A puberdade é um período de inúmeras transformações, sendo a primeira menstruação uma das mais importantes para as meninas. A menarca pode acontecer entre 10 e 14 anos de idade e depende de fatores hormonais, do histórico menstrual das mulheres na família, da alimentação e do estilo de vida.
Contudo, embora seja um processo natural para qualquer jovem mulher, a menstruação é cercada de desinformação e tabus que podem levar a uma ausência de diálogo e reforçar desconfortos, especialmente durante os anos escolares.
Apenas uma pequena parcela das meninas se sente bem informada quando chega a primeira menstruação. A desinformação, associada à falta de acesso a instalações e produtos de higiene pessoal, gera desconforto e até bullying, fatores que podem excluir as meninas de suas atividades escolares”, analisa Patrick Bellelis, ginecologista especializado em endometriose e colaborador do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
Informação clara e acompanhamento gradual ajudam adolescentes e famílias a viverem a menarca com tranquilidade, segurança e orientação adequada
A primeira menstruação, chamada de menarca, costuma ocorrer entre 10 e 16 anos, com média de 12,4 anos, e frequentemente vem acompanhada de dúvidas práticas e emocionais, desde como se preparar para o primeiro sangramento até como entender as mudanças que surgem nos meses seguintes.
Nesse período, muitas famílias percebem que, além do acompanhamento pediátrico, é recomendado iniciar gradualmente a transição para o ginecologista, não como uma “troca” imediata, mas como ampliação do cuidado e construção de vínculo com o especialista que orientará a saúde menstrual e reprodutiva ao longo da adolescência.
Segundo o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), a primeira consulta de saúde reprodutiva deve acontecer entre 13 e 15 anos, mesmo na ausência de queixas, com foco em orientação, prevenção e acolhimento. Trata-se de uma visita predominantemente conversada, voltada à educação em saúde, e que na maioria dos casos não exige exame ginecológico interno, algo que reduz a ansiedade e torna o atendimento mais confortável para a adolescente.
A consulta inicial não precisa ser um momento de medo. É um espaço de escuta e orientação, para que a adolescente compreenda o próprio corpo, tire dúvidas e aprenda a reconhecer sinais de alerta”, explica Rodrigo Nogueira, ginecologista e obstetra do Grupo Santa Joana e responsável técnico do Hospital e Maternidade Santa Maria.
Nos primeiros anos após a menarca, é comum que o ciclo ainda não seja regular. O ACOG descreve que, nessa fase inicial, os intervalos podem variar e frequentemente ficam entre 21 e 45 dias, conforme o organismo amadurece. Cólica leve a moderada pode aparecer, assim como pequenas oscilações no fluxo; por isso, conversar antes sobre higiene, escolha de absorventes, troca adequada e registro do calendário menstrual ajuda a adolescente a se sentir mais segura e menos surpresa. “Quando a informação chega antes da primeira menstruação, a menina costuma viver esse marco com mais tranquilidade, e a família consegue apoiar sem tabus, com naturalidade”, afirma o médico.
Ainda que variações sejam esperadas, alguns sinais merecem avaliação mais cedo, seja com o pediatra, seja com o ginecologista: menstruação muito precoce (antes dos 8 anos), ausência de menarca após os 15 anos, sangramento excessivo (como troca de absorvente a cada 1–2 horas), ciclos que duram mais de sete dias, dor incapacitante que impede atividades escolares ou sociais, ou sintomas que impactem sono e rotina.
Nesses casos, a consulta deixa de ser apenas educativa e passa a ser uma oportunidade de investigar e tratar desconfortos que, muitas vezes, são normalizados sem necessidade. “O recado é não minimizar sofrimento. Se a dor derruba, se o fluxo limita o dia a dia ou se há sinais fora do padrão, vale procurar avaliação. Quanto mais cedo, melhor”, orienta Dr. Rodrigo.
A integração entre pediatria e ginecologia, de forma complementar e não substitutiva, oferece à adolescente um acompanhamento contínuo, com linguagem adequada para a fase e um espaço seguro para falar sobre mudanças do corpo, ciclo, autocuidado e prevenção. Assim, a menarca deixa de ser um evento isolado e passa a marcar o início de uma etapa estruturada de educação em saúde, que fortalece autonomia, bem-estar e confiança.
Primeiros sinais
Os sintomas da chegada da menstruação podem ser percebidos nos dias, semanas ou meses que antecedem a menarca. Devido às alterações hormonais, os seios começam a crescer, surgem os pelos pubianos e secreção vaginal branca ou amarelada. Outras mudanças possíveis são aumento dos quadris, ganho de peso, surgimento de espinhas e até alterações de humor leves.
Após a primeira menstruação, é normal que as meninas tenham cólicas menstruais ou dores na região abdominal, que podem irradiar para as costas e pernas e são conhecidas como dismenorreias primárias. “A cólica é causada pela contração da musculatura do útero e pode gerar desde um mal-estar leve até uma dor mais intensa, que também pode impedir a menina de ir à escola”, analisa o Dr. Patrick Bellelis.
Menstruação precoce ou tardia exige acompanhamento médico
As meninas também podem encontrar outros problemas quando o assunto é menstruação. Quando crianças com oito anos ou menos têm seu primeiro período menstrual, significa que elas estão passando pela puberdade precoce, uma condição que acelera o processo de amadurecimento do corpo da criança.
Com a menstruação precoce, a menina pode observar o crescimento das mamas, pelos pubianos e nas axilas, surgimento de acne e até um odor corporal adulto. Além de a puberdade precoce levar a outros problemas de saúde futuros, as meninas podem sofrer problemas emocionais causados pela sensação de desajuste ao se sentirem diferentes das outras crianças.
O contrário também pode acontecer. Meninas que começam a menstruar depois dos 15 anos podem sofrer de uma condição conhecida como amenorreia primária, que afeta meninas e mulheres que produzem estrogênio em níveis mais baixos.
A menstruação faz parte da vida e não deve causar qualquer preocupação ou constrangimento para a menina. Se uma jovem perceber que a menstruação está interferindo em sua capacidade para ir à escola ou fazer qualquer outra atividade cotidiana, é importante que procure um médico”, finaliza o Dr. Patrick Bellelis.




