A gestação exige uma sobrecarga metabólica significativa do organismo feminino. Durante os nove meses, a glândula tireoide precisa trabalhar intensamente para suprir o metabolismo materno e garantir o aporte hormonal necessário ao feto, cuja própria tireoide só começa a se formar na 20ª semana de gravidez. A descoberta de uma alteração nos exames de sangue da tireoide durante a gravidez costuma gerar apreensão imediata, mas uma mudança importante nas recomendações médicas traz mais tranquilidade para as futuras mães.
A partir de agora, gestantes que apresentarem teste positivo para anticorpos contra a tireoide (anti-TPO), mas mantiverem o funcionamento normal da glândula, não precisam mais tomar hormônio sintético (levotiroxina) de forma preventiva. A decisão de limitar o uso do medicamento baseia-se em três grandes estudos científicos recentes, que comprovaram que tomar a medicação nesses casos específicos não traz benefícios e nem diminui o risco de abortamento ou parto prematuro.
A nova orientação conjunta da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) alinha o país às mais recentes diretrizes internacionais para evitar o excesso de medicação desnecessária na gestação.
O que muda na prática para as gestantes?
Na prática, a mudança – anunciada durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, que acontece esta semana no Rio de Janeiro – estabelece regras mais precisas para que cada mulher receba medicação apenas quando houver necessidade real comprovada: A atualização estabelece condutas mais precisas para cada momento e diagnóstico:
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Anticorpo positivo com hormônio normal: A indicação de medicação cai. A gestante será apenas monitorada periodicamente com exames de sangue.
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Hipotireoidismo subclínico até a 12ª semana: Se o TSH estiver elevado (entre 4,0 e 10 mUI/L) no primeiro trimestre, o tratamento deve ser iniciado, pois o feto depende dos hormônios maternos para seu desenvolvimento inicial. Se detectado no segundo ou terceiro trimestre com TSH menor que 10 mUI/L, a orientação é somente observar.
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Diagnóstico anterior mantido: Para mulheres que já tinham hipotireoidismo antes de engravidar, a orientação de elevar a dosagem habitual em cerca de 30% logo no início da gestação continua valendo.
‘Não é deixar de tratar o hipotireoidismo’
O subcoordenador do Departamento de Tireoide da SBEM, Dr. Cleo Mesa Júnior, esclarece que a presença do anticorpo isolado não significa doença em atividade.
Se os [hormônios] TSH e o T4 livre estão normais, a mulher é considerada eutireoidiana e não há benefício comprovado em usar levotiroxina, apenas pela gestante ter o anticorpo positivo”, explica o especialista, destacando que o exame indica apenas uma predisposição a desenvolver alterações ao longo da vida.
O Dr. Cleo Mesa Júnior reforça que as diretrizes não significam desassistência, mas sim prudência clínica. “Isso não significa deixar de tratar o hipotireoidismo fraco ou alterações importantes. A decisão deve considerar o nível do TSH, o T4 livre, e o momento da gestação”, pontua o médico.
Rastreamento mantido para todas as grávidas no Brasil
Apesar das novidades, o Brasil optou por manter o rastreamento universal, ou seja, todas as grávidas continuam fazendo os exames de tireoide no início do pré-natal. A medida garante que nenhuma alteração passe despercebida, permitindo tratar rapidamente quem precisa e proteger a saúde da mãe e do bebê de forma individualizada.
Diferentemente da diretriz norte-americana emitida pela Associação Americana da Tireoide (ATA) — que passou a sugerir triagem apenas para mulheres com fatores de risco —, o Brasil decidiu manter o rastreamento universal no pré-natal. A conduta visa evitar diagnósticos tardios na população.
O rastreamento seletivo pode deixar de identificar algumas mulheres que apresentam alteração da tireoide, mas não possuem os fatores de risco considerados na triagem. Em um sistema em que nem sempre é possível garantir retorno rápido, esperar pode significar perder a janela de oportunidade para o tratamento”, defende o subcoordenador da SBEM.
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Estima-se que o hipotireoidismo afete 15% das mulheres adultas e cerca de 3% das gestantes. Quando não diagnosticada, a deficiência dos hormônios T3 e T4 pode prejudicar o desenvolvimento neurocognitivo do bebê e aumentar complicações graves, como pré-eclâmpsia, parto prematuro, retardo de crescimento intrauterino e abortamento. A disfunção afeta inclusive a fertilidade do casal antes da concepção.
Os hormônios liberados pela tireoide exercem efeitos sobre a função ovariana. Eles interagem com hormônios da hipófise, que são responsáveis por estimular a ovulação. Dessa forma, prejudicam a maturação dos óvulos, interferem no ciclo menstrual e também no período fértil”, explica o especialista em reprodução humana Nilo Frantz.
Riscos combinados: obesidade e diabetes gestacional
Quando os distúrbios da tireoide acompanham outras condições metabólicas, como a obesidade ou o diabetes gestacional (presente em cerca de 10% das gravidezes), a atenção pré-natal precisa ser redobrada.
A endocrinologista Lorena Lima Amato enfatiza as complicações associadas ao excesso de peso e às alterações glicêmicas durante a gestação:
Mulheres com obesidade têm maior probabilidade de desenvolver pré-eclâmpsia, hipertensão gestacional, diabetes gestacional e complicações no parto. Além disso, os bebês têm risco aumentado de serem grandes para a idade gestacional, apresentarem anomalias congênitas, problemas respiratórios e obesidade na infância e vida adulta.”
Para a médica, a abordagem ideal exige equipe multidisciplinar e suporte continuo.
O cuidado pré-natal deve se concentrar no controle rigoroso da glicose no sangue, na promoção de uma alimentação saudável, na manutenção do peso e na realização de atividade física regular. O apoio emocional e educacional para ajudá-la a entender os riscos é fundamental”, orienta a Dra. Lorena.
Alerta sobre desreguladores endócrinos no cotidiano
Outra preocupação crescente da comunidade médica é a interferência dos desreguladores endócrinos — substâncias químicas presentes em plásticos, agrotóxicos, tinturas de cabelo e cosméticos — no equilíbrio da tireoide.
A endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP), Maria Izabel Chiamolera, alerta para os indícios científicos sobre o tema:
Já existem evidências apontando para a capacidade dos desreguladores endócrinos causarem desequilíbrios nos hormônios tireoidianos, resultando em situações de hipotireoidismo e hipertireoidismo. Por isso é importante investigar tais disfunções durante a gestação, já que os sintomas podem se assemelhar a outras condições.”
A médica pondera que, embora os efeitos a longo prazo no desenvolvimento feto-placentário ainda necessitem de mais estudos, a precaução deve ser adotada na rotina diária das grávidas:
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Evitar aquecer alimentos em recipientes plásticos no micro-ondas;
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Dar preferência a alimentos orgânicos;
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Reduzir o contato com cosméticos e produtos químicos sintéticos de uso diário.
No nascimento, a investigação diagnóstica da criança deve continuar: o hipotireoidismo congênito, que afeta cerca de 1 a cada 4 mil recém-nascidos, precisa ser identificado precocemente por meio do Teste do Pezinho, realizado entre o 3º e o 7º dia de vida.
Com informações da Agência Brasil e Assessorias

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