O avanço da ciência na reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), em Chicago, pode e deve ser aplaudido de pé, mas a cobertura da mídia tradicional peca pelo mesmo vício de sempre: exalta o espetáculo da indústria farmacêutica bilionária, mas coloca para debaixo do tapete os avanços e esforços estruturais do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. Parecem esquecer que, ao contrário dos Estados Unidos, onde o acesso a cuidados básicos de saúde é privilégio exclusivo de quem pode pagar contas astronômicas, o Brasil oferece medicina universal.
A questão da equidade no acesso à inovação também apareceu de forma recorrente nas discussões da ASCO. Especialistas debateram estratégias para ampliar o acesso a diagnósticos de precisão e novas terapias em países de média e baixa renda, além dos desafios relacionados à formação de profissionais e ao aumento da incidência de câncer em populações mais jovens.
Paralelamente aos anúncios dos grandes laboratórios internacionais, a programação científica abriu espaço para debates profundos sobre desigualdade social, impacto de fatores socioeconômicos nos desfechos clínicos e o acesso democrático a esses tratamentos.
Nesse cenário, as discussões reforçam que a velocidade da ciência exige um esforço equivalente dos sistemas de saúde pública, como o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, para garantir que as inovações em diagnósticos moleculares e terapias-alvo não fiquem restritas aos grandes centros privados para quem tem acesso à medicina suplementar.
Para Carlos Gil Ferreira, CEO da Oncoclínicas&Co, um dos grandes desafios atuais da oncologia é garantir que os avanços científicos cheguem de forma mais ampla aos pacientes. Segundo ele, o desafio não é mais apenas descobrir novas terapias, é garantir que essas descobertas cheguem ao paciente certo, no momento certo, independentemente de onde ele esteja.
A ASCO nos lembra que vencer o câncer é uma missão coletiva de pesquisadores, médicos, pacientes e sistemas de saúde. Cada dado apresentado em Chicago tem o potencial de mudar uma vida em São Paulo, em Ijuí, em Goiânia, em Aracajú ou em qualquer lugar do Brasil”, conclui o médico oncologista.
É certo que o desafio atual da oncologia não é mais apenas descobrir novas terapias nos laboratórios, mas garantir que elas cheguem ao paciente certo, no momento certo. Mas o que muita gente finge não ver é que o poder público brasileiro tem se mexido de forma robusta para encurtar essa distância.
Em maio, por exemplo, o Governo Federal anunciou um pacote de investimentos de R$ 2,2 bilhões destinado à ampliação do acesso ao tratamento de câncer no Sistema Único de Saúde (SUS). As medidas incluem aumento nos repasses para procedimentos oncológicos, incorporação de novos medicamentos e expansão da cirurgia robótica na rede pública de saúde.
O SUS na era da medicina de precisão
O combate ao câncer exige diagnóstico rápido. No Brasil, o Ministério da Saúde vem mitigando o histórico gargalo de filas por meio do programa Aqui Tem Especialistas. A iniciativa foca na descentralização e redução do tempo de espera para consultas especializadas e exames de alta complexidade — essenciais para o mapeamento genético que define a oncologia de precisão.
Garantir velocidade na fila da rede pública é tão vital quanto os meses de sobrevida que a ciência arranca nos laboratórios internacionais. Para dar suporte a essa agilidade, o governo federal vem estruturando o Super Centro Brasil para Diagnóstico de Câncer, que vai integrar teleconsultorias e acelerar laudos oncológicos, além de expandir a rede de radioterapia com novos aceleradores lineares em todo o país. O objetivo é consolidar o SUS como a maior rede pública de tratamento oncológico do mundo.
Crítica necessária: o papel do terceiro setor e da grande mídia
É comum ver oncologistas de grandes conglomerados privados cobrando, em tom alarmista na televisão, a incorporação imediata de drogas que custam dezenas de milhares de dólares por mês. O que o telespectador comum não sabe é quem financia essas narrativas.
O próprio Instituto Vencer o Câncer (Ivoc), fundado pelos oncologistas Fernando Maluf e Antonio Carlos Buzaid, atua de forma legítima como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) para fomentar pesquisas no Brasil, mas é financiado por parcerias corporativas e multinacionais da indústria farmacêutica, com claros interesses comerciais: vender mais medicamentos e terapias avançadas para seu principal cliente, o SUS.
Embora essas parcerias do terceiro setor sejam fundamentais para viabilizar projetos como o “Amor à Pesquisa Contra o Câncer no Brasil” — que leva protocolos avançados a hospitais públicos —, cabe ao jornalismo independente lembrar que a indústria visa ao lucro. O papel do Estado é regular e garantir a equidade.
A trajetória de novas drogas exige cautela regulatória na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e análises criteriosas de custo-efetividade. No caso do câncer de pâncreas — que segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca) registra mais de 13 mil novos casos anuais no Brasil e é diagnosticado 80% das vezes já em estágio metastático —, a verdadeira inovação que salva vidas não é a pílula de importação individual desordenada, mas a política pública estruturada.
Para o VIDA E AÇÃO, o futuro da oncologia é promissor, mas o verdadeiro sucesso da ciência não reside em recordes de faturamento de laboratórios em Chicago. Ele se consolida quando as inovações chegam às farmácias públicas e aos braços de quem mais precisa. Viva a ciência brasileira, viva o jornalismo focado no paciente e, acima de tudo, viva o SUS.
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