Um número crescente de pacientes que tomam agonistas do GLP-1, como Ozempic ou Mounjaro, relatou nas redes sociais um efeito colateral surpreendente: a gravidez inesperada, que para alguns pacientes ocorreu após anos de luta contra a infertilidade.
Os relatos foram apelidados pela imprensa norte-americana de “Baby Boom Ozempic”, em analogia aos crescentes relatos que fazem a relação entre os medicamentos e a melhora da fertilidade.
O uso das chamadas canetas emagrecedoras – como Ozempic, Wegovy e similares – segue em alta no Brasil, principalmente entre mulheres em idade fértil. Apesar da promessa de emagrecimento rápido, os impactos dessas medicações na fertilidade ainda são pouco debatidos fora dos consultórios.
De acordo com dados divulgados em junho de 2025 pelo New York Post e pela Pharmacy Times, cerca de 15% das pacientes em uso de agonistas de GLP‑1 relataram alterações no ciclo menstrual e na ovulação.
Já entre homens, um estudo apresentado na American Urological Association (AUA 2025) indicou uma melhora de até 2,8% na normalização da contagem de espermatozoides, mostrando que o impacto pode variar conforme o perfil de cada paciente.
Além disso, a agência regulatória do Reino Unido (MHRA) emitiu, em junho de 2025, um alerta sobre mais de 40 casos de gestações inesperadas durante o uso de medicamentos como semaglutida e tirzepatida, reforçando a importância de orientação contraceptiva para quem não deseja engravidar.
Canetas emagrecedoras podem comprometer a eficácia dos anticoncepcionais?
O uso de medicamentos para controle do peso e do diabetes, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, tem levantado dúvidas importantes entre mulheres em idade reprodutiva e profissionais de saúde: afinal, essas medicações podem interferir na eficácia dos métodos contraceptivos? A resposta, segundo especialistas, exige atenção às diferenças entre os fármacos disponíveis, ao tipo de contraceptivo utilizado e ao momento do tratamento.
De acordo com a professora de Ginecologia, Madalena Oliveira, não há evidências de que as canetas emagrecedoras interfiram diretamente nos hormônios sexuais ou no mecanismo de ação dos contraceptivos. “Essas medicações não atuam anulando o anticoncepcional de forma direta. O principal ponto de atenção está nos efeitos gastrointestinais, especialmente no retardo do esvaziamento gástrico”, explica. Esse efeito pode reduzir a absorção dos anticoncepcionais orais em situações específicas, como no início do tratamento ou durante o aumento da dose.
Atualmente, duas classes de medicamentos são utilizadas com a finalidade de perda de peso: a semaglutida e a tirzepatida. . Segundo a ginecologista, estudos recentes mostram que a semaglutida não altera de forma relevante a concentração sérica dos hormônios dos anticoncepcionais orais. “No caso da semaglutida, os métodos hormonais orais podem ser mantidos, desde que haja acompanhamento médico”, afirma.
O cenário é diferente com a tirzepatida. Ainda não há evidências conclusivas de que ela aumente falhas contraceptivas. No entanto, um estudo sobre o impacto da substância na contracepção hormonal oral publicado Journal of the American Pharmacists Association, aponta uma redução de cerca de 20% na exposição plasmática aos hormônios dos anticoncepcionais orais quando os medicamentos são usados em associação.
“Essa redução não ocorre por interação medicamentosa clássica, como acontece com anticonvulsivantes, mas sim pela lentificação do esvaziamento gástrico, que diminui a absorção do contraceptivo oral”, esclarece a professora de Ginecologia. Diante dessa incerteza, a recomendação atual é cautela. “Enquanto não temos estudos definitivos, evitamos contraceptivos orais em usuárias de tirzepatida. Se a paciente optar por mantê-los, é fundamental associar um método de barreira”, orienta.
A professora de EndocrinologiaAlana Rocha Puppim, reforça que as canetas emagrecedoras não interferem nos hormônios sexuais nem no funcionamento de métodos contraceptivos que não dependem da absorção intestinal. “DIU, implante subdérmico, anticoncepcionais injetáveis, adesivo e anel vaginal não sofrem esse tipo de interferência e são considerados opções seguras para mulheres em tratamento com essas medicações”, explica.
