CÂNCER TEM CURACiência e Medicina

Câncer de testículo: entenda a doença que matou cantor do Molejo

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Aos 51 anos, Anderson Leonardo, cantor do grupo de pagode Molejo, morreu nesta sexta-feira (26) em decorrência de complicações do câncer. Ele lutava há um ano e meio contra a doença, anunciada inicialmente como sendo um câncer raro na virilha, chamado de câncer inguinal. Em janeiro de 2023, o artista chegou a afirmar que estava curado. Cinco meses depois de celebrar a cura, ele recebeu o diagnóstico do câncer de testículo, após notar incômodo e inchaço na região.
Especialistas em Oncologia divergem em relação ao chamado ‘câncer inguinal’ e esclarecem que se trata de um tipo de câncer que afeta a região da virilha e geralmente é causado por uma metástase, quando a doença se espalha para outros órgãos do corpo, neste caso, principalmente em órgãos genitais.
Na fase metastática, o tumor já havia se espalhado pela região da virilha, pênis e ânus de Anderson Leonardo. O cantor passou por várias internações e procedimentos. Em setembro de 2023, chegou a sofrer uma embolia pulmonar, decorrente da gravidade do caso. Ele estava internado no Hospital Unimed, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, desde o dia 27 de fevereiro, depois de sentir fortes dores após sessões de radioterapia.
Grupo Molejo no hospital: apoio a Anderson Leonardo, internado desde fevereiro (Fotos: Reprodução do Instagram)
No instagram, os integrantes do grupo lamentaram a morte do vocalista, que representava a identidade do grupo e fazia sucesso desde a década de 1990.
“Nosso guerreiro lutou bravamente, mas infelizmente foi vencido pelo câncer, mas será sempre lembrado por toda família, amigos e sua imensa legião de fãs, por sua genialidade, força e pelo amor aos palcos e ao Molejo. Sua presença e alegria era uma luz que iluminava a vida de todos ao seu redor, e sua falta será profundamente sentida e jamais esquecida, nós te amamos”.

‘Câncer inguinal’ geralmente é metástase de outros tumores

De acordo com especialistas, a região inguinal, mais conhecida como virilha, é uma definição anatômica e compreende estruturas importantes do corpo como tendões e gânglios linfáticos (linfonodos). Essa área pode ser acometida por diversos cânceres, principalmente metástases de outros tumores.

Assim, o chamado ‘câncer inguinal’, na verdade, é decorrente de outros cânceres que tiveram início na região pélvica, como pênis, uretra, próstata, bexiga, testículos – ou vulva, vagina e ovário, no caso de mulheres – e até mesmo tumores de pele (câncer melanoma e não melanoma) em ambos os sexos.

“Essa região é rica em linfonodos, que usualmente são responsáveis pela formação dos nossos glóbulos brancos. Quando esses gânglios são infiltrados por células de câncer ficam pendurados, crescem e podem ulcerar ou comprimir vasos de sangue, nervos ou órgãos próximos”, explica o médico oncologista Thiago Assunção, do IPC – Instituto Paulista de Cancerologia.

Os principais sintomas deste câncer podem ser febre, perda de apetite e de peso não justificadas e, principalmente, a percepção de um nódulo na região. Este nódulo pode vir acompanhado de dor local e, em casos mais graves, sangramentos e infecções.

De acordo com Lucíola Pontes, líder médica da Oncologia Clínica do Hcor, para a comprovação do câncer, é necessário realizar uma biópsia, exame invasivo que coleta uma amostra da lesão a partir de uma incisão cirúrgica ou por meio de uma agulha grossa.

“Após a detecção, o tratamento pode variar de acordo com tipo de câncer, mas também é possível realizar o bloqueio de plexo nervoso hipogástrico, que é uma alternativa para tratar condições muito dolorosas, como a dor oncológica que acontece na região da pelve. Esse bloqueio serve para aliviar a dor e evitar que o paciente precise de mais medicações”, afirma.

De acordo com Thiago Assunção, o tratamento desses cânceres podem envolver cirurgia, quimioterapia, imunoterapia e radioterapia. Geralmente, o recurso mais utilizado para tratar este tipo de câncer é a cirurgia seguida de radioterapia, mas em alguns casos, a quimioterapia também pode ser uma opção.

Por isso, a médica Lucíola Pontes reforça a importância do diagnóstico precoce e alerta para a realização de exames de rotina. “Quanto antes descobrirmos as alterações, maior é a chance de cura da pessoa”.

