O avanço da ciência na reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), em Chicago, pode e deve ser aplaudido de pé, mas a cobertura da mídia tradicional peca pelo mesmo vício de sempre: exalta o espetáculo da indústria farmacêutica bilionária, mas coloca para debaixo do tapete os avanços e esforços estruturais do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil.
Especialistas de grandes conglomerados de Oncologia no Brasil ou que atuam a serviço de grandes multinacionais farmacêuticas cobram que as últimas inovações no combate ao câncer cheguem logo ao SUS. Parecem esquecer que, ao contrário dos Estados Unidos, onde o acesso a cuidados básicos de saúde é privilégio exclusivo de quem pode pagar contas astronômicas, o Brasil oferece medicina universal.
Enquanto grandes conglomerados e a imprensa cobram pressa, políticas públicas estruturais e programas federais aceleram o combate ao câncer na rede pública. Cada vez mais, a população tem acesso á medicina de ponta por um sistema público e universal de assistência: o nosso SUS.
Apesar disso, a chamada mídia comercial é generosa em cobrar cada vez mais do poder público, colocando seus feitos positivos para debaixo do tapete. Na cobertura da mídia tradicional sobre o principal congresso mundial de Oncologia, nenhuma palavra ou menção é feita reconhecendo aos recentes esforços do governo federal para ampliar o acesso dos brasileiros a tratamentos de ponta contra o câncer, antes disponíveis no Brasil apenas para quem pode pagar muito caro por eles.
O desafio do acesso e os avanços na oncologia do SUS
No programa Fantástico, da Rede Globo, Dráuzio Varela entrevista Fernando Maluf, um das principais referências do Brasil na Oncologia e cofundador e presidente do Instituto Vencer o Câncer. Maluf defende, entre outras bandeiras, a implementação de centros de pesquisa clínica voltados à descoberta de novos medicamentos no Brasil.
Embora a descoberta de uma nova medicação para câncer de pâncreas metastático represente uma revolução científica, a realidade dos pacientes que dependem da saúde pública no Brasil esbarra no tempo de espera pelo diagnóstico e pelo início do tratamento.
Na reportagem exibida na TV, a discussão focou no avanço clínico e e laboratorial da nova pílula, cobrando a urgência de trazer novas tecnologias como esta para o Brasil, mas omitiu os esforços estruturais que vêm sendo implementados no país para acelerar o atendimento oncológico e transformar a realidade de quem vive com câncer.
Leia mais
SUS obtém 87,5% de eficácia em restes com nova terapia para câncer
SUS recebe pacote de R$ 2,2 bi para tratamentos contra o câncer
SUS avalia medicamentos de alto custo para 4 tipos de câncer
Desigualdade no acesso a novas terapias
Paralelamente aos anúncios dos grandes laboratórios internacionais, a programação científica abriu espaço para debates profundos sobre desigualdade social, impacto de fatores socioeconômicos nos desfechos clínicos e o acesso democrático a esses tratamentos.
Assim, a questão da equidade no acesso à inovação apareceu de forma recorrente nas discussões da ASCO. Especialistas debateram estratégias para ampliar o acesso a diagnósticos de precisão e novas terapias em países de média e baixa renda, além dos desafios relacionados à formação de profissionais e ao aumento da incidência de câncer em populações mais jovens.
Para que inovações de ponta façam diferença, o diagnóstico célere e o início rápido do tratamento são fundamentais. Nesse cenário, as discussões reforçam que a velocidade da ciência exige um esforço equivalente dos sistemas de saúde pública, como o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, para garantir que as inovações em diagnósticos moleculares e terapias-alvo não fiquem restritas aos grandes centros privados para quem tem acesso à medicina suplementar.
Para Carlos Gil Ferreira, CEO da Oncoclínicas&Co, um dos grandes desafios atuais da oncologia é garantir que os avanços científicos cheguem de forma mais ampla aos pacientes. Segundo ele, o desafio não é mais apenas descobrir novas terapias, é garantir que essas descobertas cheguem ao paciente certo, no momento certo, independentemente de onde ele esteja.
A Asco nos lembra que vencer o câncer é uma missão coletiva de pesquisadores, médicos, pacientes e sistemas de saúde. Cada dado apresentado em Chicago tem o potencial de mudar uma vida em São Paulo, em Ijuí, em Goiânia, em Aracajú ou em qualquer lugar do Brasil”, conclui o médico oncologista.
O SUS na era da medicina de precisão
O avanço da ciência na ASCO 2026 reafirma que o futuro da oncologia é promissor. No entanto, o verdadeiro sucesso de novas moléculas contra o câncer depende de políticas públicas robustas, assegurando que as inovações em terapias-alvo cheguem o quanto antes às farmácias do SUS e aos braços de quem mais precisa.
O combate ao câncer exige diagnóstico rápido. É certo que o desafio atual da oncologia não é mais apenas descobrir novas terapias nos laboratórios, mas garantir que elas cheguem ao paciente certo, no momento certo. O que muita gente finge não ver é que o poder público brasileiro tem se mexido de forma robusta para encurtar essa distância.
O Ministério da Saúde vem mitigando o histórico gargalo de filas por meio do programa Agora Tem Especialistas. A iniciativa foca justamente na redução de filas para consultas, exames complexos e cirurgias, integrando a rede pública a hospitais filantrópicos e privados credenciados para absorver a demanda reprimida.
