Durante anos, as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) foram associadas principalmente aos jovens. Campanhas de prevenção, educação sexual nas escolas e o uso de preservativos consolidaram essa percepção. Mas a realidade atual começa a contrariar esse padrão e de forma preocupante.

Dados recentes mostram que as ISTs continuam em crescimento global, com milhões de novos casos todos os dias. O que chama a atenção dos especialistas, no entanto, é outro fenômeno: o aumento significativo de diagnósticos em adultos, muitos deles fora do perfil considerado “de risco”.

Segundo a mais recente Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), 60% dos brasileiros acima de 18 afirmam não usar preservativo em suas relações sexuais, aumentando os riscos de HIVSífilisgonorreia, Hepatite B, herpes genital e o HPV, além das hepatites virais.

Segundo o urologista Alexandre Sallum, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), esse movimento não é coincidência. “O que estamos vendo hoje é uma mudança de comportamento. Adultos, muitas vezes em relações estáveis ou após separações, voltam à vida sexual sem a mesma preocupação com prevenção que tinham na juventude”, explica.

A falsa sensação de segurança

Um dos principais fatores por trás desse aumento é a percepção equivocada de que o risco diminui com a idade. Diferentemente dos jovens, que cresceram expostos a campanhas intensas de prevenção, muitos adultos passaram anos em relacionamentos monogâmicos e, ao retomarem a vida sexual, simplesmente não incorporam o uso do preservativo como hábito.

Além disso, há uma associação comum entre ISTs e comportamentos considerados “de risco”, o que leva muitas pessoas a acreditarem que não estão expostas. “É um erro frequente. As infecções não escolhem perfil. Elas dependem de exposição, não de idade ou estilo de vida aparente”, reforça o médico.

Apps, relações casuais e novas dinâmicas sociais

Outro fator relevante é a transformação das relações afetivas e sexuais. O crescimento dos aplicativos de relacionamento facilitou conexões rápidas e ampliou as possibilidades de encontros, especialmente entre adultos que voltam à vida social após divórcios ou longos períodos em relações estáveis.

Esse cenário, combinado com menor uso de preservativos, cria um ambiente propício para a disseminação de ISTs como:

  • sífilis
  • gonorreia
  • clamídia
  • HPV
  • herpes genital

O problema da infecção silenciosa

Um dos aspectos mais preocupantes das ISTs é justamente a ausência de sintomas em muitos casos. Muitas dessas infecções podem ser assintomáticas, o que contribui para a transmissão silenciosa.

Homens e mulheres podem permanecer infectados por longos períodos sem perceber, transmitindo a infecção para parceiros e, em alguns casos, desenvolvendo complicações tardias.

No homem, algumas ISTs podem causar dor ao urinar, secreção uretral ou lesões. Mas em muitos casos, não há sinais evidentes. Por isso, o diagnóstico depende de investigação ativa”, explica o Dr. Sallum.

Sem tratamento adequado, essas infecções podem evoluir para problemas mais graves, como infertilidade, inflamações crônicas e aumento do risco de transmissão de outras doenças.

Por que os adultos estão mais vulneráveis?

Além da menor adesão ao preservativo, existem outros fatores que aumentam a vulnerabilidade nessa faixa etária:

  • menor frequência de exames preventivos
  • falta de acompanhamento médico regular
  • desconhecimento sobre ISTs atuais
  • maior confiança em parceiros recentes
  • ausência de diálogo sobre histórico sexual

Existe uma ideia de que a prevenção é algo da juventude. Mas, na prática, o risco acompanha a atividade sexual ao longo da vida.

Prevenção: simples, mas negligenciada

Apesar do avanço da medicina, a principal forma de prevenção continua sendo direta:

  • uso de preservativo em todas as relações
  • realização de exames periódicos
  • diálogo aberto entre parceiros
  • atenção a qualquer sintoma urinário ou genital

Além disso, vacinas como a do HPV representam um avanço importante na proteção contra determinados vírus.

O novo cenário da saúde sexual

O Dr. Alexandre Sallum Bull reforça que aumento das ISTs entre adultos revela uma mudança importante: o comportamento precisa acompanhar a evolução da vida sexual. Se antes o foco da prevenção estava nos jovens, hoje é necessário ampliar o olhar. A saúde sexual não tem faixa etária e a vulnerabilidade também não.