Outro aspecto que merece atenção é o impacto da perda de peso sobre a fertilidade. Segundo Alana, o excesso de peso pode comprometer a ovulação e a função hormonal. “Quando a paciente está acima do peso ideal, há um impacto negativo na fertilidade. Com a perda de peso, esse cenário pode se reverter”, afirma. Na prática clínica, isso se traduz em um aumento da chance de gravidez. “É relativamente comum vermos mulheres que tinham dificuldade para engravidar passarem a ovular e conceber após o ajuste do peso”, relata a endocrinologista.
Por esse motivo, ambas as especialistas reforçam que mulheres que iniciam o uso dessas medicações devem receber orientação adequada sobre contracepção. “A perda de peso por si só já pode aumentar a fertilidade, e isso eleva o risco de uma gestação não planejada”, alerta Alana. Além disso, mulheres que desejam engravidar devem suspender o uso das canetas com antecedência. “A recomendação é interromper o medicamento pelo menos 30 a 60 dias antes de tentar engravidar, já que não há segurança para o uso dessas drogas durante a gestação”, complementa a ginecologista.
Diante desse contexto, a orientação é de que a escolha do método contraceptivo deve ser individualizada e feita em conjunto com o médico, levando em conta o tipo de medicação utilizada, o perfil da paciente e seus planos reprodutivos. Segundo as especialistas, nenhuma mulher deve suspender ou modificar seu método contraceptivo por conta própria ao iniciar o uso das canetas emagrecedoras. Nesse sentido, informação de qualidade e acompanhamento profissional são fundamentais para garantir segurança reprodutiva, prevenir gestações não planejadas e assegurar a eficácia do tratamento para controle do peso ou do diabetes.
Maiores chances de gravidez?
Paulo Tudech, especialista em reprodução humana da Nilo Frantz Medicina Reprodutiva, lembra que até o momento, não há estudos que comprovem ganho de fertilidade apenas pelo uso da semaglutida.
O que existe é a evidência de que a perda de peso equilibrada melhora a função ovulatória, o ambiente uterino e, em alguns casos, a qualidade dos óvulos e dos espermatozoides. Por isso, é fundamental acompanhamento médico, exames regulares e planejamento reprodutivo claro” finaliza o médico.
A semaglutida atua principalmente no controle do apetite e do metabolismo, mas esses efeitos repercutem de forma sistêmica. Em mulheres, podem ocorrer alterações no eixo hormonal, ciclos irregulares ou até impacto sobre a reserva ovariana, dependendo da intensidade da perda de peso e do estado nutricional.
Por outro lado, para pacientes com obesidade ou síndrome dos ovários policísticos (SOP), essas medicações podem ser grandes aliadas, já que a perda de peso melhora a sensibilidade à insulina e favorece a ovulação. O risco está no uso sem indicação, sem monitoramento e com expectativas irreais”, explica.
Para o especialista, o tema deve ser abordado com cautela, informação de qualidade e acompanhamento personalizado. Segundo ele, o medicamento deve ser visto como uma ferramenta dentro de um contexto mais amplo, que inclui alimentação equilibrada, prática de exercícios físicos regulares, sono de qualidade e cuidado com a saúde intestinal — fatores que influenciam diretamente a fertilidade.
Para Paulo Tudech, a chegada de medicamentos mais acessíveis ao mercado – como Lirux e Olire – amplia a responsabilidade sobre o uso consciente. A produção nacional democratiza o acesso, mas reforça a urgência de informação técnica e acompanhamento especializado.
Defendemos o tratamento multidisciplinar: endocrinologistas, nutricionistas e especialistas em reprodução trabalham juntos para que o paciente emagreça de forma saudável e preserve sua saúde reprodutiva.”
O médico também alerta para um ponto pouco discutido: o risco da perda de peso excessiva. “A magreza extrema também compromete a fertilidade, pois níveis muito baixos de gordura corporal reduzem a produção hormonal, prejudicando a ovulação e a qualidade dos óvulos. É um equilíbrio: perder peso em excesso, de forma descontrolada, pode ser tão prejudicial quanto a obesidade.”
Risco de gravidez não planejada
O médico Vamberto Maia Filho, ginecologista especializado em reprodução humana chamou atenção para um efeito pouco discutido: a perda de peso pode restaurar ciclos menstruais em mulheres com sobrepeso, aumentando a fertilidade e o risco de gravidez não planejada se não houver contracepção adequada.
