O que deveria ser um período de cuidado e acolhimento para uma paciente autoimune transformou-se em um cenário de desespero, denúncias e pânico. A jornalista Janaína Machado, de 61 anos, que convive com o diagnóstico de esclerose múltipla (EM) desde 2004, usou as redes sociais para relatar o drama que viveu durante 22 dias internada no Complexo Hospitalar de Niterói (CHN).

O motivo inicial da internação, ocorrida no dia 7 de maio, foi um quadro grave de dengue hemorrágica.  No entanto, o que se sucedeu nos dias seguintes foram complicações decorrentes de supostas falhas assistenciais que, segundo ela, colocaram sua vida em risco.

Janaína – que em 2019 compartilhou sua história de superação convivendo com a esclerose múltipla no portal Vida e Ação –  utilizou seu perfil no Facebook como um canal de socorro e registro público dos momentos de negligência que alega ter sofrido dentro da instituição de saúde de ponta. Ela recebeu alta nesta sexta-feira (29/5) – véspera do Dia Mundial da Esclerose Múltipla.

Do diagnóstico de dengue à UTI

Logo no início da internação, a jornalista manifestou a gravidade de seu estado clínico e o cansaço extremo provocado pela doença. Suas plaquetas haviam despencado para 35 mil (o valor de referência normal varia entre 150 mil e 450 mil), gerando o risco iminente de transferência para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) caso o organismo não reagisse.

O quadro se agravou drasticamente não apenas pela dengue, mas por intercorrências no ambiente hospitalar. Em postagens posteriores, a jornalista denunciou que um erro nos procedimentos de enfermagem e na condução médica resultou no desenvolvimento de uma trombose e de uma flebite (inflamação da parede de uma veia).

Devido à gravidade dessas novas condições e à contaminação por uma bactéria hospitalar, Janaína precisou passar cinco dias e meio na UTI e submeter-se a uma microcirurgia para a inserção de um cateter central de inserção periférica (PICC), um dispositivo introduzido em uma veia profunda para viabilizar a administração prolongada de antibióticos.

Falsos registros em prontuário e falta de assistência

No dia 23 de maio, a jornalista  usou as redes sociais para manifestar indignação ao flagrar e fotografar supostas irregularidades em seus registros de atendimento. De acordo com o relato, a equipe de enfermagem anotou no prontuário que ela havia recusado a aplicação de uma injeção de Clexane (medicamento essencial para o tratamento da trombose) e de Dipirona.

Dipirona eu recusei sim, porque estava enjoada com o antibiótico e com ânsias de vômito. Não estava com dor. Mas da trombose? Não me ofereceram. Como recusar se estou com um problema severo? Não estou maluca. Que perigo!” desabafou a paciente na internet.

Dois dias depois, no dia 25 de maio, ela relatou que o uso do anticoagulante fez com que o sangue afinasse excessivamente, provocando uma hemorragia no local do cateter PICC. Janaína relatou ter se sentido “largada” em um quarto de hospital de alta complexidade, sem que as trocas diárias e obrigatórias dos curativos da trombose e do acesso venoso fossem realizadas no tempo correto, apesar de seus chamados insistentes. “Cadê o médico vascular? Cadê a infectologista? Estou pedindo socorro”, apelou.

O sofrimento físico e o isolamento institucional culminaram em graves abalos psicológicos. 

Minha saúde mental está uma bagunça. Estou tendo fortes crises de ansiedade. Só hoje já tive cinco crises de forma brutal. Meu neurologista pediu para não mexer na minha medicação da esclerose. Porque queriam, mas eu briguei. Só que estou exausta. As crises de ansiedade estão incontroláveis. Estou moída”, registrou no Facebook.

A situação só começou a apresentar mudanças após a intervenção direta de sua ‘irmã de alma’, uma médica cirurgiã de tórax, radicada no Espírito Santo, que conseguiu contatar a alta direção do CHN.  No dia 26 de maio, a chefia de plantão do hospital compareceu ao quarto para encaminhar as queixas à diretoria, embora a paciente tenha destacado que os especialistas (vascular e infectologista) continuavam sem dar assistência direta e satisfatória às suas queixas de dores e náuseas causadas pela antibioticoterapia.

Posicionamento do hospital e desfecho em home care

Procurado pela reportagem do VIDA E AÇÃO no último dia 25, o Complexo Hospitalar de Niterói se manifestou por meio de nota oficial enviada no dia 27.

A paciente está sendo acolhida e acompanhada de perto por uma equipe multidisciplinar, com toda a assistência necessária e adequada ao seu quadro clínico”. E acrescentou que “o hospital reforça seu compromisso com a privacidade e a confidencialidade das informações médicas, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).”

Na sexta-feira (29), a instituição confirmou que Janaína Machado recebeu alta hospitalar e foi transferida para dar continuidade do tratamento em regime de home care (atendimento médico domiciliar), conforme o desejado pela paciente para a preservação de sua integridade física e mental.

Enquanto isso: CHN anuncia expansão em oncologia

Paralelamente às denúncias de falhas no atendimento básico de enfermaria e UTI enfrentadas pela jornalista, o CHN — que integra a Rede Américas, considerada a segunda maior rede de hospitais privados do país — anunciou no dia 13 de maio a abertura de uma nova estrutura de atendimento.

Trata-se do novo Centro de Oncologia do CHN, que passa a disponibilizar seis novos consultórios dedicados a pacientes adultos com câncer no município. A unidade ambulatorial funcionará em um prédio independente do complexo principal, buscando oferecer um fluxo exclusivo para garantir privacidade e agilidade no diagnóstico de tumores.

O contraste entre a ampliação física e mercadológica da instituição e os relatos de desassistência vividos por pacientes críticos como Janaína Machado recoloca em debate a importância da humanização e da segurança absoluta nos processos diários de enfermagem e medicina hospitalar, principalmente no cuidado a indivíduos com condições autoimunes.

Reconhecimento internacional posto à prova

O Complexo Hospitalar de Niterói (CHN) acumula sucessivas premiações internacionais, tendo se posicionado entre os melhores hospitais do mundo em qualidade hospitalar, segundo o ranking World’s Best Hospitals 2026. fica ao lado do Hospital Samaritano Higienópolis (SP), Hospital Santa Paula (SP), Hospital Nove de Julho (SP), Hospital da Bahia (BA), Hospital Santa Joana Recife (PE) e Hospital São Domingos (MA), pertencentes ou administrados pela Rede Américas.

A unidade ficou entre os seis melhores do Brasil no “Ranking dos Melhores Hospitais e Clínicas da América Latina 2025″, divulgado pela IntelLat, empresa especializada em análise de dados em saúde, realizado anualmente desde 2009, 80 hospitais latino-americanos. No ranking geral, o hospital de Niterói ficou em 36º lugar.

Já entre os oito hospitais especializados em Ginecologia & Obstetrícia no Top 25, ficou em nono lugar, atrás de Einstein (1º), Moinhos de Vento (6º) e Santa Joana Recife (8º). O país conquistou 6 posições entre os 15 melhores hospitais da região e domina a lista com 30 instituições classificadas, seguido por Colômbia (26) e México (10).

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