O cuidado com a saúde mental da população infantojuvenil brasileira ganhou um reforço institucional histórico. Entrou em vigor a Lei nº 15.413, que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
A medida chega em um momento crucial. O texto legal também estabelece a formação contínua de profissionais para identificação de sinais de risco e assegura o acesso gratuito ou subsidiado a recursos terapêuticos para jovens em situação de vulnerabilidade. O avanço legislativo dialoga diretamente com um cenário epidemiológico alarmante que desafia famílias, educadores e o sistema de saúde de todo o país.
Retrato do sofrimento: os dados do IBGE
Os sinais de sofrimento psíquico entre os jovens brasileiros deixaram de ser casos isolados e se consolidaram em estatísticas preocupantes. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo IBGE, três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmam se sentir tristes sempre ou na maior parte do tempo. Uma proporção semelhante relata já ter tido vontade de se machucar.
O levantamento, que ouviu mais de 118 mil jovens em todo o país, revela ainda outros indicadores complexos:
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42,9% dos adolescentes dizem estar irritados ou mal-humorados com frequência.
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18,5% chegam a sentir que a vida não vale a pena.
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Quase 40% dos entrevistados relataram ter sofrido bullying, frequentemente de forma repetida.
Para o psiquiatra Ricardo Patitucci, diretor da unidade do Rio de Janeiro da ViV Saúde Mental e Emocional, o cenário exige uma mudança urgente na abordagem, priorizando a infância como uma janela crítica de desenvolvimento emocional.
Quando esses indicadores aparecem de forma tão expressiva na adolescência, é um sinal de que intervenções importantes não aconteceram antes. A saúde mental precisa ser trabalhada desde cedo, com o mesmo peso que se dá à saúde física e ao desenvolvimento cognitivo”, afirma o psiquiatra.
Muitos sinais de sofrimento na infância passam despercebidos por não se apresentarem de forma clássica. Em crianças menores, o impacto emocional costuma se manifestar por meio de irritabilidade, dificuldades de aprendizagem ou queixas físicas recorrentes. Na adolescência, sem o suporte adequado, esses quadros tendem a se intensificar, evoluindo para comportamentos de risco e autolesão.
O fator digital: uso viciante de telas e o risco de ideação suicida
Além das dinâmicas escolares e familiares, a interface com o mundo digital tornou-se um dos componentes mais desafiadores da atualidade. Dois grandes estudos internacionais publicados recentemente trazem dados contundentes sobre o tema, mudando o foco do debate: o problema central não é o tempo total de tela, mas sim o padrão de uso viciante.
A pediatra Anna Dominguez Bohn ressalta que a atenção deve se voltar para a forma como as plataformas são consumidas.
Durante muito tempo, a gente ficou focado no tempo de tela, mas esses estudos mostram que o ponto central é outro: é como essa tecnologia está sendo usada. Hoje, os desafios são muito mais complexos, porque envolvem diferentes tipos de plataformas e também as características individuais dos jovens”, explica a pediatra.
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Os dados reforçam que os meios digitais evoluíram para se tornarem altamente viciantes, impactando diretamente uma população em plena fase de formação de identidade e busca por pertencimento.
| Estudo / Fonte | Escopo | Principais achados |
| JAMA (2025) | Acompanhou 4.285 jovens (10 a 14 anos) por 4 anos | Uso viciante de redes sociais associa-se a um risco até 2,39 vezes maior de comportamento suicida. 18% dos jovens (quase 1 em cada 5) relataram pensamentos suicidas em um ano. |
| JAMA Pediatrics (2026) | Metanálise de 153 estudos longitudinais (>18 mil jovens de 2 a 19 anos) | Padrão consistente entre uso de redes sociais e piores desfechos: sintomas de depressão, ansiedade, agressividade, autoagressão, pior desempenho escolar e maior uso de substâncias (álcool e cigarro). |
Prevenção e caminhos possíveis
Diante do diagnóstico estrutural e tecnológico, os especialistas apontam que o enfrentamento do problema exige uma ação coordenada entre políticas públicas, ambiente escolar e o núcleo familiar. A educação emocional surge como um pilar indispensável para ensinar crianças e adolescentes a reconhecerem suas emoções, desenvolverem estratégias de regulação e construírem repertórios para lidar com frustrações.
A nova legislação do SUS pavimenta um caminho necessário para estruturar essa rede de apoio. O desenho de linhas de cuidado multidisciplinares — integrando psiquiatria, psicologia, orientação familiar e o ambiente escolar — é apontado como a estratégia mais eficaz para mudar o curso desses indicadores nos próximos anos, garantindo que o desenvolvimento emocional receba a devida atenção desde os primeiros anos de vida.
Com informações da Agência Brasil e Assessorias






