Corrida por caneta para emagrecer revela abismo social no Brasil

Os riscos da automedicação e uso de semaglutida para perder pouco peso, por questão estética e não para obesidade ou diabetes

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Produzida por companhia Dinamarquesa, semaglutida é destinada para tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade. — Foto: Reprodução/Fantástico

Produzida por companhia Dinamarquesa, semaglutida é destinada para tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade. — Foto: Reprodução/Fantástico

Com 220 kg, mulher faz vaquinha on-line para comprar ‘caneta’

Moradora de Itajaí (SC), Estela, de 33 anos, representa muitos brasileiros com obesidade. Ela chegou a pesar mais de 220 quilos e enfrenta sérios problemas de saúde por conta disso. Ao procurar um médico, foi orientada a tomar a medicação.

“E aí você vai ver, custa mil e poucos reais e a sua mãe recebe R$ 800 para você comer, para você pagar a luz. Não tem como”, disse Estela, emocionada.

Sem outra saída, mas determinada a mudar sua condição e ganhar mais qualidade de vida, ela resolveu lançar uma vaquinha on-line.

“Não tinha outra opção para mim. A outra opção seria eu vegetar em cima de uma cama até morrer. Eu passava noites e noites sentada na cama. Um dia eu acordei, eu falei ‘eu vou sair e vai ser hoje’ e aí eu botei a cara no Instagram”, relata a catarinense.
A campanha deu certo. Com o dinheiro das doações, ela conseguiu comprar uma caneta de semaglutida. Depois apareceram outras pessoas para ajudar com mais quatro canetas. Com ajuda da medicação, Estela viu o ponteiro da balança cair para 181 quilos.
“Eu quero vida, saúde. Tudo isso agora eu estou conseguindo graças a Deus”, afirma Estela, que fez uma cirurgia bariátrica em 2023 e agora pesa 154 quilos.

Comentários gordofóbicos nas redes sociais

Não foi nada fácil para Estela. Triplamente estigmatizada por ser pobre, negra e obesa, ela ainda teve que enfrentar cyberbullying e o ódio na internet – foram muitos os comentários gordofóbicos que recebeu no Instagram.

“Quando eu postei falando sobre a história com o link da vaquinha e pedindo para que as pessoas me ajudassem doando, muitas disseram que o dinheiro era para comprar meu caixão, que eu já ia morrer, que ninguém mandou eu comer demais, que era para eu ter visto isso antes”, lamenta Estela.
Cláudia, mãe de Estela, também enfrenta problemas com a obesidade, mas não tem dinheiro e não está disposta a ir para a internet buscar ajuda para conseguir comprar a medicação, depois dos absurdos que a filha teve que enfrentar nas redes sociais.

“A cada crítica de palavra dolorosa que magoava ela, me magoava também. Aquelas fotos dela, ela na cama, ela em pé, abrindo o coração dela e ouvindo coisas duras porque não é fácil a pessoa se expor. Não é [fácil]”, diz Cláudia.

‘Por conta do remédio eu não sinto mais a fome’

A realidade de Cláudia e Estela nem de longe se compara à de Natacha, 29 anos, que mora em Tatuí, interior de São Paulo. Para perder alguns quilinhos, ela recorreu ao uso da semaglutida. E tem conseguido controlar a fome e perder peso – nem termina de comer o pouco que tinha no prato.

“Eu mudei todo o meu hábito alimentar. Por conta do remédio eu não sinto mais a fome. Como um pedacinho de chocolate, já fico satisfeita, uma cervejinha também”, conta Natacha.

Ela diz que decidiu optar pela medicação depois de observar nas redes sociais influenciadoras que perderam peso com dieta e academia, mas de forma muito rápida. “Eu notei que era um período meio curto, então eu desconfiei que também fizessem o uso do medicamento”, conta.

Natacha revela que, após emagrecer com as canetinhas, passou por procedimentos estéticos e gastou mais de R$ 154 mil. Satisfeita com o resultado, passou a postar fotos de biquini, exibindo o novo corpo e atraindo muitos comentários positivos.

Afinal, o mundo das redes sociais – infelizmente – ainda é de pessoas magras, brancas, ricas e felizes.

O poder do remédio x automedicação e efeitos colaterais

Qual é, afinal, o efeito mágico das canetinhas de semaglutida? Assim como outros medicamentos da mesma classe, a semaglutida age de forma semelhante ao GLP1,  um hormônio produzido no intestino depois de uma refeição.

“Então, ele vai no estômago, segura um pouco mais a comida lá, então isso dá uma sensação de saciedade”, explica Maria Edna de Melo, endocrinologista do Hospital das Clínicas da USP.

Ainda de acordo com a médica, a medicação age de forma diferente dos medicamentos mais antigos, que agiam via serotonina e noradrenalina, o que poderia ter impacto também no humor e na frequência cardíaca.

“Elas acabam utilizando muitas vezes de forma inadequada e levando ao aparecimento de efeitos colaterais mais intensos, como náusea, até vômitos”, explica Maria Edna de Melo.

Também ao ‘Fantástico’, a dermatologista Maria Fernanda Guazzelli disse que, nas últimas semanas, não passa um único dia sem que uma paciente se queixe de flacidez na pele depois do uso dessas medicações.

“Muitos notaram como se fosse esse derretimento. Uma perda muito rápida de peso. A pessoa perde compartimentos de gordura tanto de corpo quanto de rosto. E a gordura, para nós, é um tecido importante de sustentação da pele”, relata. “Já tive uma paciente que quase não conseguia beber água devido aos efeitos decorrentes da automedicação em excesso”, ressalta Maria Fernanda.

A indústria bilionária por trás da febre das ‘canetinhas’ para emagrecer

Para valorizar ainda mais a novidade, a revista Science, uma das mais respeitadas do mundo, considerou o medicamento usado para tratar obesidade como uma das grandes inovações recentes da ciência no ano passado.

No entanto, o acesso a essa descoberta da ciência é limitado para algumas pessoas devido ao custo elevado. Enquanto pessoas com baixo poder aquisitivo e que realmente necessitam emagrecer para ter saúde precisam fazer ‘vaquinhas’ na internet para ter acesso aos medicamentos, a indústria farmacêutica fatura alto.

A febre mundial da semaglutida – conhecida pelo nome comercial de Ozempic – levou a fabricante das medicações, a dinamarquesa Novo Nordisk, a desbancar a empresa mais valiosa até então da Europa, a Louis Vuitton, marca de bolsas e malas de viagem de luxo.

“A Novo Nordisk vale 480 bilhões de dólares. O PIB da Dinamarca sem a indústria farmacêutica, teria sido menos 0,5% nos primeiros 9 meses de 2023 e o PIB cheio total foi 1,3% para cima, uma diferença muito grande”, disse Gustavo Campanhã, gestor de ações e sócio da WHG.

No Brasil, a medicação foi a mais vendida em 2021, de acordo com a Associação de Indústria Farmacêutica de Pesquisa. Nas redes sociais, não faltam propagandas, inclusive de farmácias. Como muitas não exigem receita, algumas pessoas se automedicam e ainda ensinam na internet como “turbinar” as aplicações.

A procura é tanta que vem despertando o interesse de golpistas. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou recentemente ter identificado lotes de Ozempic falsificados, um problema que já se repete desde o início de 2023 não só no Brasil, mas em outras partes do mundo.

Com informações do ‘Fantástico’

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