Câncer de testículo é o mais comum no mundo entre os homens jovens

Apesar de ser considerado raro no contexto geral das doenças oncológicas exclusivas do homem (entre 1% e 5% dos tumores), o câncer de testículo é o tipo mais comum no mundo entre homens até a terceira década de vida, principalmente adolescentes e adultos jovens, entre 15 e 34 anos (podendo ocorrer até os 50).
De acordo com dados da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer da Organização Mundial da Saúde (IARC/OMS) foram 17,2 mil novos casos no mundo em 2022, em homens entre 20 e 29 anos. A projeção para 2035 é de 19,3 mil casos.
O Atlas de Mortalidade do Instituto Nacional de Câncer (Inca) aponta que o câncer de testículo foi responsável por mais de 3,7 mil mortes no Brasil entre 2012 e 2021, das quais 60% entre homens de 20 a 39 anos.

“Os dados são preocupantes, principalmente, considerando que estamos falando de uma doença que tem de 90% a 95% chances de cura ao ser diagnosticada e tratada no início”, afirma o cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR) e coordenador geral dos Departamentos Cirúrgicos Oncológicos da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

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Presença do vírus HIV é fator de risco para câncer de testículo

O IUCR chama a atenção para os principais fatores de risco para o câncer de testículo, entre os quais, a infecção pelo HIV, o vírus da Aids.

Idade: a maioria dos casos ocorre dos 20 aos 29 anos, sendo o mais comum no mundo entre os homens nessa faixa etária.
Raça: Os homens brancos têm de 5 a 10 vezes mais chances de desenvolver câncer testicular do que os homens de outras raças.
Herança genética – Quando há história familiar de câncer de testículo, o risco é aumentado.
Criptorquidia – Condição na qual o testículo não desceu para o escroto é importante fator de risco. Homens que fizeram cirurgia para corrigir esta condição também têm risco de desenvolver câncer testicular.
Síndrome de Klinefelter: risco aumentado também para quem apresenta esse transtorno cromossômico sexual, que é caracterizado por baixos níveis de hormônios masculinos, esterilidade, aumento dos seios e testículos pequenos.
Vírus da imunodeficiência humana (HIV) e tratamento anterior para câncer testicular também são fatores de risco e requerem maior atenção.

Cantor revelou heterrosexualidade em caso de estupro

Antes de enfrentar o longo tratamento contra o câncer, o vocalista do Molejo encarou a Justiça depois que MC Maylon o acusou de estupro, em fevereiro de 2021, e disse ter sido agredido com tapas e empurrões Na ocasião, Anderson negou as acusações, porém, admitiu ter feito sexo consensual com o influencer, de quem era empresário. Posteriormente, Maylon também assumiu que as relações foram em comum acordo.

MC Maylon, que agora se apresenta como mulher trans e assina como MC May, contou que ficou abalada com a morte do cantor. Nas redes sociais, afirmou que lançará um livro contando a história que viveu com Anderson.

“Estou arrasada, de luto. O Anderson foi muito especial não só na minha vida, mas também na de muitas pessoas. Fiquei conhecida mundialmente e agradeço muito ao Anderson do Molejo. Hoje eu sou conhecida como a ex-mulher dele. Lembro muito dos momentos bons que a gente passou. A tatuagem do rosto dele vai ficar eterna no meu braço”, lamentou, em conversa com o ‘Extra’.

Na época do escândalo, o cantor ainda estava casado com a administradora Paula Cardoso, com quem era casado desde 2012 e tinha uma filha, Alice, que completa 4 anos em maio. Os dois estavam recém-divorciados, mas ela fez declarações de amor a ele nas redes sociais após a morte.

Anderson deixa mais três filhos de relacionamentos distintos: Alessa Crystine, de 30 anos, que está grávida e é filha do relacionamento com Mirian Mattoso; o cantor Leozinho Bradock, de 29, fruto do casamento com sua ex-mulher, Luciana Ferreira; e o também músico Rafael Phelippe, filho do cantor com Marilene Santos. Ela também foi casado com a percussionista gospel Layse Sapucahy.

Anderson, do grupo Molejo, e Mc Maylon: acusações de estupro e confissão de sexo consensual (Foto: Reprodução/Instagram)

Entenda o caso – MC Maylon, que tinha uma tatuagem no antebraço com o rosto de Anderson e chamava o cantor de ‘pai’, contou que no dia 10 de dezembro de 2020 foi levado a um motel de Sulacap, na zona norte do Rio, contra a sua vontade.  “Eu não preciso estuprar ninguém, não. Não preciso”, defendeu-se Anderson, revelando na época ser bissexual.