As ISTs não desapareceram. Pelo contrário, estão se adaptando a novos comportamentos e atingindo públicos que, muitas vezes, não se reconhecem em risco. Ignorar esse cenário é permitir que infecções silenciosas avancem sem controle. A informação continua sendo a principal ferramenta de prevenção em qualquer fase da vida”, afirma o especialista.

Aumento de ISTs em idosos chama atenção para cuidados íntimos

No Brasil, grupo de pessoas 60+ representa 3,7% dos testes positivos para HIV/Aids

O número de idosos diagnosticados com infecções sexualmente transmissíveis (IST) vem crescendo significativamente ao redor do mundo. Segundo uma pesquisa divulgada no 34º Congresso Europeu de Microbiologia Clínica e Doenças Infecciosas (ECCMID), em abril de 2024, em Barcelona, houve um aumento preocupante principalmente nos diagnósticos de sífilis e gonorreia.

O levantamento mostrou que nos Estados Unidos, os casos de infecções na faixa etária de 55 a 64 anos dobrou na última década. No Reino Unido, entre 2015 e 2019, os diagnósticos de sífilis e gonorreia em pessoas 45+ também duplicaram.  No Brasil, a situação não é muito diferente: os casos de HIV/Aids entre idosos também aumentaram de forma relevante.

De acordo com o boletim epidemiológico HIV/Aids, divulgado em dezembro de 2022, pelo Ministério da Saúde, 1.517 idosos haviam sido diagnosticados com HIV em 2021. Esse número é quatro vezes maior do que há 10 anos, e o grupo de pessoas 60+ representa 3,7% dos testes positivos para o vírus no país.

Prevenção não tem idade

Para os especialistas, os números reforçam a importância dos cuidados com a saúde sexual independente da idade.  A única maneira de prevenir a transmissão dessas doenças é utilizando preservativo interno ou externo em todas as relações.

Para a prevenção do HIV, há ainda a PREP (Profilaxia Pré-exposição) e a PEP (pós exposição), com a utilização de antirretrovirais, disponíveis gratuitamente no SUS.

Para rastrear alguns tipos de IST, como o HIV, a sífilis e as hepatites B e C, é recomendado que pessoas sexualmente ativas façam a testagem para essas doenças ao menos uma vez ao ano. Além disso, o exame citopatológico (preventivo de câncer de colo de útero) também pode detectar lesões por HPV em estágio inicial.

Em relação à clamídia e gonorreia, pessoas com alta exposição sexual podem realizar exames moleculares (PCR) de urina ou secreção vaginal para diagnóstico precoce.

Reconhecer os sintomas das ISTs é essencial para o diagnóstico precoce 

A depender da infecção, o paciente pode ter mais chances de sucesso no tratamento ou melhor qualidade de vida durante a recuperação caso a doença seja descoberta no estágio inicial. Conheça os sintomas mais frequentes de cada IST:

– Hepatites B e C – costumam causar inflamação hepática, o que provoca náuseas, olhos amarelados, febre e mal-estar. Porém, pode haver casos assintomáticos.

– HIV – a condição pode ser assintomática no início ou causar febre, gânglios aumentados e fadiga. Em casos avançados, é comum que ocorra emagrecimento sem motivo aparente, diarreia prolongada, candidíase oral (sapinho) e infecções recorrentes.

– Gonorreia e clamídia – o paciente pode observar a saída de secreção purulenta pelo pênis, pelo ânus ou pela vagina, além de sentir ardência e incômodo durante a relação sexual ou ao urinar.

– HPV – alguns subtipos podem causar verrugas genitais, enquanto outros levam a lesões pré-cancerígenas.

– Sífilis – pode se manifestar de várias maneiras, desde uma ferida na região genital até manchas avermelhadas pelo corpo e sintomas neurológicos, como dificuldade de raciocínio e perda de memória,

– Cancro mole e herpes genital – enquanto o cancro costuma causar ferida genital com saída de secreção, o herpes causa o surgimento de vesículas genitais dolorosa.

Com Assessorias

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