O tratamento dos tumores de rim e bexiga em fases iniciais deu um salto importante em direção à cura, mas trouxe um debate necessário sobre o bem-estar de quem vence a doença. Diversos ensaios clínicos de fase 3 apresentados no congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2026), em Chicago (EUA), mostraram que o uso da imunoterapia e de novas combinações de medicamentos antes ou após as cirurgias de rim e bexigs reduz drasticamente as chances de o câncer voltar.

No entanto, os dados ligaram um alerta crucial para a comunidade médica: a intensidade do tratamento deve ser muito bem calculada para não deixar sequelas que prejudiquem o dia a dia do paciente. Segundo especialistas, a intensificação do tratamento em cenários potencialmente curativos exige critérios de seleção extremamente refinados, sob o risco de impor toxicidades permanentes que deterioram a vida de quem venceu o câncer.

Historicamente, as grandes inovações em oncologia se consolidavam primeiro em estágios metastáticos. Agora, o foco migrou definitivamente para o cenário perioperatório, visando destruir micrometástases e evitar a recidiva do tumor após tratamentos definitivos, como a retirada cirúrgica dos órgãos afetados. 

O urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR) e coordenador da BP — A Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que o foco da medicina agora é agir cedo para eliminar qualquer célula doente antes que ela se espalhe. Essa transição muda o paradigma assistencial, mas impõe cautela.

Durante muitos anos, os avanços mais significativos ocorreram no tratamento da doença avançada. Agora, o objetivo passa a ser aumentar o número de pacientes efetivamente curados. Os estudos apresentados mostram que isso é possível em grupos selecionados, mas também reforçam a necessidade de aprimorar a seleção dos candidatos para evitar exposição desnecessária a tratamentos que podem gerar toxicidade sem benefício proporcional”, afirma o médico.

Melhora da qualidade de vida no câncer de bexiga após a cirurgia

Um dos grandes destaques do evento foi o estudo clínico focado em pacientes com câncer de bexiga que precisavam passar pela cirurgia de retirada do órgão. A análise de qualidade de vida do estudo KEYNOTE-905/EV-303. Pesquisas anteriores já haviam comprovado que combinar dois medicamentos modernos antes e depois da operação reduzia em 42% o risco de a doença avançar ou voltar, e que 36% dos pacientes ficavam totalmente sem sinais de tumor na hora da cirurgia.

O estudo avaliou a robusta combinação do anticorpo conjugado a droga enfortumabe vedotina com a imunoterapia pembrolizumabe, administrada antes e depois da cistectomia radical (remoção cirúrgica da bexiga) em pacientes com tumor músculo-invasivo inelegíveis ao tratamento padrão com cisplatina.

Dados anteriores já haviam chocado positivamente a oncologia ao registrar uma redução de 42% no risco de progressão da doença ou morte, além de um índice de 36% de resposta patológica completa (quando o tumor desaparece por completo da peça cirúrgica analisada após a operação).

A nova análise apresentada na ASCO 2026 demonstrou que a incorporação dessa forte combinação medicamentosa não causou um uma piora no bem-estar geral dos pacientes quando comparados àqueles que fizeram apenas a cirurgia.

O impacto na vida sexual e no funcionamento do intestino foi igual nos dois grupos, sendo causado pela própria retirada cirúrgica da bexiga, e não pelos medicamentos. Declínios específicos em funções intestinais e na vida sexual foram observados em patamares equivalentes em ambos os braços, sendo creditados aos severos impactos anatômicos da própria remoção da bexiga.

Outra estratégia promissora exibida para o câncer de bexiga localizado foi o estudo RAD-IO, que combinou a imunoterapia durvalumabe com protocolos de quimiorradioterapia. Os resultados preliminares de um ano apontaram que 79% dos pacientes seguiram livres da doença e a sobrevida global atingiu expressivos 96%, demonstrando boa tolerabilidade e adesão ao tratamento planejado.

