A morte da médica-veterinária Vitória Valle de Oliveira Pinha, de 36 anos, neste sábado (22 de agosto), chocou o país e trouxe de volta aos holofotes o debate sobre a prevenção de ataques de cães e a necessidade de normas rígidas de segurança. Vitória faleceu após passar quatro dias na UTI do Hospital de Base do Distrito Federal devido aos graves ferimentos sofridos na terça-feira (18), quando foi atacada na região do pescoço por um pastor-belga-malinois do canil da Casa.

Ela atuava como funcionária terceirizada no Serviço de Cinotecnia do Senado Federal, setor responsável pelo treinamento e emprego de cães especializados em atividades da Polícia Legislativa, conta com quatro cães policiais adultos, preparados principalmente para operações de detecção e apoio às equipes de segurança.A 5ª Delegacia de Polícia Civil do DF e o próprio Senado investigam o caso para apurar as circunstâncias do acidente de trabalho.

51 mortes por ataques de cães no Brasil desde 2023

A tragédia no Senado não é um fato isolado. O Brasil registrou 51 mortes por ataques de cães em 2023, um aumento de 27% em relação ao ano anterior, segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Além disso, as internações hospitalares pelo SUS saltaram 43,41% nos últimos anos, segundo dados do DataSUS, do Ministério da Saúde.

A tragédia reaviva a dor de muitas outras famílias e vítimas que carregam as marcas físicas e emocionais do trauma. O drama se soma a outros relatos marcantes, como o da escritora Roseana Murray, atacada por três cães da raça pitbull em Saquarema, no Rio de Janeiro, resultando na perda de seu braço direito, e do apresentador de TV José Roberto Burnier, ferido ao defender seus animais em São Paulo.

A influenciadora Ju Isen, por exemplo, iniciou recentemente em São Paulo uma nova etapa de tratamentos estéticos — já orçados em mais de R$ 40 mil — para tentar corrigir sequelas no rosto provocadas pela mordida de um Akita Inu ao tentar fazer carinho no animal durante a virada do ano no México.

Fiquei quase seis meses sem sentir cheiro algum. O trauma foi físico e emocional. Mesmo depois da cirurgia, o espelho não me devolvia a pessoa que eu era. Esse tratamento é uma forma de reconstrução, não apenas física, mas também psicológica”, desabafa Ju Isen.

A importância da prevenção e da guarda responsável

Qualquer cão, independentemente de raça ou porte, pode apresentar comportamento agressivo se não for devidamente socializado, treinado e mantido sob condições adequadas. Para especialistas, o comportamento agressivo em cães não deve ser associado exclusivamente a uma raça específica, mas sim ao histórico de criação, bem-estar e ambiente do animal.

O comportamento agressivo em cães pode ser influenciado por uma série de fatores, incluindo genética, ambiente, treinamento e socialização. Qualquer cão, independentemente da raça, pode exibir comportamento agressivo se não for devidamente treinado, socializado ou se estiver sujeito a condições inadequadas de criação”, pontua o comportamentalista animal Wagner Brandão, formado pela Universidade de São Paulo (USP) e ex-treinador de cães policiais.

A professora de Medicina Veterinária do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Fabiana Volkweis, reforça que o aumento dos casos reflete falhas no manejo e na guarda consciente.

A situação demanda resposta imediata, tanto do poder público quanto da sociedade. Não se trata apenas de segurança, mas também de saúde pública. A guarda responsável inclui impedir que o animal tenha acesso livre às ruas, onde fica exposto a atropelamentos, brigas e doenças”, alerta Fabiana, lembrando que os tutores respondem civil e criminalmente por eventuais danos causados por seus animais.

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Como agir em situações de risco e prevenir acidentes

Saber identificar os sinais emitidos pelo cão e agir corretamente diante de uma aproximação pode evitar que o perigo se concretize. O comportamentalista Wagner Brandão e a médica-veterinária Fabiana Volkweis destacam recomendações fundamentais:

  • Evite o contato visual direto: Encarar um cão olho no olho é percebido como um desafio ou ameaça. “Olhe para cima, para o lado, mas evite ao máximo o contato visual direto”, orienta Wagner.

  • Mantenha a calma e afaste-se devagar: Correr ou gritar estimula o instinto de perseguição do animal. “O ideal é manter postura firme, evitar confronto direto e se afastar lentamente”, explica Fabiana.

  • Respeite o espaço do animal: Nunca perturbe cães enquanto estão comendo, brincando ou dormindo. Preste atenção aos sinais corporais, como orelhas para trás, rosnados ou pelos eriçados.

  • Proteja regiões sensíveis: Se o cão avançar, utilize mochilas, bolsas ou casacos como barreira física para proteger mãos, pescoço e rosto.

  • Uso indispensável da guia (#CãoSemGuiaNão): O treinador Fernando Lopes, apoiador da campanha nacional, alerta que mesmo cães dóceis podem ter reações imprevisíveis diante de barulho ou sustos. “O que parece um gesto de liberdade pode terminar em tragédia. A guia é um equipamento de segurança, não uma restrição ao bem-estar do animal”, sintetiza.

O que fazer em caso de ataques

Em caso de mordida, a orientação médica é lavar o local imediatamente com água e sabão por vários minutos e procurar atendimento de urgência para avaliar a necessidade de vacina antirrábica e antibióticos. A avaliação profissional é indispensável para evitar infecções graves e realizar a profilaxia contra a raiva e outras complicações.

Registros crescentes de ataques por matilhas em áreas urbanas, como no Distrito Federal, reforçando o perigo da circulação de animais sem supervisão. A legislação brasileira prevê a responsabilidade civil e criminal dos tutores por danos causados por seus animais, reforçando que a guarda responsável é um dever de toda a sociedade.

A integração entre a saúde humana, a saúde animal e o meio ambiente — conceito que sustenta o pilar de Saúde Única — mostra-se fundamental nessa discussão. Ambientes de criação inadequados, estresse ambiental, falta de controle populacional, abandono e falhas na conscientização dos tutores geram impactos diretos na segurança pública e na saúde coletiva.

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