Com a proximidade da Copa do Mundo, a campanha Abril Lilás, de conscientização sobre o câncer de testículo, chama ainda mais atenção quando observamos os casos emblemáticos de jogadores de futebol que enfrentaram a doença ainda muito jovens. Embora raro, esse tipo de tumor ganha visibilidade maior quando atinge atletas em atividade ou nas categorias de base, levantando um alerta importante para a saúde masculina.
Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) em 4 de fevereiro de 2026, que estimam a incidência de câncer no Brasil para o triênio 2026–2028, apontam que o câncer de testículo deve atingir de 1.700 a 2 mil homens por ano no país. Isso representa cerca de 1% dos tumores em homens, sendo mais comum na faixa etária de 15 a 35 anos.
Casos recentes envolvendo atletas ajudam a ilustrar esse cenário. O ex-jogador Leandro Domingues (ex-Vitória e ex- Cruzeiro), que enfrentou a doença após encerrar a carreira, e o meia Jean Pyerre, diagnosticado aos 24 anos durante sua transferência para o futebol europeu, são exemplos que ganharam repercussão nacional. Leandro morreu em abril de 2025, três anos após o diagnostico da doença.
Entre os mais jovens, situações envolvendo atletas em formação, como Raphael Nunes e jogadores de base como Caio Henrique Rocha e Lucas Silva, incluindo casos registrados em categorias de base na região de Campinas, reforçam a importância do diagnóstico precoce, fundamental para salvar vidas em até 95% dos casos.
Futebol causa câncer de testículo?
De acordo com especialistas, este tipo de câncer não está diretamente ligada ao esforço físico do esporte, mas é mais comum na faixa etária dos jogadores, especialmente se houver histórico de criptorquidia (testículo que não desceu). No entanto, o ambiente de alta performance do futebol, marcado por avaliações médicas frequentes e protocolos rigorosos, tem contribuído para que casos de câncer de testículo sejam identificados com mais rapidez.
O que esses casos mostram não é que o esporte cause câncer, mas sim que esses jovens são muito mais monitorados do que a população geral. Isso aumenta a chance de detectar alterações ainda no início”, explica o oncologista clínico André Sasse, CEO do Grupo SOnHe.
No futebol profissional e mesmo nas categorias de base, exames laboratoriais são realizados de forma periódica, inclusive antes de competições importantes. Um dos marcadores avaliados é o Beta HCG, hormônio conhecido por seu uso em testes de gravidez, mas que também pode indicar alterações relacionadas a tumores testiculares.
No contexto esportivo, esse exame é utilizado para excluir o uso de hormônios ou substâncias proibidas, mas pode, incidentalmente, levantar suspeitas de um funcionamento inadequado do organismo. “É um exemplo claro de como um exame feito por outro motivo pode salvar vidas. Quando há qualquer alteração, o atleta é rapidamente encaminhado para investigação, o que faz toda a diferença no prognóstico”, destaca Sasse.
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Além da próstata: a preocupação com o câncer de testículo
Por medo ou vergonha, homens adiam a consulta
Historicamente, as campanhas de saúde voltadas para o público masculino têm maior foco no câncer de próstata e na terceira idade. No entanto, o mês de abril ganha a cor lilás para reforçar sobre um tema urgente e pouco discutido. Embora represente cerca de 5% do total de casos de câncer entre homens, o câncer de testículo preocupa por seu público-alvo: jovens em plena fase reprodutiva e produtiva.
De acordo com os especialistas do Centro Regional Integrado de Oncologia (CRIO), o maior obstáculo para o tratamento não é a agressividade da doença, mas o atraso no diagnóstico causado pelo preconceito. Por isso, a campanha Abril Lilás busca transformar a informação em ferramenta de cura, incentivando que o cuidado com a saúde supere qualquer barreira cultural.
Muitos jovens percebem um endurecimento ou um nódulo, mas por medo ou vergonha, adiam a consulta. No câncer, o tempo é o fator determinante entre um tratamento simples e um processo mais invasivo”, explica o urologista do CRIO, Dr. Everaldo.
Especialistas reforçam que a atenção deve ser contínua, especialmente entre os homens mais jovens, que costumam procurar menos os serviços de saúde. Assim como o poder do autoexame no câncer de mama, difundido entre as mulheres, o especialista reforça a necessidade de o homem conhecer o próprio corpo.
O surgimento de nódulos indolores, aumento no volume dos testículos ou uma sensação de “peso” no escroto são sinais de alerta. Quando detectado precocemente, o câncer de testículo é um dos que apresenta as maiores taxas de sucesso no tratamento, com chances de cura que chegam a 95%”, ressalta.
Câncer de testículo tem alta chance de cura quando diagnosticado em estágio inicial
Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica alerta para os fatores de risco e sinais de surgimento da doença
Durante o Abril Lilás, mês dedicado à conscientização sobre esse tipo de tumor, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) alerta para os sinais, fatores de risco e tratamento dessa doença, que representa de 1% a 5% do total de casos de câncer entre os homens.