Câncer de rim: 13% se arrependem de imunoterapia após cirurgia

Já o tratamento pós-cirúrgico para o câncer de rim acendeu um sinal de alerta para os efeitos colaterais de longo prazo dessas abordagens pós-cirúrgicas. Um estudo acompanhou 790 pacientes com alto risco de o tumor voltar após a cirurgia. A combinação de duas imunoterapias conseguiu aumentar de forma importante o tempo que os pacientes permaneceram livres da doença.

Contudo, uma pesquisa paralela apresentada pela cientista Elizabeth Nally, do Barts Cancer Institute (Reino Unido), revelou um dado humano preocupante: 13% dos pacientes acompanhados relataram arrependimento por terem feito o tratamento preventivo com imunoterapia com pembrolizumabe após a cirurgia de rim.

O motivo do arrependimento não foi o retorno do câncer, mas sim os efeitos colaterais permanentes que ficaram no corpo, como dores intensas nas articulações ou problemas hormonais que obrigam a pessoa a tomar remédios pelo resto da vida.

Um dado mais alarmante da pesquisa indicou que o arrependimento esteve fortemente atrelado à ocorrência de efeitos colaterais persistentes e crônicos, e não necessariamente à falha do tratamento ou ao retorno do câncer (que acometeu 14% da amostra).

O levantamento expôs uma falha nos critérios médicos tradicionais de avaliação: eventos adversos classificados em prontuários como “leves” ou de baixa gravidade pelas escalas convencionais — como disfunções endócrinas definitivas (que obrigam o paciente a tomar hormônios pelo resto da vida) ou dores musculoesqueléticas crônicas — foram descritos pelos pacientes como “transformadores de vida” de forma negativa.

O estudo mostrou que muitos efeitos considerados “leves” pelos médicos eram descritos pelos pacientes como “transformadores de vida” de forma negativa. O oncologista Brian Rini, da Universidade Vanderbilt, defendeu no congresso que os médicos precisam parar de olhar apenas para os exames e passar a ouvir mais o relato direto dos pacientes. “Precisamos entender o impacto real na vida de quem está se tratando”, explicou.

Ainda no campo do câncer renal, o estudo de fase 3 RAMPART avaliou o uso adjuvante (pós-cirúrgico) do durvalumabe, de forma isolada ou em combinação com o tremelimumabe, em 790 pacientes de alto risco de recorrência.

O uso isolado do durvalumabe reduziu o risco de retorno da doença em 26% após três anos — com 78% dos pacientes livres do tumor contra 72% no grupo sob observação ativa. Apesar de não atingir a significância estatística ideal pré-estabelecida, a combinação das duas imunoterapias aumentou significativamente o tempo de sobrevida livre de doença.

Mudança de foco: a voz do paciente no centro da tomada de decisão

Para oncologistas que lideraram os debates em Chicago, como Brian Rini, do Vanderbilt University Medical Center, o atual modelo de mensuração de toxicidades em ensaios clínicos falha em capturar a experiência humana real.  Os especialistas defenderama adoção urgente de ferramentas baseadas em desfechos relatados diretamente pelos pacientes (Patient-Reported Outcomes), inserindo a satisfação e o bem-estar pessoal como critérios de sucesso terapêutico tão importantes quanto os gráficos de sobrevida.

Na avaliação do urologista Gustavo Guimarães,  o cenário desenhado na ASCO 2026 aponta para uma expansão inequívoca da imunoterapia em estágios precoces na uro-oncologia, com benefícios nítidos em populações de alto risco. O próximo passo da evolução da medicina de precisão, contudo, dependerá da descoberta de biomarcadores moleculares mais sensíveis, capazes de predizer quem de fato obterá a cura e quem estará apenas sendo exposto a sequelas duradouras.

Para o especialista, a grande lição desse encontro científico é o equilíbrio. Eficácia, efeitos colaterais e qualidade de vida precisam ser avaliados de forma integrada para que o paciente viva mais, mas viva bem.

O avanço dos tratamentos para câncer de bexiga e rim não depende apenas do surgimento de novas drogas. Depende, fundamentalmente, da capacidade de identificar quem realmente precisa dessas terapias e de compreender seus efeitos reais ao longo dos anos”, conclui o especialista.

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