Por isso, mulheres em idade fértil devem conversar com seus médicos sobre planejamento reprodutivo e métodos contraceptivos antes de iniciar o tratamento, já que há risco real de gravidez não planejada devido ao retorno da ovulação.
Ao reduzir peso e melhorar a resistência à insulina, parte das pacientes retoma a ovulação e a regularidade dos ciclos, elevando a chance de engravidar”, reforça.
Crédito: Canva.
O que muda para comprar (regra da Anvisa)
Desde 23 de junho de 2025, agonistas de GLP‑1 (como semaglutida, tirzepatida e liraglutida) têm retenção obrigatória da receita nas farmácias, com prescrição em duas vias e validade limitada. A medida busca coibir automedicação e uso indiscriminado. Acompanhamento médico é indispensável para ajuste de dose e monitoramento de efeitos adversos.
Por que isso importa para a saúde ginecológica
Durante a gravidez e o puerpério, ainda faltam evidências científicas robustas sobre a segurança desses compostos. Por isso, o uso das canetas emagrecedoras deve ser suspenso assim que a mulher descobre a gravidez, por exemplo, e também não é recomendado durante a amamentação.
Caso a paciente descubra uma gravidez durante o uso, deve procurar seu médico imediatamente para fazer a suspensão de forma segura. O acompanhamento profissional é essencial para garantir eficácia, ajuste correto das doses e monitoramento de possíveis efeitos adversos.
Os estudos em animais mostraram riscos de efeitos adversos para o desenvolvimento fetal, incluindo reabsorção embrionária, retardo no crescimento e até malformações. Em humanos, ainda não temos dados suficientes, mas pela via de ação do GLP-1 e seus impactos hormonais, a recomendação é suspender assim que a gestação for confirmada”, explica.
A população em geral também deve estar atenta: GLP‑1 não é um medicamento estético, e nunca deve ser usado sem prescrição médica. A automedicação pode trazer riscos sérios, especialmente para gestantes e lactantes.
“Bebê Ozempic”: canetas emagrecedoras estariam ligadas a casos de gestação inesperadas
Especialista em fertilidade explica fatores que podem a relatos de um suposto efeito colateral de medicações injetáveis usadas em casos de diabetes e obesidade que vem agitando as redes sociais
Uma polêmica nas redes sociais indica que mulheres teriam sofrido um efeito colateral inesperado por uso de canetas emagrecedoras: gravidez. No Facebook, uma comunidade com mais de 500 participantes vem reunindo histórias curiosas de quem afirma ter engravidado, mesmo fazendo uso de anticoncepcional, durante o uso das populares canetas injetáveis, como Ozempic e Mounjaro – medicamentos desenvolvidos originalmente para o tratamento do diabetes tipo 2 e cuja adoção para controle de peso vem se mostrando eficaz. Além disso, há inúmeros relatos em perfis no Tik Tok.
Mas até que ponto essas drogas podem de fato estar ligadas à gravidez inesperada? Para o especialista em fertilidade Dr. Edson Borges, Diretor Médico do FertGroup, o efeito, que vem sendo chamado de “bebê Ozempic”, pode estar ligado ao fato de as medicações agirem não apenas na perda de peso, como potencialmente na correção de eventuais desequilíbrios hormonais e metabólicos que estavam prejudicando a fertilidade.
Em geral, essas drogas agem simulando a ação do GLP-1, hormônio produzido no intestino que regula a glicemia, diminui a fome e aumenta a saciedade. Sabidamente, a obesidade e o diabetes são considerados doenças crônicas que afetam a fertilidade. Portanto, quando essas condições de saúde são tratadas adequadamente, as chances de engravidar aumentam”, explica o médico.
Em linha com essa visão, um fator que pode estar ligado à ocorrência de gravidez entre mulheres que realizam tratamento para emagrecer está na associação entre síndrome dos ovários policísticos, falta de ovulação e obesidade. Em muitos dos relatos, há mulheres que contam terem enfrentado problemas de infertilidade anteriores ao remédio para redução do peso. “O emagrecimento resultante do uso desses remédios melhora índices metabólicos, contribui para o equilíbrio hormonal e favorece os ciclos ovulatórios, levando a maiores chances de gravidez”, diz o Dr. Edson.
