Enquanto Neymar parece ter sido escalado para fazer figuração na Seleção Brasileira durante a Copa do Mundo da Fifa 2026, numa clara jogada bilionária de marketing esportivo, dois nomes que estavam cotados acompanham o mundial bem longe dos gramados e do apoio da torcida.

O lateral-direito Wesley França foi cortado após sofrer uma lesão muscular de grau três no músculo adutor da coxa esquerda durante um amistoso contra o Egito. Já o atacante Estêvão Willian ficou fora da lista de convocados por ainda estar em recuperação de uma grave lesão no bíceps femoral, na parte posterior da coxa.

Embora as duas lesões tenham ocorrido na região da coxa, elas afetam músculos com funções diferentes dentro do futebol e exigem processos específicos de recuperação.

O que aconteceu com Wesley?

O lateral-direito Wesley sofreu uma lesão de grau três no músculo adutor, grupo muscular localizado na parte interna da coxa que é muito exigido em movimentos de mudança rápida de direção, cortes laterais e chutes.

Segundo Fabrício Buzatto, médico fisiatra e professor da pós-graduação em Medicina do Esporte da Afya Vitória, esse é o estágio mais grave das lesões musculares. “Uma lesão de grau três representa uma ruptura total ou quase total das fibras musculares. O músculo perde sua integridade estrutural, causando dor importante, perda imediata de função e um tempo de recuperação prolongado”, explica.

De acordo com o especialista, o período de cicatrização costuma variar entre oito e 12 semanas, tornando inviável a participação do atleta em uma competição curta e de alta exigência física como a Copa do Mundo.

O caso do atacante Estevão 

No caso de Estêvão, a lesão ocorreu no bíceps femoral, músculo que integra o grupo dos isquiotibiais, localizado na parte posterior da coxa. Essa musculatura é fundamental para arrancadas, acelerações e desacelerações rápidas.

O bíceps femoral é o músculo mais frequentemente lesionado em atletas de velocidade, justamente porque suporta grande carga durante os momentos de sprint”, afirma Dr. Fabrício Buzatto.

A ruptura sofrida pelo atacante foi considerada extensa, atingindo cerca de 80% do músculo. Ainda assim, o tratamento não exigiu cirurgia. Segundo o especialista, esse tipo de procedimento costuma ser reservado para situações específicas, como quando há desinserção completa do tendão do osso.

Quando a lesão ocorre na transição entre músculo e tendão ou no ventre muscular, o tratamento conservador costuma ser a melhor opção. O tecido muscular possui boa vascularização e grande capacidade de cicatrização quando o processo de reabilitação é conduzido adequadamente”, explica.

A evolução clínica do atacante chamou atenção após exames realizados semanas depois da lesão indicarem uma recuperação melhor do que a inicialmente prevista. De acordo com Dr. Fabrício, isso pode acontecer porque os primeiros exames costumam ser influenciados pelo edema e pelo hematoma provocados pelo trauma. N

Nos momentos iniciais, o inchaço pode fazer a lesão parecer mais grave do que realmente é. Com a redução do processo inflamatório e a evolução da cicatrização, os exames passam a mostrar com mais precisão a recuperação das fibras musculares”, afirma.

Além disso, fatores como acompanhamento especializado, controle rigoroso das cargas de treinamento e os recursos utilizados no esporte de alto rendimento podem acelerar a recuperação biológica do atleta.

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Como funciona a recuperação de uma lesão muscular grave?

Raul Oliveira, professor do curso de Fisioterapia da Afya Centro Universitário Itaperuna, explica que a fisioterapia é apenas uma parte do tratamento, que envolve uma equipe multidisciplinar composta por médicos, fisioterapeutas e preparadores físicos.

O tratamento é o conjunto de todas as medidas adotadas para a recuperação do atleta. A fisioterapia tem papel fundamental na restauração da força, da mobilidade, do controle muscular e da capacidade funcional necessária para o retorno ao esporte”, afirma.

Segundo ele, a recuperação costuma seguir etapas bem definidas. “Primeiro buscamos controlar a lesão e recuperar os movimentos. Depois iniciamos o fortalecimento progressivo, a readaptação aos gestos esportivos e, por fim, o retorno gradual aos treinamentos e às partidas.”

Por que não é possível acelerar o retorno?

Embora a pressão por resultados seja grande, especialistas alertam que antecipar o retorno aos gramados pode trazer consequências sérias. “O principal risco é a recidiva, ou seja, a lesão acontecer novamente, muitas vezes de forma ainda mais grave”, destaca Dr. Raul.

Além disso, o atleta pode desenvolver compensações musculares, sobrecarregando outras regiões do corpo e aumentando a chance de novos problemas físicos. A liberação para voltar a competir não depende apenas do tempo de recuperação. São avaliados critérios como força muscular, mobilidade, resistência, ausência de dor e desempenho em testes específicos do esporte.