Os dois foram submetidos a uma acareação após as acusações na delegacia para saber se a relação entre eles aconteceu de forma consensual ou forçada. A Polícia Civil do Rio de Janeiro chegou a confirmar posteriormente que encontrou sangue e esperma nas roupas de Maylon.

Por conta do suposto abuso, o influencer chegou a dizer que tentou cometer suicídio. Um mês após fazer as acusações contra Anderson, usou as redes sociais para revelar que realizou o sonho de se casar. O artista se vestiu de noiva e fez uma pequena festa para dizer sim a si mesmo.

Em abril de 2021, no entanto, o inluencer voltou atrás e veio a público admitir que teve um caso com o cantor antes do suposto estupro.  “Tive um relacionamento com ele por 8 meses, de muito amor. Tínhamos relações sexuais antes de acontecer o estupro, só que eu era o ativo da relação”, afirmou sobre o seu “padrinho no mundo artístico”.

No encerramento do caso, Anderson pediu indenização à justiça contra o influencer, alegando que a repercussão lhe trouxe prejuízos, com um contrato de um show que chegou a ser rescindido. O processo foi indeferido, pois a Justiça entendeu que o sexo havia acontecido entre as partes. Anderson perdeu o processo e teve que pagar R$ 10 mil em honorários advocatícios.

Abril Lilás

Desinformação é barreira para o câncer de testículo

A campanha Abril Lilás, mês de conscientização sobre câncer de testículo, alerta para a conscientização sobre esse tumor. Para os médicos oncologistas, o tabu, a timidez e o machismo ainda são os principais vilões contra o câncer de testículo.

Segundo o o cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, o diagnóstico precoce é justamente o maior desafio, porque é comum o homem associar qualquer alteração no testículo com alguma “doença venérea” – hoje chamada de infecção sexualmente transmissível (IST) – ou trauma recente e demorar para procurar o médico.

Por ser um tema pouco comentado, a desinformação também é parte da barreira quando o assunto é o cuidado com a saúde masculina. A doença muitas vezes causa desconforto no momento da investigação, impactando no diagnóstico precoce.

“Muitas vezes, quando os sintomas aparecem, os jovens sentem vergonha em se abrir com os pais ou parceiro/a sobre o assunto. Contudo, conversar sobre o tema e alertar sobre o autoexame é uma maneira que a família pode transmitir confiança e informação de qualidade”, orienta o oncologista Denis Jardim,  membro do Comitê de Tumores Geniturinários da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

Segundo ele, a maioria dos homens procura por atendimento médico apenas quando já estão doentes. “Por isso, devemos investir na informação de qualidade para eliminar o maior número possível de tabus, principalmente quando falamos sobre os cuidados com a saúde masculina”, afirma.

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Atenção aos sintomas na região dos testículos

Segundo o oncologista Denis Jardim, é fundamental estar atento aos sintomas, que podem ser confundidos ou até mesmo mascarados por processos infecciosos ou inflamatórios na região dos testículos.

“O paciente pode perceber um nódulo, que na grande maioria das vezes é indolor, ou ainda um aumento e endurecimento do testículo. Apesar de não haver nenhum incômodo ao urinar, é possível notar um volume maior no local da bolsa escrotal. Já durante a higiene, o autoexame periódico pode permitir a detecção de uma eventual alteração na região, identificando que algo está fora do normal e necessita de maior investigação”, comenta.

De acordo com os especialistas, outros sintomas que devem despertar a atenção são:

  • Nódulo pequeno, duro e indolor;
  • Aumento ou diminuição no tamanho dos testículos;
  • Mudança na consistência dos testículos;
  • Dor ou desconforto no testículo ou no saco escrotal;
  • Sensação de peso no saco escrotal;
  • Dor imprecisa na parte baixa do abdômen, baixo ventre ou virilha;
  • Sangue na urina;
  • Sensibilidade dos mamilos (raro); e
  • Puberdade precoce, com crescimento de pelos faciais e corporais em meninos muito jovens;
  • Crescimento da mama ou perda do desejo sexual;
  • Dor lombar

Histórico familiar pode ser fator de risco para câncer de testículo

Dentre os possíveis fatores de risco para a doença estão: o histórico familiar (principalmente em parentes de primeiro grau) ou pessoal e ainda crianças que tiveram criptorquidia – uma disfunção congênita no qual o testículo nasce fora da bolsa escrotal.

