A morte súbita do fisiculturista e influenciador digital Gabriel Ganley, de 22 anos, em São Paulo, trouxe à tona o perigo de uma condição cardíaca grave, hereditária e, na maioria das vezes, completamente silenciosa. O atestado de óbito do atleta confirmou que ele sofria de cardiomiopatia hipertrófica, uma doença caracterizada pelo espessamento anormal do músculo do coração, principalmente no ventrículo esquerdo. Esse crescimento desordenado torna o órgão rígido, comprometendo o bombeamento de sangue e funcionando como um terreno fértil para arritmias fatais, especialmente em jovens e praticantes de atividades físicas de alta intensidade.
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), estima-se que a doença afete até meio milhão de brasileiros, embora a imensa maioria desconheça o diagnóstico. O esforço físico extremo atua como um gatilho mecânico e elétrico sobre o miocárdio já deformado. O cardiologista Hugo Pazianotto, do Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP), alerta para a necessidade urgente de avaliações médicas regulares antes de submeter o corpo a treinos intensos:
Fatores como predisposição genética e o uso de anabolizantes podem agravar o quadro. Em muitos casos, a condição não apresenta sintomas evidentes, o que reforça a importância da avaliação médica regular e de exames cardiológicos, principalmente antes da prática esportiva”, adverte o especialista.
Diagnóstico precoce ganhou novos protocolos e tecnologia ‘com strain’
Para tentar frear o avanço de eventos fatais entre a população jovem, a SBC lançou em 2025 a primeira diretriz brasileira específica sobre a cardiomiopatia hipertrófica. O documento, que reuniu mais de 70 especialistas, estabelece critérios atualizados para o rastreamento familiar, avaliação de risco e tratamentos.
Como a origem da doença é estritamente genética — e cada filho de um portador tem 50% de chance de herdar a mutação —, a nova diretriz recomenda que parentes de primeiro grau façam exames clínicos e de imagem ativamente, mesmo que nunca tenham apresentado sintomas.
O diagnóstico geralmente começa pelo ecocardiograma, capaz de identificar o espessamento do músculo cardíaco. Em alguns casos, a ressonância magnética oferece avaliação mais detalhada.
Estamos falando de uma condição que pode ser identificada com um simples ecocardiograma. Quanto antes o diagnóstico, maior a chance de evitar uma tragédia”, alerta o cardiologista Sérgio Câmara, que atua nos hospitais da Rede D’Or, da Bahia e Português, em Salvador.
Silenciosa, hereditária e potencialmente fatal, a cardiomiopatia hipertrófica (CH) provoca o espessamento anormal do músculo do coração, principalmente no ventrículo esquerdo, e está entre as principais causas de morte súbita em jovens atletas e adultos em plena atividade física. Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), a doença pode atingir até meio milhão de brasileiros, mas o diagnóstico precoce ainda é um desafio.
Doença hereditária, muitas vezes sem sintomas, a cardiomiopatia hipertrófica é uma das principais causas de morte súbita em jovens atletas. O esforço físico intenso pode desencadear arritmias fatais em quem desconhece o diagnóstico. Sintomas como desmaios, dores no peito ou palpitações durante a prática esportiva devem ser investigados, principalmente em pessoas com histórico familiar de doenças cardíacas.
A origem é genética e cada filho de um portador tem 50% de chance de herdar a condição. Por isso, a diretriz brasileira recomenda o rastreamento ativo de familiares de primeiro grau, com exames clínicos, ecocardiograma e, em alguns casos, testes genéticos, mesmo na ausência de sintomas. “É uma medida simples que pode salvar vidas”, enfatiza Câmara.
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Sinais que passam despercebidos na rotina
Embora a ausência de sintomas seja a regra, o organismo costuma emitir pequenos sinais de alerta durante ou logo após a prática esportiva. O grande perigo, segundo médicos, é que esses indícios costumam ser negligenciados e erroneamente atribuídos ao cansaço rotineiro, ao estresse ou ao destreino. O cardiologista Sérgio Câmara enfatiza a urgência de valorizar as queixas dos pacientes:
O grande perigo é que, na maioria das vezes, a doença não dá sinais claros. É comum o paciente relatar perda de fôlego ou uma palpitação diferente, sem imaginar que pode ser algo mais grave. Muitos só descobrem após um desmaio ou, infelizmente, depois de uma morte súbita durante exercícios. Estamos falando de uma condição que pode ser identificada com um simples ecocardiograma. Quanto antes o diagnóstico, maior a chance de evitar uma tragédia”, alerta.
Os principais sintomas que exigem investigação imediata incluem:
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Falta de ar ou fadiga desproporcional ao esforço realizado;
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Palpitações ou sensação de batimentos cardíacos descompassados;
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Tonturas, vertigens ou episódios de desmaio (síncope) durante o treino;
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Dores ou aperto na região do peito.
Sinais de alerta e exames que salvam vidas
Os médicos ressaltam que as pessoas submetidas a treinos de alta intensidade, triatlo ou fisiculturismo não devem esperar o surgimento de sintomas para procurar ajuda. Uma rotina de exames básicos e acessíveis, como o eletrocardiograma (ECG) e o ecocardiograma, é perfeitamente capaz de diagnosticar precocemente o espessamento das paredes cardíacas.
Caso o organismo emita sinais, a investigação deve ser imediata. Os principais sintomas de alerta que exigem avaliação de um especialista são:
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Falta de ar intensa mesmo ao realizar esforços moderados;
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Dores ou sensação de aperto no peito durante ou após os treinos;
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Tonturas frequentes e episódios de desmaio;
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Histórico familiar de mortes súbitas ou precoces sem causa esclarecida.
Do desfibrilador de salvamento às terapias de alto custo
O tratamento da cardiomiopatia hipertrófica é desenhado sob medida para cada paciente, dividindo-se entre os casos obstrutivos (quando o músculo espessado bloqueia a saída de sangue do coração) e não obstrutivos. Nas situações mais brandas, o controle é feito com medicamentos betabloqueadores para estabilizar os batimentos.
Para quadros graves com obstrução significativa, a medicina dispõe da cirurgia de miomectomia ou de procedimentos hemodinâmicos menos invasivos, como a ablação septal alcoólica, que reduz a massa muscular excessiva por meio de um cateterismo.
Pacientes identificados com risco iminente de parada cardíaca recebem a indicação de implante de um Desfibrilador Cardíaco Implantável (CDI) — um dispositivo eletrônico posicionado sob a pele capaz de monitorar o ritmo cardíaco e disparar um choque elétrico instantâneo caso detecte uma arritmia letal.
No campo farmacológico, o mais recente avanço foi a aprovação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do medicamento mavacamten (Camzyos). Ele atua diretamente nas proteínas que causam a contração excessiva do músculo, reduzindo a obstrução sem a necessidade de intervenções físicas.
Representa um avanço importante, especialmente para quem não responde bem aos tratamentos tradicionais ou quer evitar procedimentos invasivos, mas o preço e a disponibilidade ainda são barreiras”, pondera o cardiologista Sérgio Câmara.
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Com assessorias