Os relatos levantam ainda dúvidas relativas à uma possível interferência das drogas GLP-1 na absorção de contraceptivos orais, um suposto fator capaz de levar à falha no controle de natalidade em algumas situações reportadas. “Ainda assim, é preciso lembrar que análises específicas de cada caso e novas pesquisas precisam ser realizadas para geração de dados suficientes na avaliação dessa suposta correlação das ‘canetas emagrecedoras’ com o aumento no risco de gestação indesejada por aquelas mulheres que fazem uso de medicações contraceptivas”, enfatiza.
Da mesma forma, considerando que os estudos clínicos iniciais com Ozempic e drogas semelhantes não foram realizados em mulheres que querem engravidar ou que engravidam enquanto fazem uso deste tipo de medicamento, não é possível afirmar os tipos de efeitos adversos, como problemas à formação do bebê ou aumento no risco de aborto espontâneo, podem ser ocasionados.
A orientação geral para as mulheres é que sempre busquem aconselhamento médico especializado antes de fazer uso de medicações com semaglutida, tanto para obesidade quanto para diabetes tipo 2. Os riscos e benefícios devem ser avaliados de acordo com cada caso. Especificamente para casos a mulheres em processo de emagrecimento que desejem engravidar ou, por ventura, descubram uma gestação, a recomendação é suspender o uso de canetas injetáveis”, finaliza o Dr. Edson Borges.
Perda de peso pode afetar a ovulação e a fertilidade
Pouco se sabe sobre os efeitos do Ozempic e de medicamentos semelhantes em mulheres que desejam engravidar ou que engravidam enquanto tomam os medicamentos, porque foram especificamente excluídas dos primeiros ensaios clínicos do medicamento.
No entanto, já é bem estabelecido pela ciência que há melhora da ovulação com a redução da resistência à insulina e do peso, dois benefícios promovidos por esse tipo de medicamento”, pontua Fernando Prado, especialista em Reprodução Humana, membro da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) e diretor clínico da Neo Vita.
“A perda de peso pode afetar a ovulação e a fertilidade. Da mesma maneira, com o equilíbrio dos hormônios e a melhora da resistência à insulina, o acesso hormonal volta a funcionar e isso pode ajudar com que as mulheres comecem a ovular novamente – e dependendo do grau de resistência à insulina e obesidade, elas podem não estar ovulando há anos. Há uma suspeita, também, de que os medicamentos interfiram nos contraceptivos orais em alguns pacientes”, diz o médico.
No entanto, existem diversos marcadores relacionados à fertilidade de um casal, que quando quer engravidar precisa ser acompanhado por uma equipe especializada e multidisciplinar. Não faz sentido usar um medicamento para emagrecer, sem orientação médica, com o objetivo de engravidar”, diz o Dr. Fernando.
Segundo a Dra. Deborah, pacientes obesos com fator de risco para hipertensão arterial, dislipidimias, infarto e AVC também podem se beneficiar do emagrecimento promovido por esse tipo de medicamento. Em breve, o Brasil também receberá outros compostos, mais potentes, o que poderá trazer ainda mais benefícios. “A tirzepatida (análogo do GLP-1 e de outro hormônio, GIP) promete um efeito adicional ao melhorar a secreção de insulina pelas células beta do pâncreas. Em estudos, existe a droga experimental retatrutida (além dos dois hormônios, GLP-1 e GIP, mimetiza mais um, o glucagon).
O medicamento ajudou as pessoas a perder, em média, cerca de 24% de seu peso corporal. Enquanto a GIP melhora a forma como o corpo decompõe o açúcar, o glucagon pode reduzir o apetite e ajudar o metabolismo a funcionar com mais eficiência. A ciência está ‘pegando’ essas moléculas normais de sinalização presentes no corpo e as transformando em medicamentos”, destaca a Dra. Marcella.
Mas todos eles precisam ser administrados com prescrição e acompanhamento médico. “O tratamento de obesidade é individualizado, há pacientes com padrão compulsivo, outros com depressão associada, insônia, saciedade reduzida, ansiedade, metabolismo lento. Todos esses fatores devem ser analisados para avaliar as melhores medicações e, também, reduzir os efeitos colaterais”, finaliza a endocrinologista.