De acordo com o oncologista clínico Fernando Maluf, coordenador do Comitê de Tumores Geniturinários da SBOC, é essencial que os homens conheçam os sintomas do câncer de testículo e saibam quando procurar um especialista.
O sintoma mais comum é o crescimento progressivo de um dos testículos, geralmente percebido ao longo de semanas ou meses, podendo ou não vir acompanhado de dor ou endurecimento da região”, detalha.
Um dos principais fatores de risco está associado à atrofia testicular decorrente de um defeito na migração do testículo ainda na fase fetal. “Durante o desenvolvimento do feto, os testículos se formam na cavidade abdominal e descem para a bolsa testicular antes do nascimento. Quando isso não ocorre de forma adequada, o risco de câncer de testículo aumenta”, explica.
Pancadas nos testículos e andar de bicicleta não causam câncer
É comum surgirem dúvidas sobre possíveis causas da doença, mas o especialista esclarece que traumas nos testículos ou o hábito de andar de bicicleta não causam câncer. “Muitas vezes, o tumor é descoberto após uma pancada, mas ela não é a causa da doença — é apenas um evento que levou ao diagnóstico. O mais importante é que os homens estejam atentos a alterações nos testículos e procurem um médico assim que possível para uma investigação”, diz o Dr Maluf.
O câncer de testículo costuma se manifestar de forma silenciosa, mas alguns sinais devem acender o alerta. Entre os principais sintomas estão aumento de volume ou inchaço em um dos testículos, sensação de peso na região escrotal, dor leve ou desconforto persistente e, em alguns casos, presença de nódulos palpáveis.
O diagnóstico precoce é o principal aliado no combate à doença. Embora não haja um método preventivo eficaz, a realização do autoexame e a atenção a qualquer alteração testicular são fundamentais. “Nem todo aumento de volume no testículo é sinal de câncer, mas apenas um médico poderá fazer essa diferenciação com acurácia”, reforça Dr. Fernando Maluf.
A importância do diagnóstico precoce no câncer de testículo
A doença se desenvolve a partir das células dos testículos e é classificada conforme seu tipo e a agressividade pelos médicos patologistas, que também fornecem informações cruciais para o estadiamento e planejamento terapêutico. A Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), que representa médicos especialistas em diagnóstico do câncer, destaca a importância de diagnósticos precisos que orientem condutas médicas adequadas e contribuam significativamente para o sucesso no tratamento da doença, que possui alta taxa de cura se diagnosticada precocemente.
Segundo especialistas da SBP, é necessário observar sinais e sintomas característicos da doença, como aumento ou nódulo indolor em um dos testículo, sensação de peso na bolsa escrotal, desconforto no testículo ou abdome inferior, mudança no tamanho ou textura do testículo e gânglios aumentados (Ex., na virilha ou pescoço, em casos avançados). Ao notar qualquer alteração, o paciente deve procurar ajuda médica.
O diagnóstico envolve exames clínico e de imagem (ultrassonografia), marcadores tumorais no sangue – como o próprio Beta HCG, além do AFP, β-hCG, LDH) e a confirmação diagnóstica ocorre através da análise histopatológica da peça cirúrgica – a biópsia – pelo patologista. É o laudo emitido por esse especialista que define a necessidade de tratamentos adicionais (Ex. quimioterapia e radioterapia), contribuindo para o acompanhamento do paciente e um prognóstico positivo, com qualidade de vida.
Quando identificado precocemente, o tratamento apresenta altas taxas de cura, superiores a 95%. A abordagem pode incluir cirurgia para retirada do testículo afetado, além de quimioterapia ou radioterapia, dependendo do estágio da doença, e grande parte dos efeitos colaterais do tratamento é reversível.
Em casos de risco de infertilidade, podem ser indicadas medidas como o congelamento de espermatozoides antes do início da quimioterapia. A reposição de testosterona também pode ser avaliada, caso os níveis hormonais sejam impactados após a remoção do testículo”, afirma Dr Fernando Maluf.
Ederson, ex-Flamengo, venceu o câncer de testículo
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- Ederson (Flamengo): Diagnosticado em 2017 após exame antidoping, passou por cirurgia e tratamento.
- Jean Pyerre (Grêmio/Ypiranga-RS): Diagnosticado em 2022, tratou-se e retornou ao futebol.
- Arjen Robben (Holanda): Descobriu o tumor aos 20 anos, pouco antes da Euro 2004, e teve cura total.
O principal aprendizado que vem do esporte deve ser levado para a população geral. “O autoconhecimento do corpo e a busca por avaliação médica diante de qualquer alteração são fundamentais. Se atletas jovens, em plena forma física, podem ter esse diagnóstico, qualquer homem também pode. A diferença está em identificar cedo”, conclui André Sasse.
Com Assessorias




