O mês de agosto reserva marcos fundamentais para a medicina circulatória no país. Além do Dia do Cirurgião Vascular, celebrado em 15 de agosto, o período marca a campanha nacional Agosto Azul Vermelho, instituída em 2021 pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV).
A mobilização utiliza as cores tradicionais das estruturas anatômicas de veias e artérias para conscientizar a população sobre a importância dos cuidados preventivos com o sistema circulatório.
Na coluna Palavra de Especialista, o angiologista e cirurgião vascular Marcelo Rodrigo de Souza Moraes, membro da Comissão do Departamento de Emergência Vascular da SBACV-SP, analisa a amplitude da especialidade, detalha os riscos das principais afecções vasculares e reflete sobre as batalhas éticas e econômicas enfrentadas pela categoria profissional na defesa da segurança do paciente.
Por Marcelo Rodrigo de Souza Moraes*
“Caros leitores, o mês de agosto é especial para nós, cirurgiões vasculares. Além de comemorarmos o Dia do Cirurgião Vascular, em 15 de agosto, também foi oficializado, desde 2021, um mês comemorativo para a conscientização da saúde vascular para a população brasileira. Desde então, houve grandes mobilizações nos diversos estados do Brasil por conta da campanha intitulada Agosto Azul Vermelho, uma clara alusão às cores com as quais as estruturas vasculares são retratadas em nossos livros de anatomia.
Acho fundamental comentar alguns pontos sobre o que faz um cirurgião vascular. Muitos não sabem exatamente o enorme campo de atuação que a minha especialidade, na qual se incluem a Angiologia e a Cirurgia Vascular, alcança. Mas vou tentar dar essa dimensão, resumidamente, explicando sobre as doenças que mais frequentemente acometem o sistema circulatório e, de forma simples, o que podemos fazer para diminuir a chance de contrair tais afecções ou de melhor tratá-las.
Sem dúvida, a Cirurgia Vascular é muito conhecida por tratar das varizes nas pernas, e isso pode ser explicado por ser esta uma das doenças mais prevalentes no mundo moderno, causada principalmente por fatores genéticos, mas também por hábitos de vida.
Outra doença bem conhecida e temida é a trombose venosa, na qual uma parte do coágulo nas veias das pernas pode se desprender, atingir os pulmões e provocar embolia pulmonar, uma condição grave e potencialmente fatal. Entre as doenças do sistema arterial, podemos destacar a aterosclerose (estreitamento) das artérias carótidas, responsáveis pela irrigação do cérebro. O bloqueio reduz o fluxo sanguíneo cerebral e pode ocasionar acidentes vasculares cerebrais (AVC), com diversos graus de sequelas físicas.
A maior artéria do corpo, a aorta, que se origina no coração e se estende até o abdômen, pode sofrer dilatação ao longo dos anos diante da grande pressão interna, formando um aneurisma de aorta que corre o risco de se romper, caracterizando um quadro de extrema gravidade e alto risco de morte.
Estas são algumas entre as várias doenças que tratamos. Em meus artigos, sempre deixo uma recomendação que considero essencial: cada doença tem suas características próprias e cada método terapêutico possui suas vantagens e limitações. Se você tem qualquer suspeita ou diagnóstico confirmado de doença circulatória, converse com seu cirurgião vascular. Ele é o profissional habilitado com o domínio de todas as modalidades de investigação e técnicas de tratamento para definir, em conjunto com o paciente, a melhor conduta. Os médicos associados à Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular Regional São Paulo (SBACV-SP) possuem acesso contínuo a aperfeiçoamento e atualização técnica.
Desafios profissionais e o futuro da assistência médica
Aos colegas de profissão, muitas batalhas se alinham à nossa frente. Enfrentamos a invasão de nossas atribuições e competências por profissionais sem a devida formação médica especializada, o que configura uma realidade preocupante para a segurança dos procedimentos. Somam-se a isso o encolhimento das fontes de financiamento no Sistema Único de Saúde (SUS), a pressão sobre a saúde suplementar e a perda do poder aquisitivo da população, fatores que acendem um alerta sobre o futuro da nossa classe.
Além disso, a abertura indiscriminada de cursos médicos sem a devida infraestrutura de ensino lança no mercado uma grande massa de profissionais em uma rede mal distribuída, o que impacta diretamente a qualidade da assistência prestada a quem é mais importante: nossos pacientes.
Apesar dos gargalos, sigo otimista. Temos motivos para celebrar. Contamos com a tradição de uma entidade com mais de 70 anos de história, sendo uma das maiores associações da especialidade no mundo, resultado de gestões sérias e de uma base institucional sólida. Observamos a cada ano o amadurecimento das discussões com o Conselho Federal de Medicina (CFM), os conselhos regionais, a Associação Médica Brasileira (AMB) e instâncias governamentais como o Ministério da Saúde.
A Sociedade é a soma de seus associados. Se cada um dedicar parte de seu esforço, tempo e conhecimento aos interesses comuns da medicina e dos pacientes, continuaremos a construir uma especialidade forte e preparada para o futuro.”
*Marcelo Rodrigo de Souza Moraes é angiologista, cirurgião vascular e membro da Comissão do Departamento de Emergência Vascular da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular – Regional São Paulo (SBACV-SP).




