As estratégias de enfrentamento ao tabagismo ganharam um novo capítulo que coloca a cidade do Rio de Janeiro sob os holofotes da saúde pública global. Um estudo de caso publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) às vésperas do Dia Mundial Sem Tabaco (31 de maio) destaca o município como uma referência internacional na contenção dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs), os populares vapes.

A atuação intersetorial e a inovação na vigilância sanitária carioca foram apontadas pela entidade como um modelo a ser replicado por outras grandes metrópoles das Américas e do mundo. No entanto, o avanço desses produtos traz novos e complexos desafios clínicos para quem tenta abandonar o vício.

Em paralelo ao reconhecimento do Rio, dados do PrevFumo — ambulatório de cessação do tabagismo do Hospital São Paulo (HSP) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) — revelam que a proporção de pacientes que buscam ajuda médica com histórico de uso prévio de cigarro eletrônico dobrou, passando de 4,1% para 8,1% entre 2018 e 2025.

O crescimento progressivo acende um alerta entre pneumologistas e terapeutas. Muitos usuários recorrem ao vape sob a falsa premissa de que o aparelho serviria como um degrau ou um aliado menos nocivo para interromper o consumo do cigarro convencional. Na prática, o que os especialistas observam é o estabelecimento do chamado uso duplo (ou associado).

O que temos observado é que muitos pacientes não substituem completamente o cigarro convencional pelo eletrônico, mas passam a utilizar os dois produtos simultaneamente, mantendo a dependência à nicotina”, explica a pneumologista Lygia Sampaio, coordenadora do PrevFumo.

O perigo da falsa alternativa: a armadilha do uso associado

O perfil epidemiológico do levantamento do PrevFumo ajuda a desenhar o comportamento desse novo consumidor que chega ao Sistema Único de Saúde (SUS):

  • Predomínio feminino: As mulheres representam a maioria expressiva, equivalendo a 59% dos pacientes com histórico de uso de vaporizadores.

  • Faixa etária concentrada: A maior parcela está entre os adultos jovens de 30 a 39 anos (39% do total), seguidos de perto pelo público com menos de 30 anos (28%). A faixa de 40 a 49 anos responde por 21% dos casos, enquanto idosos com 50 anos ou mais representam 12%.

Rio de Janeiro sob a ótica da OMS: tecnologia e rigor fiscalizatório

A urgência em conter esse mercado ilegal é ratificada pelos indicadores locais. Embora o comércio, a importação e a propaganda dos DEFs sejam proibidos no Brasil desde 2009 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — restrição reforçada pela Resolução RDC 855/2024 —, estimativas do sistema Vigitel, do Ministério da Saúde, apontam que 263 mil cariocas já experimentaram cigarros eletrônicos e cerca de 76 mil os utilizam regularmente.

Para frear essa escalada, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) do Rio estruturou um plano coordenado que atraiu o aval da OMS e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). O plano se apoia na modernização das vistorias conduzidas pelo Instituto Municipal de Vigilância Sanitária (IVISA-Rio).

Os processos físicos em papel foram substituídos por uma plataforma eletrônica integrada. Munidos de tablets, os fiscais preenchem listas de verificação padronizadas, anexam evidências fotográficas em tempo real e emitem sanções de forma imediata. Entre 2019 e o final de 2023, o órgão realizou mais de 10 mil inspeções em ambientes livres de fumo, gerando mais de 5,5 mil autuações.

As cinco frentes estratégicas do Rio de Janeiro

Para estruturar o combate ao fumo e a fiscalização dos vaporizadores, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) do Rio de Janeiro atua de forma coordenada em cinco pilares fundamentais:

  • Ambientes 100% livres de fumo: Aplicação rigorosa da legislação em recintos coletivos fechados, reforçada pela Resolução SMS Nº 6.409/2025, que exige avisos visuais claros sobre a proibição de produtos derivados ou não do tabaco.

  • Oferta de tratamento integral: Assistência médica e terapêutica gratuita descentralizada, disponível em todas as 240 unidades de Atenção Primária da cidade.

  • Ações contínuas de prevenção: Trabalho de campo intersetorial que une a saúde pública à Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEOP) para combater o comércio ilegal.

  • Divulgação e conscientização da lei: Disseminação ativa das restrições nacionais estabelecidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e das normas municipais.

  • Mobilização em datas estratégicas: Atividades intensificadas de comunicação, como as realizadas no Dia Mundial Sem Tabaco, para alertar a população sobre os riscos das novas formas de fumo.

Cooperação nas ruas e engajamento digital

O estudo de caso da OMS ressalta que o sucesso carioca decorre da articulação entre a SMS, o IVISA-Rio e a Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEOP). Operando em conjunto com um contingente de aproximadamente 400 agentes de fiscalização, os órgãos realizam vistorias em estabelecimentos comerciais e no mercado informal para coibir a distribuição e a publicidade dos dispositivos, alinhando a cidade ao Protocolo para Eliminar o Comércio Ilícito de Produtos de Tabaco.

A estratégia municipal incluiu ainda campanhas massivas de comunicação com forte apelo digital. Anúncios pagos nas redes sociais alcançaram mais de 451 mil pessoas na cidade. Uma pesquisa de recall pós-campanha validou a eficácia da abordagem: 68% dos cidadãos expostos aos conteúdos discutiram o tema com familiares ou amigos, e 90% afirmaram ter tentado desencorajar o uso de cigarros eletrônicos em seus círculos sociais.

Tanto na capital fluminense quanto em São Paulo, o suporte para quem deseja romper o ciclo da dependência química permanece acessível e gratuito na rede pública. Na cidade do Rio, o atendimento está distribuído por todas as 240 clínicas da família e centros municipais de saúde. Já em São Paulo, o serviço de assistência do PrevFumo (Unifesp) realiza acolhimentos por meio de agendamentos telefônicos pelos contatos (11) 5572-4301 e (11) 5576-4848.

*Com informações da OMS, da Unifesp e SMS-Rio

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