Tem gente que convive anos com diarreia frequente, dor abdominal, urgência para evacuar, fadiga intensa e até sangue nas fezes sem imaginar que isso pode ser sinal de uma doença intestinal inflamatória séria. Em muitos casos, a explicação vem pronta e simplificada: “é estresse”, “é nervoso”, “é o que você comeu”, “seu intestino é sensível”. O problema é que nem sempre é.

Maio Roxocampanha de conscientização sobre as Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), joga luz justamente sobre esse erro comum: a banalização de sintomas que deveriam acender alerta. No centro dessa conversa estão duas condições crônicas que afetam o trato gastrointestinal e alteram profundamente a qualidade de vida: a Doença de Crohn e a retocolite ulcerativa.

No Brasil, o movimento é impulsionado por entidades médicas e de pacientes, e o dia 19 de maio marca a mobilização mundial em torno do tema.  O maior risco não está apenas na doença em si, mas no tempo que muitos pacientes passam sendo tratados como se tivessem apenas um intestino “difícil”.

Quando o sintoma intestinal vira rotina, muita gente começa a achar que aquilo é normal. O problema é que, em doenças como Crohn e retocolite, esse atraso custa caro. A inflamação continua ativa, o paciente perde qualidade de vida e o diagnóstico chega quando o corpo já está muito desgastado”, diz o médico nutrólogo Dr. Arthur Victor de Carvalho,

O erro de culpar apenas o estresse emocional

As doenças inflamatórias intestinais não se resumem a uma dor de barriga mais forte ou a um período ruim do sistema digestivo. A retocolite ulcerativa, por exemplo, costuma causar diarreia recorrente, muitas vezes com sangue, muco ou pus, dor abdominal, necessidade urgente de evacuar, fadiga e perda de peso. A doença de Crohn também provoca sintomas persistentes, além de manifestações mais amplas e evolução variável ao longo de todo o trato digestivo.

O que torna tudo mais traiçoeiro é que parte desses sintomas pode ser inicialmente interpretada como reflexo de ansiedade, alimentação inadequada ou Síndrome do Intestino Irritável (SII). Quando isso acontece, o paciente entra numa espiral de tentativas pontuais: muda a dieta por conta própria, corta a lactose, evita o glúten, toma antiespasmódicos e tenta “controlar o nervoso”, enquanto a atividade inflamatória destrói a mucosa intestinal.

“O intestino é um órgão que sofre muito com a banalização. O paciente sente dor, altera o hábito intestinal, tem urgência, perde peso, cansa, e mesmo assim passa meses ou anos ouvindo que é ‘emocional’. Nem tudo que piora com o estresse nasce do estresse”, explica o nutrólogo.

Quando o desconforto vira sinal de alerta

Um ponto importante do Maio Roxo é justamente ensinar a distinguir desconfortos transitórios de sinais que merecem investigação médica detalhada. Os principais alertas vermelhos são:

  • Diarreia recorrente ou prolongada (com mais de quatro semanas);

  • Sangue, muco ou pus nas fezes;

  • Urgência evacuatória frequente;

  • Dor abdominal persistente e cólicas;

  • Perda de peso involuntária;

  • Fadiga extrema e anemia;

  • Febre recorrente sem causa aparente.

Esses sintomas não significam automaticamente que o paciente tem uma DII, mas são fortes o suficiente para exigir exames de imagem, como a colonoscopia e a endoscopia. O erro é tratá-los como um problema menor só porque a pessoa ainda consegue seguir trabalhando e empurrando a rotina.

O impacto na vida real e a barreira intestinal

O impacto do atraso no diagnóstico não para no consultório. Quem convive com a incerteza dos sintomas passa a viver em constante estado de vigilância. O medo de não encontrar um banheiro por perto faz com que os pacientes saiam menos, se alimentem com receio e evitem compromissos longos. Estudos apontam que pacientes com DII ativa apresentam frequências relevantes de ansiedade, depressão e isolamento social.

Além do diagnóstico das doenças em si, a saúde intestinal precisa ser observada de forma preventiva. A nutricionista Nicolle Albanezi alerta que os sinais de desequilíbrio do órgão surgem muito antes de qualquer complicação grave.

Durante muito tempo, o intestino foi tratado quase como um tubo de passagem. Hoje sabemos que essa visão é limitada. O intestino é uma interface entre alimentação, microbiota, sistema imune, metabolismo e o cérebro. Ele não apenas digere; ele interpreta, comunica e ajuda a modular respostas importantes do organismo”, explica a nutricionista.

Um dos pontos centrais dessa engrenagem é a chamada barreira intestinal, responsável por permitir a absorção de nutrientes e impedir a entrada de toxinas e microrganismos nocivos. Quando essa barreira perde eficiência, ocorre o aumento da permeabilidade intestinal, fenômeno associado à disbiose (desequilíbrio da flora bacteriana) e à inflamação sistêmica de baixo grau. Na prática, o paciente pode manifestar desde queda de cabelo e lesões na pele até dificuldade de concentração e fadiga crônica.

O fantasma do câncer colorretal

A necessidade de investigar sintomas persistentes ganha um peso ainda maior diante do cenário oncológico. O câncer colorretal registrou cerca de 1,9 milhão de novos casos no mundo em levantamentos recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) aponta o tumor de cólon e reto como um dos mais incidentes, com cerca de 45 mil novos diagnósticos por ano.

Pesquisas indicam um aumento preocupante desse tipo de câncer em adultos jovens. Como a inflamação crônica e prolongada das DIIs altera as células da mucosa intestinal, pacientes que possuem a doença de Crohn ou a retocolite de longa duração (com mais de oito anos de evolução) apresentam um risco significativamente maior de desenvolver tumores colorretais se não estiverem em tratamento adequado.

Tratamento vai além de soluções milagrosas

Cuidar do intestino exige critérios científicos e acompanhamento multidisciplinar. “Saúde intestinal não é apenas tomar probióticos por conta própria ou restringir alimentos sem critério”, adverte Nicolle Albanezi.

Embora não exista cura definitiva para as DIIs, os avanços na medicina — como o uso de medicamentos biológicos e imunossupressores — revolucionaram o controle dessas condições. Nos casos em que a inflamação causa lesões severas (como obstruções, fístulas ou suspeita de malignidade), a intervenção cirúrgica para a remoção da parte afetada do intestino pode ser necessária e garante a sobrevida e o bem-estar do paciente.

O recado final deste Maio Roxo é simples: intestino que sofre de forma persistente merece investigação séria. Cortar o hábito de normalizar o que não é normal pode mudar completamente o curso da sua saúde.

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Com Assessorias

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