“Em casos de criptorquidia, apesar da correção na infância, ainda existe a possibilidade do desenvolvimento do tumor no futuro. Por isso, o recomendado é realizar acompanhamentos periódicos até, mais ou menos, 30 anos”, explica Denis Jardim.

Infelizmente, não existe uma maneira de prevenir que o câncer de testículo ocorra, mas o autoexame dos testículos uma vez por mês, logo após um banho quente, pode auxiliar no diagnóstico precoce.

“A temperatura irá ajudar com que o escroto fique relaxado e seja possível identificar se há alterações na região. Caso algum sintoma seja percebido, um profissional deve ser consultado o quanto antes”.

Primeira fase do diagnóstico ocorre pelo exame clínico

Após a verificação de nódulos, o oncologista explica que é pedido uma ultrassonografia da bolsa escrotal. Em seguida, são realizados também exames laboratoriais para identificação dos marcadores tumorais.

“Com a confirmação, definimos em qual momento a tomografia computadorizada do tórax, abdômen e pelve deve ser realizada. O exame nos permite analisar o estadiamento do tumor e ainda definir qual será o tratamento mais indicado para aquele paciente”, comenta o oncologista.

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Tratamento depende do estágio do tumor

De acordo com Gustavo Cardoso Guimarães, o tratamento do câncer de testículo é definido de acordo com cada paciente. A cirurgia, chamada de orquiectomia, é feita para remover o testículo com uma incisão na virilha. Nesse momento, amostras de tecido são examinadas para determinar o tipo e o estágio do câncer.

“Para o tratamento, é fundamental analisar o estadiamento, classificação de risco e tipo histológico da doença. Os tumores de testículo do tipo seminoma (o mais comum) são tratados com cirurgia, muitas vezes, associada com radioterapia ou quimioterapia a depender do estadiamento (fase de descoberta da doença)”, afirma Dr Denis.

Contudo, vale lembrar que cada estágio do tumor exige uma abordagem terapêutica diferente, incluindo a retirada do testículo por via inguinal (orquiectomia radical), que costuma ter uma recuperação bastante rápida e sem comprometer a potência sexual do paciente – caso apenas um testículo seja retirado.

Os principais protocolos são:

Quimioterapia – existem diversos esquemas quimioterápicos descritos para o tratamento do câncer de testículo. Por ser um tratamento sistêmico, feito por via venosa, tem mais efeitos colaterais porque afeta também as células saudáveis;

Radioterapia – o tratamento radioterápico fica reservado aos tumores seminomatosos, por serem mais sensíveis a esta terapia. A aplicação pode ser indicada em tumores localizados (Estadio I) e tumores retroperioneais de baixo volume (Estadios II a e b);

Orquiectomia parcial – procedimento cirúrgico em que é removido um ou os dois testículos a partir de um pequeno corte no escroto. Deve ser indicada em tumores menores que 2 cm na ausência de testículo contralateral ou déficit funcional acentuado devido a elevado risco de recorrência local; e

Orquiectomia radical – este procedimento cirúrgico, mesmo isoladamente, cura a maioria dos pacientes. Nesta técnica cirúrgica, o corte é feito na região abdominal, e não no escroto. O implante de prótese testicular pode ser feito na mesma cirurgia.

Cirurgia pode prejudicar fertilidade masculina

Em relação a sequelas da cirurgia pode haver prejuízo da fertilidade. Segundo o médico, danos a função sexual são raros e para a questão estética, no caso de remoção do testículo, há próteses. Durante a definição da escolha terapêutica, é muito importante que o paciente converse com o médico sobre o desejo de ter filhos futuramente, se houver.

“Um dos principais procedimentos a serem realizados para preservação da fertilidade é o congelamento de esperma, que deve ser discutido preferencialmente antes do início do tratamento”, explica.

Contudo, vale lembrar que a questão da fertilidade pode ser tanto definitiva, como temporária, dependendo do tratamento indicado.

“Mesmo nos casos em que a fertilidade seja temporária, o armazenamento de esperma é um cuidado importante, pois recomendamos que o paciente aguarde um período após o final do tratamento quimioterápico para ter filhos”.

Com informações de agências e assessorias

 

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