O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de 80 anos, iniciou, nesta semana, um tratamento complementar de radioterapia superficial no couro cabeludo, no Hospital Sírio-Libanês, em Brasília. O procedimento ocorre após a cirurgia realizada em 24 de abril para a retirada de um carcinoma basocelular — o tipo mais frequente e menos agressivo de câncer de pele. À época, a intervenção transcorreu sem intercorrências e o presidente recebeu alta no mesmo dia.

A indicação médica tem caráter preventivo (adjuvante) e visa garantir o controle local da doença. Segundo informações do Palácio do Planalto, o tratamento consistirá em 15 sessões distribuídas ao longo de três semanas, com duração aproximada de apenas dois minutos cada.

Como a intervenção é localizada e de baixa penetração na pele, a equipe médica informou que não há previsão de efeitos colaterais debilitantes, o que permite ao presidente mantersuas atividades diárias e compromissos oficiais sem restrições. Logo após a primeira sessão, Lula manteve sua agenda no Palácio do Planalto, incluindo um evento com representantes de países africanos.

O boletim médico oficial foi assinado pelo diretor de Governança Clínica do hospital, Rafael Gadia, e pelo diretor clínico, Volney Vilela.. Os cuidados do mandatário continuam sob a coordenação das equipes médicas lideradas pelo cardiologista Roberto Kalil Filho e pela médica Ana Helena Germoglio.

O que é o carcinoma basocelular e por que fazer radioterapia?

DO carcinoma basocelular origina-se nas células basais, localizadas na camada mais profunda da epiderme.  Diferente do melanoma — que surge nos melanócitos (células produtoras de melanina), possui alto potencial de metástase e é considerado o tipo mais letal —, o carcinoma basocelular apresenta crescimento lento e localizado, com raríssimas chances de se espalhar para outros órgãos.

e acordo com a Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), a radioterapia desempenha um papel fundamental na oncologia cutânea, podendo ser utilizada tanto de forma isolada quanto combinada à cirurgia.

Mesmo com o bom prognóstico e após o laudo da biópsia confirmar a retirada da lesão, a radioterapia complementar pode ser recomendada pelos médicos em cenários específicos. O objetivo principal é destruir possíveis células tumorais microscópicas que tenham restado na região operada.

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O médico Wilson José de Almeida Jr., presidente da SBRT, esclarece o impacto da terapia adjuvante:

Há muitos casos em que a cirurgia não é indicada pela localização do tumor, como em regiões da face onde o procedimento pode comprometer a estética ou trazer riscos de déficit motor. Além disso, a radioterapia é utilizada em combinação com a cirurgia para aumentar o controle local, principalmente quando existem margens positivas ou milimétricas, ou em tumores mais profundos.”

Em casos em que o tumor começa a avançar ao redor dos nervos, o risco de a doença retornar pode variar de 30% a 50% sem o tratamento complementar. Com a associação da radioterapia pós-cirúrgica, as taxas de controle local e cura saltam para uma média entre 80% e 90%.

As tecnologias modernas de tratamento e precisão

A evolução tecnológica permite que a radiação seja aplicada com extrema precisão na superfície da derme e da epiderme. Aparelhos modernos com aceleradores lineares de elétrons conseguem concentrar a dose exatamente sobre a área da lesão. No caso do tratamento do couro cabeludo, por exemplo, isso garante que apenas a pele seja tratada, sem irradiar estruturas internas e profundas, como o cérebro.

Entre as principais modalidades utilizadas na oncologia cutânea atual, destacam-se:

  • Radioterapia Adjuvante: Utilizada após a cirurgia para prevenir a recorrência local de tumores.

  • Braquiterapia: Técnica em que a fonte de radiação é colocada em contato direto ou muito próxima à lesão, ideal para áreas superficiais.

  • IMRT (Radioterapia com Modulação de Intensidade do Feixe): Minimiza a exposição dos tecidos saudáveis ao redor da área afetada.

  • IGRT (Radioterapia Guiada por Imagem): Utiliza exames em tempo real para direcionar os feixes de radiação com precisão milimétrica.

  • SBRT (Radioterapia Estereotáxica Corporal): Aplica altas doses de radiação em poucas sessões, muito utilizada no tratamento de metástases em casos avançados de melanoma.

Cirurgia de Mohs é o padrão-ouro em casos de alto risco, orienta SBD

Em virtude da repercussão do caso do presidente, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), por meio do seu Departamento de Cirurgia Micrográfica, divulgou um alerta com orientações sobre as condutas recomendadas para o carcinoma basocelular. A entidade reforça que a cirurgia convencional continua sendo o tratamento mais eficaz, buscando a remoção completa da lesão com a máxima preservação estética e funcional.

No entanto, para casos de maior risco — como tumores agressivos, recidivas (lesões que voltaram após tratamentos anteriores) ou localizados em áreas nobres como cabeça e rosto —, a Cirurgia Micrográfica de Mohs é classificada pela entidade como o padrão-ouro de tratamento.

Essa técnica permite examinar 100% das margens do tumor em um microscópio durante o próprio ato cirúrgico. O procedimento assegura que o câncer foi totalmente removido antes de fechar a ferida, poupando o máximo de tecido saudável ao redor e alcançando taxas de cura próximas a 99% em tumores iniciais.

A SBD corrobora que a radioterapia atua como uma importante aliada em cenários individualizados: seja como indicação principal para pacientes com contraindicações clínicas para operar ou de forma adjuvante para complementar a cirurgia (quando há risco de células remanescentes ou comprometimento de estruturas próximas aos nervos). Casos complexos e de alto risco frequentemente exigem essa abordagem multidisciplina

Casos de câncer de pele avançam no Brasil

O diagnóstico do presidente acende o alerta para as estatísticas de saúde pública no país. Dados oficiais do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam que o câncer de pele não melanoma continua sendo o tumor maligno mais frequente na população, correspondendo a mais de 33% de todos os casos de câncer diagnosticados no Brasil.

Para o triênio de 2026 a 2028, as projeções do instituto apontam para um avanço importante na incidência, com a estimativa de 263.280 novos casos anuais da doença no país.

Especialistas alertam que, embora o carcinoma basocelular apresente altas taxas de cura se tratado precocemente, a negligência aos sinais iniciais pode levar a lesões invasivas. Em estágios avançados, o tumor pode infiltrar tecidos adjacentes, cartilagens e ossos, provocando dores, sangramentos recorrentes e sérios comprometimentos estéticos e funcionais.

O couro cabeludo, devido à exposição contínua aos raios ultravioleta (UV) ao longo da vida — especialmente em pessoas com calvície ou rarefação capilar —, é uma das regiões mais vulneráveis do corpo.

A principal forma de combater o avanço da doença permanece associada à prevenção diária: uso indispensável de protetor solar, proteção mecânica (como chapéus, bonés, óculos escuros e roupas com proteção UV) e a consulta regular ao dermatologista ao notar feridas que não cicatrizam, pintas que mudam de formato ou manchas suspeitas que descamam.

A SBD ressalta que quem já enfrentou um diagnóstico de carcinoma basocelular possui um risco significativamente maior de desenvolver novas lesões cutâneas e deve manter vigilância constante. A prevenção precisa ser um hábito permanente e não apenas restrito à temporada de verão ou às ações da campanha nacional Dezembro Laranja. Os cuidados diários devem incluir o uso de protetor solar…”

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Matéria atualizada em 29/05/26 para incluir o posicionamento oficial da SBD

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