Além dos resultados específicos de cada estudo, a ASCO 2026 consolidou tendências que vêm se fortalecendo nos últimos anos. Entre elas está a transição de uma Oncologia baseada predominantemente no órgão de origem do tumor para uma abordagem cada vez mais orientada pelas características biológicas da doença. A ASCO mostra que os testes genômicos, perfilagem molecular e biomarcadores tornam-se ferramentas centrais para definir estratégias terapêuticas.
Os estudos apresentados mostraram que decisões sobre uso de quimioterapia, terapia-alvo e imunoterapia dependem cada vez mais da identificação de alterações específicas presentes no tumor. Essa mudança permite direcionar tratamentos para pacientes com maior probabilidade de benefício e reduzir a exposição a toxicidades desnecessárias.
Outra tendência destacada ao longo do congresso foi a expansão de terapias-alvo e imunoterapias para fases mais precoces da doença. Medicamentos inicialmente utilizados em cenários avançados passam a ser avaliados antes da cirurgia ou após procedimentos com intenção curativa, com o objetivo de aumentar as chances de controle prolongado e, potencialmente, de cura.
Também ganharam espaço discussões sobre inteligência artificial, patologia digital, análise de grandes bases de dados e perfilagem multiômica, tecnologias que vêm sendo incorporadas gradualmente aos processos de diagnóstico, estratificação de risco e planejamento terapêutico.
Estamos vendo o amadurecimento de uma oncologia de precisão, onde o perfil genético do tumor define uma rota mais eficaz e com menos toxicidade”, avalia o urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR).
Para o especialista, que coordena os departamentos cirúrgicos oncológicos e da Medicina Genômica da BP — A Beneficência Portuguesa de São Paulo, a principal mensagem do encontro foi o avanço de uma assistência orientada pela biologia molecular e pela participação ativa do paciente nas decisões clínicas.
O paciente no centro da decisão
Se a medicina de precisão foi um dos principais temas científicos da ASCO 2026, a participação dos pacientes nas decisões terapêuticas também foi um dos temas centrais do congresso sob a perspectiva assistencial. “Mais do que um conjunto de resultados, a ASCO 2026 reforçou que a decisão terapêutica tende a ser cada vez mais compartilhada, com o paciente como participante ativo e não apenas receptor do tratamento
Ainda segundo o especialista, que coordena os departamentos cirúrgicos oncológicos e de medicina genômica da BP, essa mudança pode ser observada em diferentes frentes. Uma delas é o fortalecimento de iniciativas de advocacy e participação de pacientes dentro do próprio congresso. Outra é a crescente valorização de desfechos relacionados à qualidade de vida e à tolerabilidade dos tratamentos.
A discussão, complementa Guimarães, parte do reconhecimento de que os objetivos dos médicos nem sempre são idênticos aos objetivos dos pacientes. Enquanto o profissional pode priorizar ganhos de sobrevida, muitas pessoas valorizam igualmente aspectos relacionados ao bem-estar, à autonomia e à capacidade de manter suas atividades cotidianas.
Nesse contexto, compreender preferências individuais, condições clínicas associadas e expectativas pessoais passa a ser parte fundamental da construção das estratégias terapêuticas.
Comunicação aberta entre pacientes e equipes
Outro tema debatido durante o encontro foi a importância da comunicação aberta entre pacientes e equipes de saúde. Especialistas destacaram que alguns pacientes deixam de relatar sintomas por receio de interromper tratamentos ou perder acesso a determinadas terapias, o que pode comprometer o cuidado.
Na avaliação de Gustavo Guimarães, que esteve presente na ASCO, a mensagem final do evento é que a inovação em oncologia não está apenas no desenvolvimento de novos medicamentos, mas também na forma como as decisões são tomadas.
Para ele, os resultados apresentados em Chicago mostram que a oncologia caminha para um modelo em que a compreensão da biologia do tumor, o uso racional das tecnologias disponíveis e a participação ativa dos pacientes se tornam elementos inseparáveis.
Com Assessorias




