No mês das tradicionais festas juninas, o Brasil volta os olhos para um problema que acontece, na maioria das vezes, dentro de casa — e que pode ter consequências graves: as queimaduras. O mês é marcado pela campanha Junho Laranja, em alusão ao Dia Nacional de Luta Contra Queimaduras, acidente que representa um grave problema de saúde pública no Brasil.

Dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ) indicam que, no Brasil, 1 milhão de pessoas sofre queimaduras, sendo que cerca de 70% ocorrem dentro de casa. Segundo dados da SBQ e do Ministério da Saúde, cerca de 400 mil crianças sofrem queimaduras todos os anos no Brasil.

Dentre elas, pelo menos 150 mil procuram atendimento hospitalar, segundo dados que abrangem o período de 2011 a 2019. Desse total, aproximadamente 30 mil precisam de internação hospitalar.  Entre as vítimas mais frequentes estão as crianças de 0 a 5 anos, faixa etária que concentra a maior parte dos atendimentos nos hospitais.

Cerca de 30% a 40% são crianças, atingidas quase sempre por escaldadura – água, comida quente. Em geral, a situação mais perigosa envolvendo queimaduras está relacionadas ao uso do álcool no momento em que as pessoas acendem churrasqueiras e fogueiras.

A venda de álcool líquido 70% voltou a ser proibida no Brasil, conforme determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Sua comercialização era proibida há mais de 20 anos por causa da sua alta inflamabilidade, mas foi flexibilizada pela agência com a pandemia da Covid-19.

Condutas inadequadas podem agravar lesões e aumentar riscos de complicações

Uma distração na cozinha, o contato com líquidos superaquecidos ou até hábitos considerados inofensivos podem provocar acidentes com consequências graves. Por isso, especialistas chamam atenção para uma realidade que se repete diariamente: grande parte dos casos poderia ser evitada com informação, prevenção e atendimento adequado nos primeiros minutos após a lesão.

As queimaduras estão entre os acidentes mais frequentes e podem ocorrer por diferentes causas, como fogo, líquidos quentes, vapor, eletricidade, agentes químicos e exposição excessiva ao sol. Apesar de acontecerem em diferentes ambientes, boa parte dos casos ocorre dentro de casa, especialmente na cozinha, e atinge principalmente crianças e idosos, considerados grupos mais vulneráveis.

Especialista da Vuelo Pharma, empresa brasileira que desenvolve tecnologias para o tratamento de feridas, a enfermeira Andrezza Barreto destaca que os primeiros cuidados podem ser decisivos para reduzir danos e contribuir para uma recuperação mais adequada.

A queimadura não deve ser encarada como um acidente simples. Dependendo da profundidade e extensão da lesão, ela pode gerar complicações importantes, aumentar o risco de infecções e deixar sequelas físicas e emocionais. Por isso, a orientação correta desde os primeiros minutos faz diferença”, afirma.

Entre os erros mais comuns após acidentes estão práticas caseiras ainda bastante difundidas, como aplicar pasta de dente, manteiga, pó de café, óleo ou gelo diretamente sobre a área afetada. Segundo a especialista, essas medidas podem agravar o quadro e dificultar o tratamento.

A primeira orientação é resfriar a região atingida com água corrente em temperatura ambiente por alguns minutos. Depois disso, é importante procurar avaliação profissional, especialmente em casos mais extensos ou em regiões sensíveis do corpo”, explica.

Segundo a especialista, quando a cicatrização ocorre em um ambiente inadequado, marcado por ressecamento, contaminação ou atrito constante, o organismo pode produzir colágeno de forma desorganizada. Esse processo favorece o surgimento de cicatrizes hipertróficas, retrações da pele e limitações funcionais, sobretudo em áreas com maior movimentação, como mãos, braços, joelhos ou ombros.

Além dos primeiros socorros, a prevenção continua sendo a principal ferramenta para reduzir acidentes. Manter cabos de panelas voltados para a parte interna do fogão, evitar o manuseio de líquidos quentes próximo a crianças, ter atenção ao uso de álcool e produtos inflamáveis e redobrar cuidados com equipamentos elétricos são medidas simples que ajudam a reduzir riscos.

Cirurgia plástica exerce papel fundamental na autoestima do paciente com queimaduras

Cirurgião plástico aponta as técnicas mais recentes disponíveis e de que forma elas ajudam na qualidade de vida após o acidente

Entre as discussões sobre o tema, as possibilidades de tratamentos após acidentes que ocasionam lesões emergem como uma esperança para melhorar a qualidade de vida dos pacientes. A cirurgia plástica assume, então, papel importante no tratamento não apenas para recuperar a estética da região acometida pela queimadura, mas também contribui para a funcionalidade da região e para a saúde psicológica das vítimas de queimaduras.

Em geral, as lesões podem ser causadas por calor, produtos químicos, eletricidade ou radiação e podem penetrar na pele em diferentes níveis, ocasionando queimaduras de primeiro, segundo ou terceiro graus.

