A bola rola na noite desta quarta-feira (24) para um confronto decisivo: o Brasil enfrenta a Escócia para definir se a Seleção Brasileira avança em primeiro ou segundo lugar de sua chave, desenhando o caminho rumo às próximas etapas da Copa do Mundo. Mas, enquanto a torcida prepara a camisa verde e amarela e organiza a reunião com os amigos, médicos fazem uma convocação importante: é preciso preparar também o coração. A forte carga emocional que acompanha os 90 minutos de uma partida decisiva pode atuar como um gatilho para eventos cardiovasculares graves, mesmo em quem nunca apresentou sintomas antes.

Diferentes estudos associam diretamente o estresse e a euforia do futebol ao aumento de problemas cardíacos. No cenário nacional, as doenças do coração já lideram as causas de óbito, somando cerca de 400 mil mortes por ano — o que representa uma perda a cada 90 segundos. Durante o principal torneio de futebol do planeta, essa estatística ganha contornos ainda mais preocupantes.

O mecanismo por trás da forte emoção

O perigo mora na reação química que o corpo manifesta diante de uma grande tensão, como um gol nos acréscimos ou uma disputa de penalidades máximas. O organismo aciona um sistema de alerta instintivo, liberando uma descarga massiva de adrenalina. Esse processo acelera os batimentos cardíacos e eleva a pressão arterial de forma abrupta.

“Essa reação, conhecida como mecanismo de ‘luta ou fuga’, tende a ser natural e passageira. Em pessoas saudáveis, costuma ser bem tolerada; no entanto, em quem tem doença cardiovascular ou fatores de risco não controlados, o esforço adicional imposto ao coração pode favorecer sintomas e aumentar o risco de eventos mais sérios, como o infarto”, adverte Márcio Gonçalves de Sousa, médico cardiologista e Chefe da Seção de Hipertensão Arterial, Tabagismo e Nefrologia do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo.

O alerta ganha reforço no Rio de Janeiro. Antônio Ribeiro, coordenador de Saúde Cardiovascular da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ), ressalta que o perigo pode ser silencioso e não tem hora marcada para acabar. “Muitas vezes, a pessoa desconhece, mas já tem uma propensão a problemas cardiovasculares. E fortes emoções podem ser o primeiro gatilho. O nervosismo eleva a tensão arterial. Um dos sinais é o rosto avermelhado, aquele ‘vermelho de raiva’. E não se engane, o infarto pode vir mesmo horas depois do apito final”, explica o coordenador.

Excessos à mesa aumentam os riscos

Os dias de jogos costumam quebrar a rotina saudável de muitos torcedores. A combinação de tensão nervosa com o consumo elevado de bebidas alcoólicas e petiscos ricos em sódio funciona como um catalisador de riscos para o sistema circulatório. O sal em excesso eleva a pressão arterial de forma imediata, enquanto o álcool sobrecarrega o músculo cardíaco.

Para quem já possui diagnóstico de hipertensão, arritmia ou outras cardiopatias, a recomendação é manter a vigilância rigorosa. Os horários das medicações de uso contínuo devem ser respeitados rigorosamente, sem interrupções por causa dos horários das partidas. Manter-se hidratado com água durante todo o dia, evitar o tabagismo e respeitar as horas de sono antes e depois do confronto também ajudam o corpo a tolerar melhor as oscilações de adrenalina.

Leia mais

Haja coração: emoção dos jogos acende alerta para o risco de infarto
Alex Escobar passa mal: calor extremo é um perigo para o coração
Futebol faz bem para o coração, a mente e o convívio social
Seu coração está preparado para a Copa do Mundo?

Sinais que vão além da dor no peito

Identificar o problema rapidamente é crucial para salvar vidas. Os médicos alertam que as pessoas tendem a esperar pelo sintoma mais clássico — a dor opressiva no peito —, mas o infarto pode se manifestar de formas muito mais sutis, que jamais devem ser negligenciadas ou confundidas com uma simples azia ou ansiedade passageira.

De acordo com Bianca Gonçalves, coordenadora-médica do ambulatório do Instituto Estadual de Cardiologia Aloysio de Castro (Iecac), uma falta de ar súbita e sem justificativa já é um indicativo claro para acionar o socorro médico. “A dor no peito do infarto costuma ser descrita como aperto, queimação, pressão ou sensação de facada. Tem ainda a dor que irradia para o ombro, pescoço, mandíbula, costas ou braço, geralmente do lado esquerdo, tontura, náusea e fraqueza”, detalha a especialista.

Diante desses sintomas, a orientação unânime das autoridades de saúde é procurar imediatamente a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou o hospital de emergência mais próximo, ou ligar para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu 192). O Instituto Estadual de Cardiologia Aloysio de Castro lembra que atua como unidade de suporte ambulatorial e cirúrgico e não realiza atendimentos de porta aberta ou emergências diretas.

Fique atento: sintomas que exigem socorro imediato

  • Dor ou forte aperto no peito (pode parecer queimação, pressão ou pontadas);

  • Dor que se espalha para o braço esquerdo, ombro, pescoço, mandíbula ou costas;

  • Falta de ar repentina ou respiração muito acelerada;

  • Dor ou sensação de queimação na região do estômago;

  • Suor frio inexplicável e palidez;

  • Tontura, náuseas, vômitos ou crises de fraqueza;

  • Palpitações persistentes ou desmaio (perda de consciência);

  • Dificuldade súbita na fala, perda de visão ou fraqueza em um dos lados do corpo (sinais associados também ao Acidente Vascular Cerebral).

A regra de ouro para a partida de hoje é clara: sinta a emoção do futebol, mas monitore o seu corpo. Se notar qualquer anormalidade, não espere o segundo tempo começar ou o jogo acabar para procurar ajuda médica.

Vamos relembrar os perigos da Copa ao coração em números

Uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, revelou que as internações por infarto no Brasil cresceram entre 4% e 8% nos períodos dos mundiais entre 1998 e 2010, com foco em torcedores acima dos 35 anos. O dado mais alarmante do levantamento mostra um crescimento de 9% na incidência de infartos nos dias de jogos gerais da competição e de expressivos 16% especificamente nos dias em que a Seleção Brasileira entra em campo.

Esse fenômeno não é exclusividade do torcedor brasileiro. O impacto do futebol nas emergências médicas já foi amplamente documentado na literatura médica internacional. Durante a Copa do Mundo de 2006, um estudo de grande impacto publicado no The New England Journal of Medicine demonstrou que, nos dias de jogos da seleção da Alemanha, o número de emergências cardíacas na região de Munique foi 2,6 vezes maior do que nos períodos convencionais. Entre o público masculino, o risco chegou a ser 3,2 vezes superior.

Outro exemplo clássico ocorreu na Copa da França, em 1998: após a eliminação da Inglaterra para a Argentina na disputa por pênaltis, as internações por infarto agudo do miocárdio dispararam 25% entre os torcedores ingleses, conforme dados publicados no British Medical Journal.

Com Assessorias

Receba notícias direto no seu celular! Entre no canal oficial do Portal Vida e Ação no WhatsApp e fique por dentro de todas as novidades sobre saúde, bem-estar e qualidade de vida.
Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *