O cenário científico internacional assiste a um movimento de reparação histórica. O infectologista Marcus Lacerda, pesquisador da Fiocruz Amazônia e um dos principais alvos da máquina de desinformação do governo de Jair Bolsonaro, acaba de ser nomeado diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A escolha de Lacerda, anunciada pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, não é apenas um reconhecimento ao seu currículo com mais de 460 publicações científicas; é um marco político. O pesquisador assume o posto anos após ter sido submetido a um dos períodos mais sombrios da história recente da ciência brasileira, quando o rigor metodológico foi tratado como crime por setores do Estado.
O preço da verdade científica
Em 2020, Lacerda liderou o primeiro estudo clínico no Brasil a demonstrar que a cloroquina — o “pilar” do chamado tratamento precoce defendido com fervor ideológico por Bolsonaro — não apenas era ineficaz contra a Covid-19, como oferecia riscos graves de arritmia cardíaca em doses elevadas.
A resposta do governo anterior e de sua base de apoio foi brutal. O cientista passou a viver sob escolta armada após receber ameaças de morte. Foi alvo de ataques coordenados nas redes sociais, inclusive por parte do deputado federal Eduardo Bolsonaro, que tentou criminalizar a pesquisa clínica.
Em um gesto de retaliação institucional, o governo chegou a revogar a concessão da Ordem Nacional do Mérito Científico ao pesquisador, honraria que só lhe foi devolvida em 2023, após a mudança de governo.
Ciência contra o obscurantismo
A nomeação para o TDR, um programa estratégico criado em 1975 e co-patrocinado por Unicef e Banco Mundial, coloca o Brasil novamente no protagonismo da saúde pública global. Lacerda é apenas o segundo brasileiro a ocupar o cargo — o primeiro foi Carlos Morel, ex-presidente da Fiocruz.
Enquanto a gestão Bolsonaro tentava isolar o país através do negacionismo e da promoção de medicamentos sem eficácia, Lacerda seguiu produzindo ciência de ponta na Amazônia. Sua atuação foi decisiva na implementação da tafenoquina (cura radical para malária) e em avanços no tratamento do HIV.
Novos desafios na OMS
À frente do TDR no ciclo 2024-2029, Lacerda coordenará esforços para combater doenças que assolam populações vulneráveis, como dengue, doença de Chagas e leishmaniose. “Estou ansioso para traduzir evidências em impacto, especialmente onde as necessidades são maiores”, afirmou o pesquisador em nota.
O retorno de um cientista perseguido ao alto escalão da saúde global encerra um ciclo de hostilidade. Para a comunidade científica, a ascensão de Lacerda em Genebra é a prova de que, embora o negacionismo possa causar danos severos e imediatos, o tempo e o método científico permanecem como os únicos pilares capazes de sustentar a saúde global.
Para dar continuidade à cobertura jornalística, preparei dois materiais complementares: um perfil biográfico focado na resiliência acadêmica de Marcus Lacerda e uma análise comparativa que evidencia a mudança de paradigma na gestão da saúde pública brasileira.
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Perfil: A resiliência de um “gigante global” na Amazônia
Marcus Vinícius Guimarães Lacerda não é um nome novo para a ciência, mas tornou-se um símbolo de resistência. Nascido em Taguatinga (DF) e formado pela UnB, foi no coração da Amazônia que ele consolidou sua carreira. Como pesquisador da Fiocruz e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Lacerda especializou-se em transformar dificuldades geográficas em centros de excelência.
Seu trabalho com o Plasmodium vivax (malária) mudou as diretrizes da própria OMS, mas foi o rigor ético durante a crise da Covid-19 que definiu seu caráter público. Mesmo sob ataques que atingiram sua família e sua integridade física, Lacerda não recuou dos dados. Em um perfil publicado pela revista The Lancet, ele foi descrito como um “gigante global do século 21”. Hoje, sua ida para Genebra é vista por colegas como a prova de que a ciência regional, feita na ponta do sistema, é capaz de pautar o mundo.
O giro de 180 graus da saúde brasileira
A nomeação de Lacerda permite traçar um comparativo direto entre dois modelos de gestão pública e sua relação com a verdade científica:
| Critério | Gestão Bolsonaro (2019-2022) | Cenário Atual (2023-2026) |
| Relação com a Ciência | Hostilidade institucional; perseguição a pesquisadores e corte de verbas para institutos. | Revalorização de instituições como Fiocruz e restauração de honrarias científicas. |
| Combate a Pandemias | Promoção de “tratamento precoce” sem eficácia (cloroquina/ivermectina). | Foco em evidências, vacinação em massa e vigilância epidemiológica. |
| Presença Internacional | Isolamento diplomático e críticas diretas à OMS e seus diretores. | Retomada de cargos estratégicos em organismos internacionais (como o TDR/OMS). |
| Tratamento a Críticos | Uso do aparato estatal e militância digital para difamar oponentes técnicos. | Integração de especialistas em comitês de decisão e políticas públicas. |
O simbolismo da reparação
O contraste é gritante: o mesmo pesquisador que o governo brasileiro tentou “cancelar” e despojar de méritos é o nome que a comunidade internacional escolhe para liderar o combate às doenças tropicais. A transição de Lacerda de “perseguido político” a “diretor na OMS” serve como um termômetro da recuperação da imagem do Brasil no exterior.
Enquanto o governo anterior via na OMS uma ameaça à soberania das narrativas ideológicas, a atual inserção brasileira reforça que a soberania real se faz com liderança intelectual e soluções para os problemas das populações mais pobres.
Panorama estratégico: o “Mapa de Combate” de Lacerda no TDR
Sob o comando do brasileiro, o Programa Especial da OMS focará em doenças que historicamente recebem menos investimento da indústria farmacêutica privada, mas que incapacitam milhões de pessoas:
1. Arboviroses (Dengue, Zika e Chikungunya)
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O desafio: A rápida urbanização e o aquecimento global estão expandindo o alcance do mosquito Aedes aegypti.
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Foco: Desenvolvimento de novas ferramentas de controle vetorial e vacinas mais acessíveis.
2. Malária (Plasmodium vivax)
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O desafio: A resistência aos medicamentos e a dificuldade de eliminar o parasita que permanece latente no fígado.
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Foco: Implementação da tafenoquina (cura em dose única) em larga escala.
3. Doenças negligenciadas (Chagas e Leishmaniose)
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O desafio: Doenças silenciosas que afetam populações em situação de extrema pobreza.
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Foco: Diagnóstico precoce e tratamento menos tóxico que os atuais.
4. Resistência antimicrobiana
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O desafio: O uso indiscriminado de antibióticos e antiparasitários está criando “supermicróbios”.
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Foco: Vigilância genômica e pesquisa de novos compostos.
Com informações da Agência Fiocruz