Especialistas da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica falam sobre cuidados pós queimaduras, uma vez que o cirurgião plástico desempenha um papel crucial no tratamento de queimaduras, ajudando os pacientes a se recuperarem tanto funcional quanto esteticamente após lesões graves na pele. Segundo o cirurgião plástico Fabio Nahas, professor da Unifesp e diretor científico Internacional da SBCP, os métodos de tratamento variam conforme a gravidade e extensão da queimadura.

Os procedimentos mais realizados incluem enxertos de pele, retalhos e técnicas mais recentes, como enxerto de gordura do próprio paciente, em que a capacidade regenerativa das células-tronco atuam na melhoria da elasticidade da cicatriz”, afirma o médico.

O momento ideal para iniciar a cirurgia reparadora varia de paciente para paciente – isso vai depender da gravidade da queimadura e da região do corpo afetada. Nahas alerta que, em áreas em que a função é imediatamente comprometida, como pálpebras que não fecham adequadamente, as intervenções assumem um caráter mais urgente. Em outros casos, pode-se esperar entre três a seis meses após o acidente para que o paciente se recupere e melhore seu estado nutricional, o que é crucial para a recuperação pós-operatória.

É possível realizar esse tipo de cirurgia pelo SUS?

No Brasil, é possível realizar algumas cirurgias plásticas reparadoras pelo Sistema Único de Saúde (SUS), um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo e que atende a milhões de brasileiros em diversos serviços. Se a finalidade não for somente estética, como no caso de cirurgias de reparação de pele após queimaduras, é possível que o sistema cubra o procedimento. O intuito da cirurgia precisa ser a melhora na qualidade de vida e no bem-estar do paciente.

Além disso, é necessária uma indicação médica formal, comprovando que a pessoa deve passar pela cirurgia por estar com sua saúde física ou psicológica comprometida.

Crianças também podem realizar este tipo de intervenção

Em acidentes envolvendo crianças, também é possível realizar a cirurgia plástica reparadora, especialmente nos casos em que a função das articulações ou outras áreas importantes são comprometidas. Nesses casos, procedimentos em idade precoce podem prevenir prejuízos a longo prazo.

Dependendo da gravidade da queimadura, a criança pode apresentar diminuição na mobilização de uma articulação e, se não for tratada, não terá a extensão adequada dessa articulação no futuro, por isso é essencial que o tratamento da lesão seja realizado ainda em fase de desenvolvimento. Assim, há chances de minimizar o impacto que uma cicatriz pode trazer em suas vidas, inclusive emocionais”, destaca o cirurgião plástico.

Seja para pacientes na fase adulta ou ainda na infância, existe hoje um arsenal técnico capaz de conferir uma melhora significativa na qualidade de vida das pessoas afetadas por um acidente que ajuda a alterar forma, função e estética. A cirurgia plástica surge, assim, como uma grande aliada na recuperação física e emocional.

Saiba o que fazer em caso de queimaduras e quando procurar atendimento especializado

As queimaduras podem causar dor intensa, internações prolongadas e sequelas importantes — tudo depende da profundidade da lesão, que varia do 1º grau (mais superficial) ao 3º grau (mais grave). Estudos mostram que 77% dos acidentes com queimaduras acontecem dentro de casa e que 40% das vítimas são crianças com até 10 anos de idade. Os principais agentes causadores são:

  • Álcool e combustíveis
  • Choques elétricos
  • Chamas diretas
  • Óleo e superfícies superaquecidas
  • Produtos químicos
  • Fogos de artifício

Dicas simples para evitar queimaduras em casa

Segundo Pedro Henrique Ferreira Alves, gerente médico do Centro de Trauma do Hospital Nipo-Brasileiro (HNIPO), é essencial adotar cuidados rotineiros:

✔Mantenha instalações elétricas em boas condições

✔Evite o uso de álcool próximo ao fogo

✔Não fume dentro de casa

✔Verifique vazamentos de gás regularmente

✔Mantenha crianças afastadas do fogão e objetos quentes

✔Não jogue água sobre óleo quente

✔ Use com cuidado chapinhas, secadores e outros utensílios aquecidos

 

Primeiros socorros: o que fazer na hora

  • Não aplique pasta de dente, manteiga, pó de café ou gelo.
  • Lave imediatamente a área afetada com água corrente em temperatura ambiente por pelo menos 10 minutos. Em seguida, cubra com compressas frias e limpas.
  • Em queimaduras de maior extensão ou profundidade, procure imediatamente um centro especializado.
  • Evite furar bolhas ou remover tecidos grudados à pele — isso aumenta o risco de infecção e pode prejudicar a recuperação.

O acompanhamento em centros especializados em queimaduras é fundamental para avaliar a gravidade da lesão, definir o melhor plano terapêutico e reduzir o risco de sequelas funcionais e estéticas. O cuidado especializado pode fazer toda a diferença na recuperação.

Mais do que marcar uma data no calendário, o Dia Nacional da Luta Contra Queimaduras busca ampliar a conscientização sobre um problema que afeta milhares de pessoas todos os anos e reforça que informação e prevenção continuam sendo as melhores formas de cuidado.

Com Assessorias

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