Para quem convive com as dores, a fragilidade e as limitações severas da idade avançada, o simples ato de sair de casa para uma consulta médica pode se transformar em uma jornada dolorosa e quase impossível. Pensando em humanizar o atendimento e garantir o direito ao envelhecimento digno, o Ministério da Saúde lançou, nesta quinta-feira (18), no Rio de Janeiro, o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa (Padi Brasil).

O programa chega em um momento crucial. Hoje, a expectativa de vida ao nascer no Brasil atingiu 76,6 anos, e impressionantes 80% da nossa população idosa dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) para se tratar. Por trás desses números, existe uma realidade silenciosa: estima-se que existam cerca de 3 milhões de idosos acamados no país, acompanhados de perto pela atenção primária, que agora ganharão esse reforço nos lares.

Inspirada na experiência adotada há 15 anos na rede pública de saúde do município do Rio de Janeiro, a iniciativa vai investir R$ 500 milhões para estruturar e levar equipes multiprofissionais diretamente até a cama de idosos que não conseguem se deslocar até uma unidade de saúde. O cronograma prevê a aplicação de R$ 163,2 milhões ainda em 2026 e R$ 329,3 milhões para o orçamento de 2027.

Olhar integral e apoio para quem cuida

As prefeituras de todo o país já podem solicitar a criação de novas equipes ou ampliar as já existentes na atenção básica, ajustando a carga horária e contratando mais profissionais e médicos especialistas. A adesão inicial reforça o tamanho dessa necessidade: 2.733 municípios já solicitaram a inclusão no programa, totalizando o pedido de 3.677 equipes.

Para viabilizar as visitas, as gestões municipais receberão um incremento mensal de até R$ 10 mil por equipe através do Padi Brasil, fazendo com que o repasse total por grupo de trabalho chegue a até R$ 57,5 mil por mês, dependendo da modalidade (Ampliada, Complementar ou Estratégica).

Esses profissionais atuarão em total sintonia com as equipes de Saúde da Família (ESF), mas com um foco voltado às particularidades do idoso acamado.

O idoso vai receber a visita de profissionais especializados com um olhar especial para as condições deles, que têm dificuldades de mobilidade e não conseguem fazer atividades físicas. Serão desde médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, terapeutas ocupacionais até assistentes sociais“, explicou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Cada cidade poderá escolher a composição de profissionais que melhor atenda à realidade da sua comunidade, montando suas equipes a partir de um leque de opções oferecido pelo ministério. A proposta é somar forças a outras frentes de bem-estar na velhice, como o programa Farmácia Popular (que distribui fraldas geriátricas e remédios gratuitos para hipertensão e diabetes) e o programa Mais Especialistas, focado em agilizar exames e cirurgias.

Prevenção e afeto no dia a dia

Para além das consultas, o cuidado domiciliar envolve orientação. Como ferramenta de monitoramento diário, o ministério destacou o uso da Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa, disponível tanto na versão física quanto digital no aplicativo Meu SUS Digital.

Também serão disponibilizados materiais educativos focados em apoiar cuidadores e familiares em desafios complexos do cotidiano, como a prevenção de quedas dentro de casa e formas mais afetuosas e assertivas de comunicação no tratamento da demência.

Uma homenagem ao pioneirismo do afeto

O nascimento do Padi Brasil carrega em suas raízes a sensibilidade de uma médica que, há três décadas, se recusou a enxergar os pacientes idosos apenas como prontuários. Durante o evento, o Ministério da Saúde prestou uma homenagem in memoriam à médica e advogada Guilhermina Maria Galvão Siqueira Gomes, cujo legado inspirou o programa nacional.

Na década de 1990, trabalhando no Hospital Municipal Paulino Werneck, na Ilha do Governador (RJ), a doutora Guilhermina percebeu um ciclo doloroso: os idosos recebiam alta, mas, por falta de estrutura e orientação em casa, acabavam piorando e retornando rapidamente ao hospital.

