O lutador profissional Antônio Carlos, mais conhecido como “Cara de Sapato”, revelou durante sua participação no Big Brother Brasil 2023 que foi diagnosticado, aos 7 anos, com a Síndrome de Tourette. Essa condição que causa tiques incontroláveis ainda é cercada por muita desinformação, estigma e constrangimento, já que durante as crises, os pacientes podem verbalizar palavrões e ofensas sem querer.
De lá pra cá, o distúrbio neurológico caracterizado por movimentos súbitos, repetitivos, rápidos, indesejados ou vocalizações vem ganhando espaço nas redes sociais, principalmente com relatos de pessoas que convivem com esse desconforto. O Dia da Síndrome de Tourette, lembrado neste 7 de junho, confirma a importância de falar dessa condição rara.
A Ciência vem se debruçando em tentar explicar a síndrome de Tourette. Um estudo da Mayo Clinic – divulgado em abril de 2025 descobriu que pessoas com essa condição com possuem cerca da metade de um tipo específico de célula cerebral responsável por acalmar os sinais de movimento hiperativo, em comparação com pessoas sem a condição.
Esse déficit pode ser uma razão crucial pela qual os sinais motores não são controlados adequadamente, levando aos tiques involuntários que caracterizam o transtorno. O estudo, publicado na Biological Psychiatry, é o primeiro a analisar células cerebrais individuais de pessoas com a síndrome de Tourette. As descobertas também ajudam a esclarecer como diferentes tipos de células cerebrais podem interagir de formas que contribuem para os sintomas da síndrome.
Essa pesquisa pode ajudar a estabelecer as bases para uma nova geração de tratamentos,” diz o Ph. D. Alexej Abyzov, cientista especializado em genômica no Centro de Medicina Personalizada da Mayo Clinic e coautor do estudo. “Se conseguirmos entender como essas células cerebrais são alteradas e como interagem entre si, talvez possamos intervir mais cedo e de forma mais precisa.”
Como os neurônios funcionam no Tourette
Para entender melhor o que acontece no cérebro de pessoas com síndrome de Tourette, o Dr. Abyzov e sua equipe analisaram mais de 43 mil células individuais do tecido cerebral post mortem de pessoas com e sem a condição. Eles se concentraram nos gânglios da base, uma região do cérebro que ajuda a controlar o movimento e o comportamento. Em cada célula, os pesquisadores observaram como os genes estavam funcionando e também analisaram como alterações nos sistemas de controle genético do cérebro poderiam desencadear respostas de estresse e inflamatórias.
Primeiramente, os pesquisadores encontraram, em pessoas com a síndrome de Tourette, uma redução de 50% nos interneurônios, que são células cerebrais responsáveis por acalmar os sinais em excesso nos circuitos de movimento do cérebro. Eles também observaram respostas de estresse em dois outros tipos de células cerebrais.
Os neurônios espinhosos médios, que constituem a maior parte das células dos gânglios da base e ajudam a enviar sinais de movimento, apresentaram redução na produção de energia. As micróglias, células do sistema imunológico do cérebro, apresentaram inflamação. As duas respostas estavam intimamente ligadas, sugerindo que as células podem estar interagindo na síndrome de Tourette.
Estamos vendo diferentes tipos de células cerebrais reagindo ao estresse e, possivelmente, se comunicando entre si de maneiras que podem estar impulsionando os sintomas,” afirma a Ph. D. Yifan Wang, coautora do estudo.
Coordenação dos genes funcionais
O estudo também fornece evidências de que a causa subjacente das alterações nas células cerebrais na síndrome de Tourette pode estar ligada a partes do DNA que controlam quando os genes são ativados ou desativados.
Os pacientes com Tourette parecem ter os mesmos genes funcionais que todas as outras pessoas, mas a coordenação entre eles está afetada,” explica o Dr. Abyzov.
Como próximo passo, os pesquisadores planejam estudar como essas alterações cerebrais se desenvolvem ao longo do tempo e investigar fatores genéticos que possam ajudar a explicar o transtorno.
O estudo foi conduzido em colaboração com o laboratório da Dra. Flora M. Vaccarino, da Universidade de Yale. Reveja o estudo para uma lista completa de autores, divulgações e financiamento.
Tiques motores e vocais na infância: como identificar a Síndrome de Tourette
Especialista explica características, causas, grupos de maior risco e opções de tratamento do transtorno neurológico
A síndrome de Tourette é uma condição do neurodesenvolvimento que geralmente se inicia na infância. Ela causa movimentos e vocalizações repetitivos e involuntários, como piscar os olhos, pigarro ou caretas. Embora estudos genéticos já tenham identificado alguns genes de risco, os mecanismos biológicos por trás da condição ainda não estavam claros.
Esse transtorno do neurodesenvolvimento é marcado por múltiplos tiques motores e ao menos um tique vocal, com início antes dos 18 anos e duração superior a um ano. Os tiques são movimentos ou sons involuntários, rápidos e repetitivos, muitas vezes precedidos por uma sensação de urgência que alivia após a execução”, explica a neurologista da Hapvida, Sara Martinelli.
A origem da condição envolve forte influência genética associada a fatores ambientais e alterações em circuitos cerebrais ligados ao controle dos movimentos. Alguns grupos apresentam maior risco, especialmente crianças e adolescentes, com prevalência de três a quatro vezes maior em meninos. A síndrome também é mais frequente em pessoas com ansiedade, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).
Sinais e sintomas
Os primeiros sinais geralmente aparecem entre 5 e 7 anos, começando por tiques motores simples, como um piscar excessivo. A intensidade costuma atingir o pico na pré-adolescência e tende a diminuir progressivamente na vida adulta.
Os chamados tiques podem ser simples, como caretas, movimentos de cabeça ou sons isolados, ou complexos, que envolvem sequências mais elaboradas. A coprolalia, emissão de palavras socialmente inadequadas, ocorre apenas em uma minoria dos pacientes.
O diagnóstico é essencialmente clínico. Avaliamos a história do paciente, os sinais apresentados e os critérios descritos no DSM-V. Exames complementares só são necessários quando precisamos descartar outras causas para os distúrbios do movimento”, explica a profissional.
Tratamento deve envolver toda a família
Segundo a especialista, o tratamento é individualizado e direcionado para a qualidade de vida, incluindo terapias comportamentais, psicoterapia, terapia ocupacional e, quando necessário, medicamentos que atuam nas vias de neurotransmissores relacionados ao controle motor.
Em casos raros e mais graves, quando o tratamento convencional não traz a resposta esperada, a estimulação cerebral profunda pode ser considerada como alternativa terapêutica”, finaliza.
Sara Martinelli reforça a importância da informação e do acolhimento para pessoas com esta condição. Segundo ela, a união entre família e escola são fundamentais para uma melhor qualidade de vida.
Educar a família e a escola é parte fundamental do cuidado. Quando o ambiente entende o que está acontecendo, a criança ou adolescente se sente acolhido e os resultados são melhores. O acompanhamento multidisciplinar adequado faz toda a diferença. Já avançamos muito na compreensão da síndrome, mas ainda precisamos fortalecer fluxos de atendimento e ampliar o acesso a profissionais capacitados”, comenta.
Com Assessorias




