP), reforça a importância dessa distinção clínica.
A doença é caracterizada pelo espessamento do músculo do coração, o que pode comprometer o bombeamento de sangue e aumentar o risco de arritmias e morte súbita, especialmente em jovens e praticantes de atividade física intensa. Fatores como predisposição genética e o uso de anabolizantes podem agravar o quadro”, diz o Dr. Hugo Pazianotto.
Dos consultórios para a fila de transplante
As consequências do uso indiscriminado de hormônios androgênicos por motivos puramente estéticos e sem acompanhamento médico — prática terminantemente proibida no Brasil pelas autoridades de saúde — têm mudado o perfil dos pacientes em alas de alta complexidade nos hospitais. A reposição clínica dessas substâncias possui indicação restrita a homens com hipogonadismo (deficiência real e comprovada de testosterona).
Na prática diária, contudo, a realidade que chega aos consultórios de cardiologia é alarmante. A Dra. Marcely Bonatto revela que recebe, semanalmente, pacientes jovens que destruíram a própria função cardíaca devido ao uso de testosterona recreativa.
A gente já teve pacientes com perda importantíssima de função do coração, que foram referenciados para transplante cardíaco porque eram pessoas jovens, de 30 a 40 anos, e usavam anabolizantes sem nenhuma indicação”, relata a diretora da SBC.
O gatilho hormonal para a cardiomiopatia silenciosa
O acelerador químico do músculo esquelético age com o mesmo vigor sobre o músculo cardíaco. Ricardo Ferreira da Silva, do Centro Cardiológico, adverte que o tecido do coração possui receptores que absorvem o estímulo esteroidal, provocando um crescimento completamente desordenado das paredes internas do órgão.
Para quem já possui uma predisposição genética à hipertrofia do miocárdio, o uso dessas substâncias funciona como um acelerador da doença. O coração, que já tinha tendência a ser espesso, cresce de forma desordenada, o que eleva drasticamente o risco de arritmias malignas e paradas cardíacas”, pontua o cardiologista.
A prevenção que salva vidas antes do limite
Anabolizantes criam efeito espelho no coração, que cresce de forma doentia e silenciosa. A combinação entre o sangue mais denso, artérias inflamadas e um miocárdio rígido cria o cenário perfeito para episódios de morte súbita, que frequentemente ocorrem no ápice do esforço físico — momento em que a demanda de oxigênio pelo coração atinge o limite máximo.
Para evitar que a busca pelo desenvolvimento estético resulte em tragédias irreversíveis, os cardiologistas são unânimes: nenhuma rotina de exercícios intensos de alta performance ou fisiculturismo deve ser iniciada sem uma triagem médica profunda.
Exames diagnósticos acessíveis e de rotina, como o ecocardiograma, conseguem identificar com precisão qualquer sinal de espessamento muscular anormal, permitindo a intervenção preventiva muito antes que o primeiro sintoma grave se manifeste. “A busca pela performance nunca deve atropelar os limites do próprio corpo“, conclui o Dr. Ricardo Ferreira.
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A hipertrofia estética exibida nos espelhos não é sinônimo de saúde cardiovascular. A série especial BOMBA LETAL do portal Vida e Ação mantém o compromisso de trazer dados científicos e alertas das principais autoridades de saúde do país para conscientizar sobre os perigos do uso de substâncias ilícitas.
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Com Assessorias




