A cada ano que passa a Medicina está mais avançada. Na Oncologia não é diferente. Já ficou claro que conhecer as características específicas do tumor é fundamental para o sucesso do tratamento. Hoje, essas informações são obtidas pela biópsia, que consiste na remoção de parte do tumor ou de tecidos do órgão atingido para análise em laboratório. Num futuro não muito distante, esse procedimento poderá ser substituído por um simples exame de sangue.
Cada vez mais a chamada Oncologia de precisão tem lançado mão da biópsia líquida como ferramenta essencial na rotina clínica em diversos tipos de câncer. Além de acelerar a obtenção de resultados, o teste dispensa a remoção de um pedaço do tumor, um procedimento que nem sempre é simples.
Às vezes, o tecido cancerígeno está em um local de difícil acesso ou o paciente apresenta comorbidades que requerem atenção especial. Outra vantagem é que o exame não demanda um local preparado, como a biópsia tradicional.
A biópsia líquida atua por meio do rastreamento de fragmentos de DNA tumoral circulante ($ctDNA$) liberados pelas células malignas na corrente sanguínea. Ao identificar mutações genéticas específicas através de uma simples coleta de sangue, o teste permite indicar terapias-alvo moleculares altamente eficazes, muitas vezes poupando o paciente de biópsias teciduais invasivas, dolorosas e de maior risco.
No entanto, a velocidade com que essa inovação chegou aos consultórios contrasta com a preparação técnica para o seu uso pleno, especialmente no manejo do câncer de pulmão de não pequenas células (NSCLC). Um estudo latino-americano inédito revelou que, embora 72,5% dos 178 oncologistas entrevistados – dos quais 84,8% atuam no Brasil – já prescreva o exame, apenas 30% afirmaram ter total confiança na análise diagnóstica dos resultados obtidos.
Falta de treinamento formal limita a confiança de oncologistas
Batizado de estudo Omega e conduzido pelo Latin American Cooperative Oncology Group (LACOG), em parceria com o Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), o estudo foi apresentado na reunião anual da American Society of Clinical Oncology (Asco 2026), em Chicago (EUA). e expõe um gargalo assistencial importante.
Metade dos oncologistas ouvidos admitiu não ter recebido nenhum treinamento formal sobre o tema nos últimos três anos. No entanto, entre o grupo que passou por atualizações específicas, o índice de solicitação do exame subiu para 87,2% (contra 60,7% dos não treinados) e o nível de segurança na interpretação dos laudos moleculares saltou de 53,9% para expressivos 86%.
Apesar dos obstáculos de aprendizado e das barreiras de acesso — uma vez que a tecnologia ainda enfrenta dificuldades de ampla cobertura nos sistemas público e suplementar de saúde —, o futuro da ferramenta é amplamente respaldado pela comunidade médica. No próprio estudo, 96,1% dos participantes declararam acreditar que a utilização da biópsia líquida se expandirá massivamente nos próximos cinco anos.
O papel do exame e o impacto direto do treinamento formal
Para o ecossistema de saúde brasileiro, o desafio ganha contornos que vão além da educação médica continuada. Sociedades de especialidades médicas e patologistas reforçam que a biópsia líquida não deve ser vista como uma substituta completa da biópsia de tecido tradicional, mas sim como uma estratégia complementar fundamental — crucial para os momentos em que o tumor está em local inacessível ou quando a quantidade de material extraído na cirurgia é insuficiente para os testes moleculares.
A biópsia líquida é uma ferramenta extremamente promissora, auxiliando na escolha dos tratamentos mais adequados para cada paciente. No entanto, trata-se de um exame complexo, tanto na sua realização quanto na interpretação dos resultados. Existe uma grande disposição dos médicos em incorporar novas tecnologias, mas isso precisa ser acompanhado por programas robustos de educação”, explica ooncologista William Nassib William Jr., especialista em tumores torácicos da Oncoclínicas.
Segundo ele, os resultados do estudo clínico refletem as dores de um período de transição tecnológica acelerada. O estudo comprovou essa correlação direta entre capacitação e conduta assertiva. O especialista – que também participa de estudos sobre câncer hereditário de pulmão e implementação de biópsia líquida em países latino-americanos – pondera que os programas educacionais contínuos são o único caminho para alinhar a disponibilidade do exame à eficácia do tratamento na ponta:
Exame de sangue poderá no futuro detectar o câncer com precisão
Faltam apenas alguns anos para o procedimento entrar na rotina médica a fim de agilizar a detecção de tumores e a definição e o acompanhamento dos tratamentos.
