Um dia após a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinar a suspensão das atividades do Discord, diante do suicídio ao vivo de uma adolescente de 13 anos, a SaferNet Brasil protocolou uma representação no órgão responsável por fiscalizar o cumprimento do ECA Digital exigindo a abertura de um procedimento de fiscalização contra o Telegram.
A ação é fundamentada em uma pesquisa inédita que encontrou 1.093 perfis contendo indícios diretos de exploração e violência sexual contra crianças e adolescentes, e 22 estão vinculados à automutilação e incitação ao suicídio.
O estudo “Rostos Fabricados, Danos Reais” revelou ainda que o Telegram tornou-se o principal ambiente para a proliferação de robôs de “nudificação”. As ferramentas baseadas em IA geram deepfakes pornográficos ao remover digitalmente as roupas de fotos comuns de crianças, adolescentes e adultos, sem exigir conhecimento técnico dos usuários.
O levantamento analisou 14.969 endereços únicos da plataforma denunciados entre 2017 e 2026 e revelou que 1.958 links permaneciam ativos e públicos no aplicativo. A apuração constatou um pico histórico de denúncias contra o aplicativo em julho de 2026, sinalizando a ampliação de uma infraestrutura que viabiliza a distribuição e a monetização de conteúdos ilícitos. A varredura identificou ainda uma rede em expansão: a partir dos canais ativos monitorados, outros 468 canais criminosos até então desconhecidos foram descobertos.
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A economia do abuso digital
A denúncia apoia-se no novo arcabouço legal do país, marcado pelo ECA Digital (Lei nº 15.211/2025) e pela recém-sancionada Lei nº 15.487/2026. A nova legislação enquadrou como crime hediondo a criação, administração e hospedagem de ambientes virtuais voltados a abusos contra menores — incluindo materiais gerados por Inteligência Artificial (IA) —, além de prever multas de até R$ 50 milhões para plataformas que falhem na prevenção e remoção desses conteúdos.
A pesquisa disseca a engrenagem financeira que sustenta o mercado clandestino:
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Mecanismos de engajamento: Dinâmicas de uso gratuito, créditos por acesso diário e gamificação facilitam a atração do público jovem;
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Monetização e comissões: Assinaturas recorrentes de baixo valor (de até R$ 50 mensais no Brasil) são cobradas em criptomoedas ou Telegram Stars, moeda interna do aplicativo sobre a qual a própria empresa retém taxa de 15% a 30% em cada transação;
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Ocultação de identidade: O uso de sites paralelos de recarga que exigem apenas o nome de usuário impede a checagem de identidade e dificulta o rastreamento do dinheiro pelas autoridades policiais.
Entidades internacionais de proteção à infância — reunidas no manifesto global “Unifying Voices Worldwide: No to Nudify” — cobram o desmantelamento urgente das vias de pagamento que financiam aplicativos voltados à manipulação e exploração de imagens de menores na rede.
Como denunciar conteúdos ilícitos
Ao encontrar qualquer material que envolva exploração sexual infantil, chantagem digital ou incitação à violência no ambiente virtual, a orientação das autoridades é não salvar, não curtir e não compartilhar o conteúdo.
A denúncia pode ser feita de forma anônima, rápida e segura por meio da plataforma oficial da SaferNet Brasil. Os relatórios recebidos são encaminhados diariamente para análise de técnicos do Ministério Público Federal (MPF).