Incomodada com essa realidade, ela liderou a criação do primeiro Programa de Atenção Domiciliar (PAD) da unidade. Levando médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos para dentro das residências — e acolhendo os familiares que exerciam o papel exaustivo de cuidadores —, Guilhermina provou que a medicina se faz com presença.

Há 15 anos, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) do Rio de Janeiro implementou o Programa de Atenção Domiciliar ao Idoso (PADI), que leva assistência domiciliar a pacientes acamados e impossibilitados de se dirigir até uma unidade pública de saúde.

Uma semente plantada no Rio de Janeiro que, agora, floresce para acolher idosos em todo o Brasil.

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Primeiro serviço de assistência domiciliar para pacientes acamados e no fim da vida

A equipe multidisciplinar do Serviço do HSPE realiza 473 visitas mensais aos 224 pacientes acamados

O primeiro serviço do Brasil de assistência domiciliar para pacientes acamados e no fim da vida completa 62 anos em novembro. O atendimento a pacientes prostrados do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) de São Paulo, vinculado ao Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe), foi fundado pelo médico Lubar Gonçalves Lima, em 1964.

Os profissionais do setor realizam 473 visitas mensais às 224 pessoas acompanhadas pela equipe multidisciplinar. Entre os pacientes está Agapito Henrique de Souza, de 107 anos, usuário do serviço de assistência domiciliar do Iamspe desde 2021. O aposentado foi integrado ao programa para tratar uma lesão por necrose no dedo do pé esquerdo. A auxiliar de enfermagem Maria Vilacy, 61, filha de Agapito, define o programa como de alta qualidade.

Como familiar, eu fico mais segura, porque são visitas frequentes com médicos, enfermeiros e fisioterapeutas qualificados e atenciosos. O sentimento é de amparo, pois é complicado locomover um senhor de mais de 100 anos para o hospital, existem muitos riscos”, comenta.
O serviço de assistência domiciliar (SAD) do HSPE oferece atendimento multidisciplinar a pacientes acamados em cuidados paliativos não oncológicos com médico clínico geral, equipe de enfermagem e estomaterapia, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, nutricionista e assistente social.
Os profissionais são responsáveis pela avaliação do estado de saúde, orientações com relação aos cuidados diários como: mudança de posição, troca de sondas e de cateteres de alimentação e de eliminação de urina, orientação quanto ao uso de medicação, além de conciliação familiar e apoio emocional ao cuidador do doente.
A frequência da visita da equipe multidisciplinar do serviço do HSPE é determinada pelo plano de cuidado, elaborado após a avaliação do estado de saúde do paciente. Nos casos mais graves, podem ser realizadas mais de uma visita semanal à casa do doente.
Os cuidados presenciais são complementados pela assistência telefônica. Os familiares podem entrar em contato com a equipe multidisciplinar do setor de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, para esclarecer dúvidas, além de contar com o Pronto-Socorro do Hospital, aberto 24 horas por dia.
As principais doenças que acometem os pacientes do SAD do HSPE) são as demências (alzheimer), as doenças neurodegenerativas (parkinson e esclerose lateral amiotrófica (ELA)), além de sequelas de acidente vascular cerebral (AVC) e de acidentes de trânsito.
A maioria dos pacientes está localizada nas extremidades das zonas sul e leste de São Paulo, nos bairros de Grajaú, Capão Redondo e Campo Limpo; Itaim Paulista, Cidade Tiradentes e Itaquera, respectivamente.
A enfermeira Alessandra Lucia Da Silva Medeiros, responsável pelo serviço de assistência domiciliar do HSPE, explica que o atendimento é dado à família junto ao paciente acamado por meio de ações de promoção à saúde, prevenção e tratamento de doenças e reabilitação.
O objetivo é evitar a hospitalizações desnecessárias e diminuir o risco de infecções. Também conciliamos famílias e as orientamos quanto aos cuidados, as mudanças de rotina e gestão de recursos. É uma situação que todo apoio é bem-vindo, porque, por muitas vezes, ocorre da responsabilidade do cuidado se concentrar em um indivíduo, que fica sobrecarregado”, comenta.

Com informações da Agência Brasil e HSPE

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