O mais importante é verificar se o atleta consegue executar arrancadas, mudanças de direção, saltos e chutes com segurança e desempenho próximos ao nível pré-lesão”, explica o fisioterapeuta.

Lesões musculares estão cada vez mais comuns no futebol

Para os especialistas, o aumento das lesões musculares está diretamente relacionado à evolução do futebol moderno. “O calendário atual atingiu um nível extremamente exigente. Muitas vezes o atleta não dispõe do tempo necessário para recuperação completa entre uma partida e outra”, afirma o médico da Afya Vitória..

Além disso, os jogadores percorrem maiores distâncias em alta velocidade e realizam mais sprints e desacelerações bruscas do que em décadas anteriores, aumentando a sobrecarga sobre a musculatura.

Por isso, mesmo quando a recuperação evolui bem, a decisão de deixar um atleta fora de uma competição costuma ser tomada para preservar sua saúde a longo prazo.

No caso de Wesley e Estêvão, a ausência na Copa representa uma perda técnica importante para a Seleção Brasileira, mas também reflete a preocupação das equipes médicas em garantir uma recuperação completa e segura para o futuro da carreira dos dois jogadores.

Como agir no retorno após a lesão para evitar novos incidentes

Especialista explica que há critérios objetivos, progressão por fases e suporte psicológico que orientam um retorno seguro ao esporte e ao trabalho.

Voltar a treinar ou ao trabalho depois de uma lesão exige mais do que cumprir um prazo: são necessários critérios objetivos, passos bem definidos, reavaliações frequentes e uma equipe acompanhando. Avaliar força, equilíbrio, controle do movimento, sintomas (dor/edema) e como a pessoa se sente mentalmente reduz o risco de nova lesão e melhora a recuperação.

Em geral, especialistas usam metas concretas, como alcançar pelo menos 90% de simetria entre as pernas em testes de força e saltos (o chamado Limb Symmetry Index — LSI). Isso quer dizer: o membro que se lesionou deve performar quase igual ao lado saudável. Mas esse número sozinho não basta, precisa ser considerado junto com outros testes e com a avaliação do profissional.

Crianças e jovens que voltam rápido a esportes de alto impacto apresentam maior chance de se machucar de novo: pesquisas mostram que a taxa de reincidência pode chegar a cerca de 20% em alguns grupos. Voltar sem critérios rígidos ou sem progressão adequada aumenta muito esse risco.

O retorno precisa ser por fases, devagar e medida em metas. Antes de ser liberado, o paciente deve recuperar a mobilidade e reduzir inchaço/dor; recondicionar força, resistência e controle do movimento; realizar treinos técnicos sem contato; e depois treinos com contato controlado (quando for o caso). Em cada etapa, deve-se acompanhar sinais de intolerância (dor, inchaço, queda de performance)”, explica  Geovany Rennó, médico do esporte e cofundador da clínica Player.

Uma avaliação prática normalmente inclui testes de força (isocinéticos ou equivalentes), hop tests (saltos unilaterais), testes de equilíbrio e escalas que medem a confiança do paciente (por exemplo, ACL-RSI em lesões de ligamento). Juntar resultados objetivos, observação funcional e relato do próprio paciente dá o melhor parâmetro para decidir o retorno.

Afinal, existe um prazo recomendado?

Existem estimativas com base na classificação da lesão, mas isso não pode ser o fator determinante. De acordo com o Dr. Geovany Rennó, não existe um “prazo mágico” para o retorno após uma lesão. No caso das lesões musculares, por exemplo, não há padronização rígida de tempo para recuperação, já que a evolução depende de uma série de fatores. O acompanhamento deve ser individualizado e baseado em avaliação clínica, funcional e de imagem, como o ultrassom, que permite acompanhar a cicatrização, a contração muscular e até a formação de tecido cicatricial.

O mesmo vale para quadros de tendinopatia, em que o tratamento precisa considerar não apenas a resposta do organismo de cada paciente, mas também levar em consideração a especificidade do esporte praticado. Afinal, as demandas físicas de um jogador de futebol diferem das de um tenista, e essa particularidade devem  orientar tanto o processo de reabilitação quanto a decisão de retorno às atividades.

Medo de voltar, falta de confiança e expectativas irreais influenciam muito o retorno. Avaliar e trabalhar a parte emocional faz parte da reabilitação e ajuda a evitar recaídas.

O retorno seguro não é um calendário, é uma soma de marcos físicos, funcionais e mentais que precisam ser verificados um a um. Para isso, é preciso estabelecer critérios claros, além de assegurar a realização de testes repetidos e a progressão supervisionada, só assim minimizamos recaídas e protegemos a saúde do atleta, seja ele amador ou profissional”, finaliza o médico.

Com Assessorias

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