Já estamos sentindo na pele, no bolso e no coração: o clima é quem realmente manda no mundo. Ele define colheitas, altera o consumo diário e testa a nossa capacidade de resiliência diante das profundas metamorfoses pelas quais atravessamos.
Enquanto ondas históricas de calor afetam diferentes partes do globo e os recordes de temperatura se acumulam com o aumento contínuo das emissões de gases de efeito estufa (GEEs), a sociedade civil e os tomadores de decisão enfrentam um desafio urgente: estruturar ações concretas de prevenção, mitigação e resposta rápida.
Para debater caminhos diante desse cenário desafiador, o 1º Congresso Internacional de Proteção e Defesa Civil (CIPDC), realizado no início do mês de julho, em Porto Alegre (RS), reuniu especialistas, lideranças comunitárias e gestores públicos para discutir o fortalecimento da gestão de riscos. Uma pauta crucial, especialmente para a Região Sul do Brasil, apontada como um dos epicentros de eventos climáticos extremos no continente.
O fim da ‘imprevisibilidade’ e a força do engajamento comunitário
Uma das reflexões centrais do evento partiu do meteorologista e professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Vagner Anabor, que defendeu a eliminação do termo “imprevisível” no vocabulário da gestão de riscos. Para o especialista, o avanço da ciência e da tecnologia oferece dados precisos para a previsão de cenários, exigindo que governos e sociedade atuem com planejamento e antecipação contínuos.
A necessidade de antecipar vulnerabilidades para salvar vidas também deu o tom da apresentação de Lourdes Tiban Guala, prefeita de Cotopaxi, no Equador. Ao fazer uma crítica contundente às falhas de gestão e à falta de transparência em cenários de crise, a liderança comunitária enfatizou que prever ameaças é o único caminho capaz de conter tragédias sociais.
Iniciativas de voluntariado são fundamentais
A experiência de transformar a prevenção em valor cultural foi trazida pelo professor Otávio Costa Acevedo, da Universidade de Oklahoma. Após um devastador tornado em 1999, o estado norte-americano estruturou a Mesonet — uma rede integrada de 120 estações meteorológicas automatizadas que fornece dados unificados para a imprensa, escolas, empresas e cidadãos —, além de incentivar o voluntariado ativo por meio de redes comunitárias de observadores de tempestades (storm spotters).
O voluntariado também marcou a contribuição da delegação da Província de Trento, na Itália. No modelo italiano, a tradição dos bombeiros voluntários — com expressiva participação de crianças e jovens — remonta a séculos de organização comunitária, tendo surgido muito antes da institucionalização do sistema estatal de proteção civil, ocorrida em 1992.
Comunicação pública como ferramenta contínua de proteção
Além da infraestrutura técnica e do engajamento popular, a forma como o risco é comunicado à população ganhou papel de destaque na programação do congresso. Rosângela Florczak de Oliveira, professora da Faculdade de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da PUCRS, ressaltou que a comunicação em situações de emergência não pode se limitar à simples divulgação de atos governamentais.
Segundo a docente, os órgãos públicos precisam manter um diálogo contínuo com a comunidade, traduzindo dados complexos em orientações acessíveis e construindo vínculos de confiança.
Cuidado não é suavizar a gestão. É tornar a comunicação capaz de proteger”, sintetizou a professora durante o evento organizado pela Defesa Civil do Estado do Rio Grande do Sul e o ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade.
NOTA DA REDAÇÃO – Este texto é uma versão da matéria originalmente publicada no site Sler. Confira o texto original aqui .