Já o oncologista clínico Paulo Hoff, presidente da Oncologia D’Or e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), acompanha com entusiasmo as pesquisas realizadas em relação à biópsia líquida. Mesmo porque os três pilares do tratamento moderno – a imunoterapia, a terapia-alvo e o anticorpo-conjugado (combinação da quimioterapia com a terapia-alvo) – dependem da identificação das alterações presentes na célula tumoral com bastante acurácia.
A biópsia líquida não é uma ficção científica. Já existem no mercado exames de sangue para detectar o câncer, mas produzem muitos resultados falso-positivos e falso-negativos, o que desencoraja seu uso rotineiro”, afirma o médico. “Por isso, não estamos falando de futuro distante, mas de um refinamento dos produtos existentes”, complementa.
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Histórico
Desde o século passado, a Ciência procura um meio de identificar indícios de tumores cancerígenos pelo sangue. Nas décadas de 1960 e 1970 pesquisadores buscavam antígenos tumorais que pudessem ser úteis como biomarcadores.
Nos anos 1990, a Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, aprovou o exame de sangue PSA para triagem do câncer de próstata. Entretanto, a presença de marcadores de maneira isolada não permitia a análise histológica ou molecular do tumor.
Anos depois, a melhoria da tecnologia de análise do sangue levou os cientistas a estudarem meios de identificar as células, que eram liberadas pelo tumor na corrente sanguínea. Porém, a maioria era destruída pelo organismo, deixando uma substância remanescente no sangue.
Por isso, o objetivo inicial do estudo perdeu protagonismo para uma nova estratégia: decifrar o DNA do conteúdo remanescente. O feito só foi possível com o desenvolvimento de um método para separar o conteúdo remanescente das células cancerígenas das células normais.
Hoje existem diversas ferramentas que permitem separar esses conteúdos para a análise molecular do tumor. Alguns produtos vendidos comercialmente possibilitam que um laboratório analise uma amostra de sangue e identifique alterações importantes para a definição do tratamento”, explica Paulo Hoff.
Uma descoberta semelhante à aviação
A detecção precoce do câncer, antes mesmo do surgimento de sintomas, é apenas um dos benefícios da biópsia líquida. Ao fornecer as características específicas do câncer, o exame vai auxiliar o médico a prescrever de forma mais assertiva cirurgias, medicamentos e terapias complementares. Para Paulo Hoff, esse exame provocará na Medicina algo tão grandioso como o que ocorreu na aviação.
Imagine observar um homem engravatado com um chapéu interessante montar num aparelho em um campo em Paris, voar a alguns metros do chão e pousar. Na época, seria difícil imaginar que, anos após o 14 Bis de Santos Dumont, todo mundo viajaria de avião a jato entre os continentes. Nós estamos testemunhando algo semelhante na Medicina”, comemora.
A biópsia líquida poderá fornecer dados atualizados, permitindo um acompanhamento em tempo real do paciente e a avaliação da necessidade de tratamentos complementares. Esse recurso é bastante importante porque poderá ajudar a encurtar procedimentos, muitos deles longos. É o caso do câncer de mama, que requer terapia hormonal por cinco a dez anos.
O exame também poderá ajudar a investigar o local de origem do tumor — uma tarefa difícil principalmente em casos de pacientes com grandes metástases. Embora já existam testes neste sentido no Exterior, é preciso melhorar a sua acurácia.
O especialista afirma que o custo da biópsia líquida será elevado por se tratar de um exame de alta sofisticação. “Mas é preciso olhar o impacto sobre o custo do tratamento, que pode ser ainda mais significativo. Ele vai poupar não só gastos financeiros, mas também o estresse e a angústia dos pacientes”, pondera Paulo Hoff.
Visão multidisciplinar: democratização e integração de especialidades
Médicos patologistas integrados ao cenário de diagnóstico molecular ressaltam que, para mitigar a insegurança dos oncologistas clínicos, os laboratórios de medicina diagnóstica vêm investindo em laudos mais estruturados e em comitês multidisciplinares de tumores, conhecidos como Molecular Tumor Boards.
Nessas juntas médicas, patologistas, geneticistas e oncologistas analisam juntos as variantes genéticas encontradas no sangue do paciente, desenhando a melhor conduta terapêutica de forma compartilhada.
O desafio atual do setor de saúde, portanto, deixa de ser o desenvolvimento da tecnologia em si e passa a ser a garantia de uma formação profissional qualificada e equitativa, transformando dados genéticos complexos em sobrevida real para os pacientes.
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