Criado por pessoas autistas e lembrado em 18 de junho, o Dia Nacional do Orgulho Autista nasceu de uma necessidade profunda de valorização da neurodiversidade e do combate aos estigmas que ainda pairam sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Muito além de uma data comemorativa, a data se consolidou como um manifesto para ampliar a conscientização da sociedade sobre os direitos, potencialidades e reais desafios enfrentados por milhões de pessoas neurodivergentes.

É um dia voltado a propagar informação correta, coerente e que ajude a diminuir o preconceito e as visões equivocadas. Para as famílias, o significado da data está atrelado à valorização da essência de cada indivíduo.

Orgulho do sujeito, não do transtorno

Juliane de Araújo, mãe de Geraldo, de 16 anos, ressalta que o orgulho não está no diagnóstico em si, mas na pessoa que o filho se tornou. “Tenho orgulho do Geraldo exatamente como ele é. Ele é estudioso, dedicado, tem seus amigos e seus sonhos. O autismo faz parte dele, mas não o define.”

O próprio jovem compartilha dessa visão de mundo: “Eu não tenho necessariamente orgulho do autismo. Tenho orgulho de ser o Geraldo. O autismo é uma das minhas características, mas o que me faz sentir orgulho é quem eu sou”, conta.

O grande desafio prático: a inclusão em momentos de festa

Embora o debate ganhe força em junho, a verdadeira inclusão é testada no cotidiano e em grandes eventos populares. Atualmente, com a realização da Copa do Mundo de Futebol de 2026, a discussão sobre acessibilidade e sensibilidade urbana ganha contornos ainda mais práticos. O período de jogos e comemorações representa um imenso desafio para muitas pessoas autistas devido à hipersensibilidade a estímulos sensoriais intensos, como fogos de artifício, buzinas, gritos e aglomerações.

Para quem está dentro do espectro autista, a quebra de rotina, o barulho excessivo e a imprevisibilidade do esporte exigem uma atenção especial de toda a sociedade. A professora de pós-graduação em Psiquiatria da Afya Educação Médica Curitiba, Thaís Nakayama, aponta orientações fundamentais para garantir o bem-estar dessas pessoas:

  • Respeito aos limites: Muitas pessoas no espectro podem não demonstrar interesse por futebol. É essencial considerar o gosto pessoal e nunca pressionar ninguém a acompanhar transmissões.

  • Ambientes controlados: Para quem deseja acompanhar os jogos, reuniões em espaços familiares com menos pessoas reduzem o risco de fadiga e desconforto. Bares e locais públicos devem ser evitados caso causem agitação.

  • Recursos de conforto acústico: O uso de fones com redução de ruído, abafadores auditivos e óculos escuros ajuda na autorregulação sensorial.

  • Espaços de descompressão: Estabelecimentos e locais de eventos devem disponibilizar salas ou cantos tranquilos, com poucos estímulos visuais e sonoros, para pausas necessárias.

  • Previsibilidade: Explicar antecipadamente a dinâmica das partidas e como as pessoas costumam comemorar ajuda a preparar o indivíduo para o cenário festivo.

Mais do que adaptar fisicamente os espaços, a inclusão social depende de uma conscientização coletiva que respeite a autonomia do indivíduo com TEA. Gestos simples, como compreender o uso de um abafador, evitar abraços ou toques invasivos inesperados e fiscalizar o uso de fogos ruidosos são atitudes transformadoras.

Para Wolf Kos, presidente do Instituto Olga Kos — que há 19 anos atua no desenvolvimento de projetos de inclusão —, o acolhimento deve se estender a todas as esferas e momentos da vida civil.

Seja durante a Copa do Mundo ou em qualquer outro momento, reconhecer as individualidades e garantir que cada pessoa possa participar da sociedade da forma que lhe for mais confortável é o caminho para uma convivência mais justa e acolhedora. Uma comunidade verdadeiramente inclusiva é aquela em que todos têm espaço, cada um à sua maneira”, conclui.

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Palavra de Especialista

Copa do Mundo: como tornar a torcida mais inclusiva para pessoas com autismo

Por Wolf Kos*

A chegada da Copa do Mundo costuma transformar ruas, casas, clubes e até locais públicos em verdadeiras arquibancadas improvisadas. Muitas pessoas aglomeradas, buzinas, gritos e fogos de artifícios já fazem parte da tradição que mobiliza milhões de brasileiros. No entanto, para muitas pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), toda essa atmosfera pode representar um grande desafio sensorial, fazendo com que se excluam de momentos prazerosos.

A hipersensibilidade a sons, luzes intensas e aglomerações é uma característica comum em muitas pessoas com autismo. Durante os jogos, especialmente em momentos de comemoração, o excesso de estímulos pode provocar ansiedade, medo, irritabilidade, crises de choro e intenso desconforto emocional.

Por isso, falar sobre inclusão durante a Copa também significa compreender que pessoas com autismo têm o direito de participar da torcida, vibrar com os jogos e compartilhar esses momentos com familiares e amigos. A diferença está na forma como a experiência é construída, respeitando suas necessidades e limites.

Especialistas destacam que a previsibilidade é uma das principais ferramentas para reduzir a sobrecarga sensorial. Explicar, antecipadamente, quando ocorrerão os jogos, como as pessoas costumam comemorar e quais sons podem ser ouvidos, ajuda a preparar a pessoa com autismo para a situação. O uso de recursos visuais, vídeos e imagens sobre partidas anteriores também pode contribuir para essa familiarização gradual.

Outros recursos que podem ajudar na ambientação e fazer com que a pessoa se sinta mais segura é a utilização de fones com redução de ruído, abafadores auditivos e até a disponibilização por parte dos estabelecimentos de locais mais tranquilos onde a pessoa possa ficar. Em reuniões familiares ou eventos maiores, é recomendável reservar um ambiente silencioso para pausas, caso haja necessidade.

Mais do que adaptar espaços, a inclusão depende da conscientização coletiva e da autonomia da pessoa com TEA. Gestos simples, como compreender a necessidade de um abafador, evitar brincadeiras invasivas, respeitar momentos de pausa e regulamentar o uso de fogos de artifício, contribuem para que todos possam vivenciar a Copa do Mundo de forma positiva.

O futebol tem o poder de unir pessoas, criar memórias afetivas e fortalecer vínculos. Garantir que crianças, jovens e adultos com autismo possam participar desse momento com conforto e segurança é uma demonstração de respeito à diversidade. Afinal, uma torcida verdadeiramente inclusiva é aquela em que todos têm espaço para comemorar, cada um à sua maneira.

*Wolf Kos é presidente do Instituto Olga Kos

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