Nas cirurgias de reconstrução mamária realizadas após a mastectomia (retirada da mama), a posição do implante de silicone — na frente ou atrás do músculo peitoral — costuma dividir a opinião dos médicos. No entanto, um estudo apresentado na reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), em Chicago, trouxe o mais alto nível de evidência científica para ajudar a balizar essa decisão na prática oncológica.
A investigação internacional reuniu pesquisadores de 10 países e contou com a participação direta da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM). O trabalho avaliou o desescalonamento cirúrgico da reconstrução mamária, comparando o posicionamento pré-peitoral (na frente do músculo) versus o subpeitoral (atrás da musculatura).
O mastologista Regis Paulinelli, presidente do Departamento de Relações Internacionais da SBM e um dos autores da pesquisa, explica que o estudo envolveu 26 centros de saúde e acompanhou 383 pacientes submetidas à mastectomia. Metade das mulheres recebeu o implante pré-peitoral e a outra metade passou pelo procedimento subpeitoral.
Até a conclusão dessa pesquisa, os dados sobre as vantagens e os riscos de cada posição da prótese de silicone eram baseados em evidências baixas. A apresentação no congresso trouxe uma evidência científica nível 1, que é o padrão-ouro da medicina por se tratar de um estudo randomizado”, afirma o médico.
Mais conforto inicial versus riscos a longo prazo
Os achados da pesquisa revelaram dados anatômicos e de bem-estar importantes. Entre as mulheres que receberam a prótese por cima do músculo (pré-peitoral), os médicos observaram um índice menor de contratura capsular — que é o endurecimento da cicatriz interna em volta do silicone. No primeiro momento, essas pacientes demonstraram maior satisfação estética e bem-estar físico geral.
Por outro lado, o monitoramento de longo prazo feito após 24 meses acendeu alertas importantes. Utilizando o questionário Breast-Q — uma ferramenta científica validada mundialmente para medir a qualidade de vida após cirurgias mamárias —, os pesquisadores avaliaram critérios como dor no tórax, sensação de aperto, sensibilidade, desconforto persistente, dificuldade para movimentar os braços, problemas para dormir e linfedema (inchaço no braço).
Como desfechos secundários, o estudo apontou que o grupo pré-peitoral apresentou um risco 6% maior de extrusão da prótese (quando o implante perfura a pele e fica exposto), além de uma taxa discretamente superior de perda não planejada ou necessidade de substituição do implante.
Decisão compartilhada e individualizada
Na avaliação final do bem-estar físico na região torácica após dois anos, a pontuação das pacientes do grupo subpeitoral (atrás do músculo) ficou em 74,3 pontos, contra 79,2 pontos daquelas que receberam o implante pré-peitoral (na frente do músculo).
Entre os prós e contras de cada técnica, a Sociedade Brasileira de Mastologia reforça que o mapeamento desses dados traz uma segurança inédita para os consultórios.
Com base nos conhecimentos robustos apresentados por esse estudo, hoje os especialistas podem decidir com muito mais critérios sobre as melhores alternativas em reconstrução mamária. O caminho ideal é avaliar as características individualizadas de cada paciente e o perfil do tumor para desenhar a cirurgia mais segura”, conclui o Dr. Regis Paulinelli.
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