A iniciativa foca na descentralização para consultas especializadas e exames de alta complexidade — essenciais para o mapeamento genético que define a oncologia de precisão. Garantir velocidade na fila da rede pública é tão vital quanto os meses de sobrevida que a ciência arranca nos laboratórios internacionais.
Para dar suporte a essa agilidade, o governo federal vem estruturando o Super Centro Brasil para Diagnóstico de Câncer, que vai integrar teleconsultorias e acelerar laudos oncológicos, além de expandir a rede de radioterapia com novos aceleradores lineares em todo o país. O objetivo é consolidar o SUS como a maior rede pública de tratamento oncológico do mundo.
Em maio, por exemplo, o Governo Federal anunciou um pacote de investimentos de R$ 2,2 bilhões destinado à ampliação do acesso ao tratamento de câncer no SUS. As medidas incluem aumento nos repasses para procedimentos oncológicos, incorporação de novos medicamentos e expansão da cirurgia robótica na rede pública de saúde.
Leia também
SUS pode incluir rastreamento para frear avanço do câncer colorretal
SUS avalia inclusão de testes genéticos para câncer de mama
Câncer: nova lei garante acesso à imunoterapia no SUS
Crítica necessária: o papel do terceiro setor e da grande mídia
É comum ver oncologistas de grandes conglomerados privados cobrando, em tom alarmista na televisão, a incorporação imediata de drogas que custam dezenas de milhares de dólares por mês. O que o telespectador comum não sabe é quem financia essas narrativas.
O próprio Instituto Vencer o Câncer (Ivoc), fundado pelos oncologistas Fernando Maluf e Antonio Carlos Buzaid, atua de forma legítima como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) para fomentar pesquisas no Brasil, mas é financiado por parcerias corporativas e multinacionais da indústria farmacêutica, com claros interesses comerciais: vender mais medicamentos e terapias avançadas para seu principal cliente, o SUS.
Embora essas parcerias do terceiro setor sejam fundamentais para viabilizar projetos como o “Amor à Pesquisa Contra o Câncer no Brasil” — que leva protocolos avançados a hospitais públicos —, cabe ao jornalismo independente lembrar que a indústria visa ao lucro. O papel do Estado é regular e garantir a equidade.
Leia ainda
SUS adota novo exame de fezes para rastrear câncer colorretal
SUS amplia tecnologia para tratamento de câncer infantil
Câncer de pulmão: novo exame no SUS poderá reduzir mortes em 38%
Pílula contra o câncer de pâncreas metastático no SUS?
A Asco 2026 trouxe uma revolução para o tratamento do câncer de pâncreas metastático. O daraxonrasibe, uma pílula de uso diário voltada para tumores com a mutação da proteína KRAS, ganhou os holofotes da mídia comercial e foi aplaudido de pé por mais de 15 mil oncologistas.
A descoberta de uma nova medicação que pode praticamente dobrar a sobrevida de pacientes é considerada um marco divisor de águas, já que a taxa de sobrevida em cinco anos para o câncer de pâncreas metastático ainda gira em torno de apenas 3%.
O assunto ganhou enorme repercussão também no Brasil, que registra mais de 13 mil novos casos anuais da doença, diagnosticada 80% das vezes já em estágio avançado, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca).
O futuro para o câncer no Brasil é promissor, mas não se define em Chicago
Essa evolução dialoga diretamente com outras frentes da oncologia que temos acompanhado no especial Câncer Tem Cura:
- A urgência de otimizar os recursos públicos e focar em tratamentos eficazes ficou evidente no estudo que provou que o exercício físico supervisionado reduz em 37% o risco de morte no câncer de intestino, gerando economia real a longo prazo para os cofres da saúde pública.
- A busca por tratamentos menos tóxicos e mais individualizados também avançou com a descoberta de que testes genômicos podem poupar mulheres de quimioterapia desnecessária, uma tecnologia que, no futuro, pode representar eficiência e economia de escala na rede pública.
Se por um lado a ciência internacional acelera a passos largos, por outro, os desafios socioeconômicos e a desigualdade no acesso à saúde pública continuam sendo amplamente debatidos. No Brasil, o desafio será acompanhar a trajetória regulatória na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e garantir a incorporação na rede pública.
No entanto, a verdadeira inovação que salva vidas não é a pílula de importação individual desordenada, mas a política pública estruturada. A trajetória de novas drogas exige cautela regulatória na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e análises criteriosas de custo-efetividade.
Para o VIDA E AÇÃO, o futuro da oncologia é promissor, mas o verdadeiro sucesso da ciência não reside em recordes de faturamento de laboratórios em Chicago. Ele se consolida quando as inovações chegam às farmácias públicas e aos braços de quem mais precisa. Viva a ciência brasileira, viva o jornalismo focado no paciente e, acima de tudo, viva o SUS.
Para ler mais sobre a batalha pelo acesso à saúde no Brasil, confira as nossas reportagens especiais:
-
Tratamento de câncer no SUS: saiba quais são os direitos garantidos por lei e como funciona a linha de cuidado
-
Avanço tecnológico na rede pública: hospitais do SUS lideram mutirões de cirurgia robótica oncológica
Fique por dentro das principais notícias de saúde, bem-estar e avanços da medicina: 👉 Clique aqui para entrar no canal oficial do Portal Vida e Ação no WhatsApp e receba nossos conteúdos diariamente!




